Um tinha nome
de santo, de papa, um Francisco de muitos apelidos carinhosos. O segundo tinha
nome de rei, Rei da França, e como tal fez muitos súditos pela vida afora. Um
Luiz forte, altivo e conciliador. Já o terceiro tinha nome de pai, pai do
menino Jesus, e talvez o mais comum dos nomes, não fosse a sua arte a mais
nobre dentre todas, a literatura. José era o mais admirado dos três, laureado e
celebrado mundialmente.
Na terra de
José, pois sim, havia um outro Luís. Um Luís Vaz, poeta e escritor, o mais
importante da língua portuguesa. Autor de Os Lusíadas. O Luís dos sonetos. O
homem que emprestou o seu nome para um dos prêmios mais meritórios da
literatura lusófona de todos os tempos, o Prêmio Camões.
Francisco, Luiz
e José eram muito amigos, cada um com sua trajetória de realizações, e sempre
que podiam estavam juntos, fosse por uma causa, fosse por uma data, algo significativo
na vida de um deles.
José já não
estava entre os homens quando Francisco recebeu a notícia de que havia sido
agraciado justamente com Prêmio Camões. O processo da premiação envolvia a
participação do governo português, naturalmente, junto com o governo do
Brasil, pois assim fora instituído, desde sua criação, em 1988, pelos dois
países.
Foi então que
o governo brasileiro, que não era o governo do Luiz (ainda), se recusou a
assinar o diploma, impedindo que a cerimônia de entrega se realizasse no tempo
correto que a organização previa. O presidente da época afirmou que deixaria
pra assinar no último dia do seu segundo mandato, pois que buscava a reeleição,
ou seja, dali a quase sete anos.
Um
desconcertante alívio pairou sobre a verve do Francisco, cuja personalidade e
inteligência eram o que de melhor teria deixado, como herança, o seu próprio
pai, o mais famoso dicionarista brasileiro de todos os tempos.
Assim foi que
passados dois anos, e não sete, o então presidente foi derrotado nas urnas e
não alcançou o tão almejado segundo mandato. Já o Luiz, o amigo do Francisco e
do José, foi eleito para o seu terceiro mandato e de pronto tratou de assinar
os papéis, o que finalmente culminaria com a entrega do prêmio a Francisco.
Vale aqui
salientar o quanto os três nomes, as três pessoas, Luiz, José e Francisco são
queridos tanto por portugueses como brasileiros. Cada um a seu modo, de alguma
maneira ajudaram a solidificar a amizade entre os dois países, estendendo pela
via da cultura o melhor que cada nação pode oferecer ao povo irmão.
Como se fosse
o roteiro de um filme, o dia da premiação, ocorrida em Portugal, foi repleto de
acontecimentos históricos. Não só pelo prêmio em si, com os discursos dos dois
presidentes, português e brasileiro, que citaram a riqueza da cultura dos países
e a excelência da obra do premiado, tudo em volta inspirava paz e democracia
nos novos tempos que se iniciavam no Brasil, com o advento do novo governo, o
terceiro, do Luiz, o Inácio.
Quando chegou
a vez de pronunciar o seu agradecimento, Francisco primeiramente lembrou do pai,
o historiador e sociólogo Sergio Buarque, e se emocionou, emocionando a todos. Da
mesma forma evocou a memória do amigo José, colega de prêmio Camões, por tantas
inspirações. Depois agradeceu a esposa, que se dispôs, quase que em cima da hora,
a ir comprar uma gravata, consertando um imperdoável esquecimento do laureado,
talvez por timidez ou mesmo por nervosismo, diante daquele prêmio de elevada
estatura.
“Lá se vão
quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se me haviam esquecido,
ou, quem sabe, se prêmios também são perecíveis, têm prazo de validade. Quatro
anos, com uma pandemia no meio, davam às vezes a impressão de que um tempo bem
mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de um
governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo
parecia andar para trás”, disse Francisco.
Por fim, após
agradecer ao governo português e ao amigo Luiz, presidente do seu país,
surpreendeu a todos, lembrando do ex-presidente que se recusou a assinar o seu
diploma. Nesse momento Francisco cunhou uma das melhores frases já ditas em uma
entrega de prêmio literário. Com alguma ironia e elegância, típica das mentes mais
brilhantes, agradeceu ao antigo presidente “a rara fineza de não sujar o prêmio
com seu nome, deixando o espaço em branco para receber a assinatura do nosso presidente
Luiz Inácio”.
Com essa
crônica eu quero declarar a saudade eterna que sinto do José Saramago, da sua
presença e de seus livros. Ela também busca celebrar mais uma vitória do Luiz,
o nosso Lula que, junto com o povo brasileiro, venceu a ditadura e o fascismo,
mais uma vez. Vencemos com a imprescindível militância do Francisco, o Chico
Buarque, entre muitos outros brasileiros, tanto os sem nome como os com todos
os nomes, inspirados naturalmente pela força da ancestralidade.
Alvíssaras!
Ou melhor... Explode!