terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Velha

 

Tem gente que já nasceu velha. Não importa a idade, a pessoa já era velha desde nova. Diferente do cabra que, mesmo depois dos 60, ainda é jovem, na mente pelo menos, quiçá no corpo, com todas essas academias por aí, e na alma, com todas as emoções que o cinema pode proporcionar.

É que gente velha, com o pensamento velho, tende a ser cacete, como Machado de Assis gostava de descrever: o sujeito maçante, chato, enjoado, trocho, manguara, ou seja, velho! Sem apelação. E mesmo não conhecendo algumas dessas palavras, dá pra intuir o significado só pelo som de cada uma, assim que sai da boca. Portanto, chato.

Pois eu, depois de muito evitar essa palavra, acabei por me dar por vencido quando tive de explicar o real motivo pelo qual eu chamei o técnico do ar-condicionado. O bicho é novo e não tem nada de errado; está funcionando corretamente, como inclusive sentenciou o rapaz, assim que o auscultou metodicamente.

Ocorre que, para justificar o meu chamado, eu tive de contar pra ele que a vizinha de baixo, sempre que me encontra, diz que o meu ar faz muito barulho e que ela não consegue dormir. Assim posto, que ele desse uma boa olhada, limpasse o filtro de ar, botasse óleo onde precisasse, apertasse os parafusos do suporte, conferisse se a grade estava frouxa etc. Ele, por sua vez, lembrou da ocasião em que foi instalado o dito cujo, por ele próprio, que não fazia muito tempo e que, daquela vez, o tio, dono da empresa, até tinha vindo junto e chegou a elogiar o trabalho do sobrinho.

– Mas realmente, seu Anderson, o seu climatizador está em perfeitas condições de uso.

– Como? Quem?

– O seu ar-condicionado.

– Agora o amigo me assustou – disse eu, em tom de piada, pra descontrair, uma vez que o rapaz já estava me dando como doido por acionar o técnico e pagar por uma visita na qual não havia nada a se fazer.

Foi nessa hora, de plena incredulidade do especialista, que eu acabei por me render e concordar com ele que a tal vizinha estava reclamando sem razão, pois o aparelho não tinha nada que ver com o barulho que ela ouvia. Aliás, disse ele, isso aqui está muito bom. Trata-se de um trabalho muito bem-feito. Ao final da frase deu um risinho e piscou o olho, pra que eu entendesse que era uma referência ao seu próprio trabalho, um autoelogio. Eu sorri também e concordei vivamente.

– Enfim, eu chamei você aqui pra ver se tem alguma coisa que possa ser feita, pra que a vizinha não reclame mais comigo.

– Olha, realmente, nada que eu faça aqui vai melhorar o que já está bom. Essa mulher deve ter o sono leve demais. Ou então é uma chata, que vive pra reclamar dos vizinhos.

– Ela é uma senhorinha. Idosa talvez, mas...

– Uma velha chata, isso sim!

– Ok, uma velha a quem eu preciso convencer de que o meu ar-condicionado está bom e não faz barulho anormal algum. Por isso estamos aqui a verificar tudo certinho, ok?

O rapaz, resignado, balançou um pouco a cabeça e pegou um medidor de dentro da sua caixa de ferramentas. Um aparelho que tinha uma tela, bacana, todo tecnológico. A seguir, se pendurou novamente na janela e foi verificar as mangueiras da máquina, o nível do gás e a saída de exaustão.

– Já que eu estou aqui, vou ver logo tudo. Mas a princípio está tudo perfeito, doutor.

Nesse exato momento, a vizinha de baixo chega na janela. Não sei se ela já estava esperando uma deixa pra entrar na conversa mas, assim que ela deu de cara com o homem, quase pendurado prédio a fora, já foi assuntando a sua presença ali.

– Bom dia.

– Bom dia, senhora.

– Isso é batata! O ar-condicionado só dá defeito no verão. Justamente no verão, não é assim?

– Exatamente. É assim mesmo. Mas aqui não é o caso, não. O aparelho não estava com defeito.

– Então, é só uma manutenção?

– É que tem uma velha aí que tá sempre reclamando do barulho desse ar-condicionado, sabe? Aí eu vim aqui pra dar uma conferida geral.

– Essa velha sou eu.

Se eu morasse numa casa e não num apartamento, essa seria a ocasião certa de fazer um buraco no meio do quintal e me jogar dentro dele. Eu queria morrer ali, enterrado, ou eletrocutado, fulminado, sei lá, e virar cinza, só pra não ter que viver o prosseguimento daquela prosa.

A janela de baixo se fechou rápida e eu não sabia onde enfiar a minha cara. O técnico, por sua vez, se deu conta do que tinha dito e torceu os lábios.

– A velha é ela mesmo? A velha que reclama?

– Sim, é ela.

– Puta bosta que eu fiz!

Eu nem respondi. E nem precisava.

A dona reclamante ficou sem falar comigo um bom tempo. O que antes era um cumprimento generoso nos encontros na garagem do prédio, passou a ser um seco, sequíssimo, bom dia, boa tarde, boa noite, sem nem olhar na cara.

Um belo dia eu tinha acabado de estacionar quando notei uma coisa estranha no carro da famigerada vizinha. Fui chegando perto e, estarrecido, parei pra ler. Nos dois vidros, o traseiro e o para-brisa, estava escrito em letras grandes e brancas a palavra “Velha”.

Putz, não é possível! Eu gelei. Quem fez isso, cacete? Ela vai achar que fui eu. Lógico! Que merda é essa, gente? Num átimo eu corri pro carro peguei um pano que sempre fica no porta-malas e fui correndo até a torneirinha que tem ali perto do banheiro dos porteiros. Logo que abri a bica veio o desespero, um grande desespero, pois não tinha água. Eu abria o registro, abria e fechava frenético e não saía água alguma.

Foi então que eu acordei assustado, pedindo água e repetindo “o carro, tenho que apagar aquilo, água, carro, não fui eu, vidro, apagar”.

Só depois de uns bons minutos é que o teto do quarto me acalmou, explicando que eu estive sonhando.

O coração aos pulos, sem ar.

Aos poucos, o sangue foi voltando à velocidade normal.

E eu agradeci aos deuses.

E ao teto do Saramago, sempre me acudindo.

Mais uma vez.