quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Toca-Fitas

 

Muitos contadores de histórias têm iniciado as suas narrativas sublinhando que, sim, houve um tempo em que não havia computador, o que, a cada dia, parece mais inacreditável.

No tempo dessa minha história não só não tinha computador, como também não existia CD, celular, internet, Deezer e afins. Dito isto, vamos à crônica.

Eu tinha acabado de comprar um Fiat 147 amarelo com apenas dois anos de uso. Estava novinho o carro, que ganhou o apelido de Duca. Eu já tinha me conformado de que, com o financiamento que eu precisei fazer, eu ia ficar sem grana pra botar um som legal nele. Mas, tranquilo, ia ficar só no radinho básico mesmo, até que as coisas melhorassem.

Para minha surpresa, meu pai um dia me chamou pra ir numa loja que ele conhecia, só pra ver os preços dos toca-fitas, que era o som que eu almejava desde sempre. Chegando lá o atendente trouxe um monte de modelos de toca-fitas. Com amplificador acoplado, com sistema reverso, que virava o lado da fita automaticamente e outros tantos com botões de variados formatos, luzes e potências imagináveis.

Num certo ponto meu pai revelou que ia comprar o aparelho de presente pra mim e, ali mesmo, já combinou a instalação, que antigamente consistia em um trilho, chamado de bandeja, que ficava logo abaixo do painel. Neste trilho era onde o toca-fitas encaixava, tipo uma gaveta.

Enquanto o rapaz passava uma quantidade infinita de fios coloridos, fitas isolantes e apertava os parafusos de fixação, no box de instalação estava tocando músicas do James Taylor. Uma atrás da outra. Algumas eu conhecia e meu pai sabia que eu gostava muito – e ainda gosto – das composições do músico.

Pra ir testando os alto-falantes, conforme iam sendo ligados os fios, o instalador foi lá no console da bancada buscar justamente a fita do James Taylor. Foi uma coisa linda aquilo. Um som bacana daqueles, no meu carro, e ainda por cima tocando James Taylor? O que mais eu podia querer da vida?

A cada caixa de som ligada ele mexia nos controles e isolava o som pra ter certeza de que estava funcionando corretamente. E foi assim com cada uma das quatro etapas, quando ele ligou as caixas das duas portas e depois outras duas, que ficavam na tela que cobria o porta-malas. Eu só olhava pro meu pai e ia agradecendo o presente maravilhoso que estava ganhando. Ele, por sua vez, me via cantando, acompanhando a música e só ria.

Quando terminou toda a instalação o eletricista veio mostrar o trabalho feito e ainda deu umas dicas de funcionamento do toca-fitas. Primeiro mostrou os botões, os controles, as teclas frontais e inclusive alertou para o fato de que não precisava virar o lado da fita, pois que contava com um mecanismo automático.

Enquanto ele recolhia todo o material e as ferramentas, a gente foi no caixa fazer o pagamento. Meu pai deu uma parte em dinheiro e outras, acho que duas, em cheques pré-datados que, aliás, é uma outra coisa que existiu lá atrás, no tempo do toca-fitas.

A gente saiu da loja com um sonzaço no carro. Fomos pela rua que margeia a linha do trem, passamos pela Estação de Ramos, depois Bonsucesso e íamos seguindo pelo caminho até a nossa casa.

Como eu não tinha levado nenhuma fita cassete, até porque não tinha ideia dos planos do meu pai naquela manhã, eu disse que chegando em casa ia pegar umas fitas pra ver se tinha aprendido tudo o que o técnico da loja tinha explicado, manejar os botões do aparelho etc.

Foi então que meu pai tirou do bolso uma fita cassete e me deu, pedindo pra botar pra tocar. Assim que começou os primeiros acordes da gravação eu olhei pra ele sem acreditar. Era a fita do James Taylor que estava tocando na loja.

– O garoto lá não quis vender essa fita aí de jeito nenhum. Mas eu acabei convencendo o seu coraçãozinho de filho e ele topou. Agora sim, o serviço está completo.

Eu não sabia que era possível dirigir com os olhos cheios d’água. Mas nessa hora o James Taylor me ajudou um bocado. Meu pai, todo orgulhoso, botou o cotovelo na janela do carro e foi sorrindo até chegar em casa, mal cabendo em si.

 

Muitos anos depois desse dia memorável, eu tinha chegado ao Rio e meu filho Deco foi me buscar no aeroporto. Disse que tinha uma surpresa. Assim que descemos até o estacionamento ele mostrou o seu carro novo. Não era só um carro. Era um automóvel. Com todas as letras. De uma marca sul-coreana recém chegada ao país, o painel mais parecia o de um Boeing, todo aceso de azul e verde, cheio de botões e tinha ainda uma tela que mostrava o nome da música que estava tocando, além de uma infinidade de opções que eu mal pude entender, assim de pronto.

Mas o melhor estava por vir. Quando começamos a andar, saindo do estacionamento e pegando a estrada pra casa, ele disse “escuta só”. Aí clicou num botão qualquer e logo começou a tocar James Taylor.

O bom e velho James Taylor.

Eu mal cabia em mim.

Apoiei o cotovelo na janela e fui cantando todo o trajeto.

Assim como fez meu pai, meu filho só ria.