Feliz ganhador
de um bolão premiado, meu amigo me mandou o canhoto da cota para que eu fosse
em uma agência da Caixa receber a minha parte. Eu estava contente por ter ganho
alguma vez na vida, coisa que eu achava que era só uma balela, pois que ninguém
ganhava nesses concursos de apostas. Mas, ok, eu estava feliz mesmo sabendo que
a minha cota era de impressionantes 112 Reais. Isso mesmo, R$ 112,00.
Já na entrada
da agência, a moça me perguntou em qual setor eu ia, pra saber o tipo de senha
de atendimento eu deveria receber. Quando eu falei do prêmio ela me disse um
sonoro “ô, meu querido, parabéns então” e me deu o tíquete numerado.
Sentei na
salinha de espera e nem demorou muito pra eu ser chamado. O atendente ouviu a
minha solicitação e se apressou em me orientar.
– É um prêmio
de aposta?
– Sim, de um
bolão da Copa?
– Mega da
Copa?
– Não
exatamente. É uma aposta referente à primeira rodada da Copa do Mundo. A gente
preenche com as seleções vencedoras dos jogos e pronto.
– E é uma
aposta feita pela própria Caixa?
– Sim, este aqui
é o meu canhoto referente à fração do prêmio.
O rapaz coçou
a cabeça e rolou a sua cadeira até a mesa ao lado, levando o meu bilhete e
mostrando à sua colega de trabalho. Ela digitou alguma coisa, conferiu a
numeração do canhoto, digitou de novo, se afastou da mesa pra me olhar por cima
do ombro do primeiro atendente e depois cochichou alguma coisa com ele.
– Olha, meu
querido, – disse o rapaz voltando – esse prêmio só pode ser resgatado nas
Lotéricas mesmo. Eles lá sabem melhor do que nós sobre os novos certames, as
novas apostas que a Caixa cria ao longo do ano. Talvez seja melhor ir conferir
se eles te pagam lá.
– Mas na
Lotérica disseram que era só na Agência da Caixa.
– Quem disse
isso?
– O meu amigo,
o Flávio, que foi quem fez o jogo, o bolão.
A moça ao
lado, que a tudo ouvia, levantou a mão e fez um sinal ao colega, mostrando dois
dedos da mão. Ele então sorriu e voltou-se pra mim novamente.
– Olha só,
você tem que ir aqui no segundo andar da agência. Lá é que tem os gerentes que
podem resolver isso. A gente, do atendimento comum, não tem acesso à página da
premiação e não temos como continuar com o processo, tá meu querido? Aqui ao
lado tem uma escada e é logo no primeiro piso.
Bem, nem era algo tão complicado assim, e eu subi as escadas. No segundo andar, tudo vazio. Um
monte de cadeiras numa ampla sala de espera, mas não havia ninguém sentado. Das
quase dez mesas em redor, apenas duas estavam ocupadas. E foi pra uma delas que
eu me dirigi.
– Bom dia. Eu
estou com um bilhete de um bolão premiado e ali embaixo me mandaram vir aqui.
Os dois se
entreolharam e me convidaram a sentar.
– De quanto é
o prêmio?
– Ah, é 112
Reais.
– Mil?
– Não, 112
Reais, pouco mais que uma nota de 100. Na verdade uma de cem, uma de dez e uma
de dois. Imagina, se fosse 112 mil eu estava rodopiando aqui com uma Pepsi na
mão, distribuindo pra todo mundo.
Eles riram
meio sem graça e eu avaliei que eles deviam preferir Coca-Cola. Mas, enfim,
deixei pra lá. Contanto que eles pagassem, podiam beber até Sukita quente que
pra mim estava tudo certo.
A moça me
pediu o bilhete e eu entreguei. Ela olhou com atenção, depois conferiu o verso,
esticou o braço pra ver em contraluz e depois chamou o colega pra ver também.
– Você conhece
esse sorteio? É uma mega da Copa, eu acho – perguntou a moça ao rapaz.
– Não. Nunca
vi esse tipo. Não é mega isso. É da primeira fase da Copa.
– Isso mesmo –
eu disse animado pelo fato de o rapaz ter conhecido a aposta como tal.
– Mas, assim,
preste atenção meu querido, a gente não tem autorização para esse pagamento.
Tem uma colega nossa que sabe a senha e só ela tem acesso ao sistema de
premiação. Então é ela que pode entrar no sistema e te pagar. O fato é que ela
agora está no almoço. Então, depois das 14 horas, você pode voltar e falar
diretamente com ela. Pode ser?
Eu disse que
sim, meio automático. Claro que eu poderia voltar mais tarde. Mas o que me
incomodava era que todo mundo ali tinha me chamado de querido, mas ninguém me
pagou. Desde a moça da senha, os atendentes e depois os gerentes do segundo
andar, todos me chamaram de querido. Legal isso, enfim, mas pagar que é bom,
nada.
– Ok, então eu
volto às duas da tarde. Obrigado.
Na saída, o
guarda deu um enorme sorriso pra mim e fez um cumprimento com a mão na ponta do
chapéu. Certamente ele devia achar que eu tinha recebido uma bolada de prêmio
e, por algum motivo, resolveu me agradar. A moça da senha, por sua vez, recitou
um longo “Vai com Deus e boa tarde”.
Somente
duas horas depois, quando eu retornei, como combinado, e pedi outra senha,
foi que eles fizeram cara de quem não estava entendendo nada. Provavelmente
pensaram: ou esse sortudo ganhou de novo ou tem algum problema de
memória, pois acabou de sair daqui e já está de volta? Eu, da minha parte, de
cara fechada, passei direto pela porta giratória e fui atrás da famigerada
mulher, que tinha a famigerada senha, pra pagar o famigerado prêmio.
– Ela já
chegou do almoço. Só um minutinho – me disse a atendente do primeiro andar.
Um salto alto
se anunciou sonoramente antes mesmo da pessoa que o calçava surgir no limite do
corredor. Assim que ela me viu, me chamou à sua mesa.
Depois de
mostrar novamente o bilhete, de explicar o teor da aposta, a Copa, o valor do
prêmio, o meu time, meu peso e minha altura, e que eu gostava de Pepsi, ela
começou a balançar a cabeça, digitando freneticamente atrás da tela do
computador.
Olha,
infelizmente eu não consigo fazer o pagamento. Na minha tela aqui, quando eu
abro o pagamento e ponho o seu CPF o sistema não aceita. Dá uma mensagem que só
é possível pagar para o senhor Flávio.
– Aliás, quem
é esse Flávio?
– É o meu
amigo que fez o jogo, o bolão, direto no site da Caixa.
– Ah, meu
querido, então combina com ele e vão receber os dois juntos. Realmente, eu
nunca tinha visto isso acontecer. Normalmente a gente paga com esse tíquete da
cota, que é a fração do bolão. Mas essa aposta, da Copa, realmente é uma
loteria nova e eu te peço mil desculpas pelo contratempo, meu querido. Sei que você esteve aqui
mais cedo e teve que voltar agora e ainda por cima nem conseguiu receber o seu dinheiro. Realmente é muito chato isso.
– Mas pelo
menos todo mundo me chamou de querido!
– Como? O quê?
– Ah, não.
Nada. Eu só resmunguei uma coisa sem importância aqui comigo. Então obrigado. Vou
indo.
Uma semana
depois eu soube que o Flávio também não conseguiu receber o dinheiro na Caixa.
A solução foi a gente fazer outro jogo e usar aquele “crédito” em uma outra
aposta.
Fizemos outro
jogo.
Juntos.
E perdemos.
Fim.
Mas valeu a
crônica.
Queridos!