Na paradisíaca
Ilha de Itaparica tinha um condomínio paradisíaco, na localidade de Vera Cruz.
Na entrada deste, havia um campo de futebol. Só pra mostrar como o campo era
paradisíaco, tal como a Ilha, não era permitido jogar calçado, nem de tênis e
muito menos chuteiras. A gente usava meia ou então aquelas tornozeleiras
elásticas, feitas de tecido emborrachado, do tipo que se usa pra jogar
futevôlei.
Por pura
escassez de jogadores, eu fui convidado a completar um time do campeonato que se
ia iniciar e que tomaria o ano todo. Pelo menos o verão todo. Ou seja, em
termos baianos, ia começar em maio e acabar em dezembro. O verão todo, claro!
Se tem uma
coisa que baiano gosta é de assistir futebol. Se o jogo é bom, ele vê porque é
bem jogado. Se é ruim, ele vê pra dar risada e fazer piada com os “peba” que
singram, eventualmente, em um gramado paradisíaco, como já dito. E tinha era gente
vendo aquelas peladas. Todo fim de semana. Não sei se era só gente do
condomínio, mas parecia, pela quantidade, que até o povo da Ponta de Areia e lá
de Caixa Pregos estavam em peso. Era gente em cima dos muros, nas árvores e em
toda a volta do campo.
Eu tinha então
30 anos, quase a metade do que a maioria ali dizia ter. Talvez por essa razão
eles me chamavam de Esse Menino. Uns diziam que era porque meu nome era muito
complicado. Alguns até me apelidaram de Antônio. Desde que eles passassem a
bola pra mim, podiam me chamar de qualquer coisa, até de Daniela Mercury, a
menina de roupa metálica que cantava no Trio Paes Mendonça e ninguém ainda conhecia
direito.
Rolou a bola.
Tudo organizadinho, camisas dos times, juiz e bandeirinhas, mesa pra anotar os
cartões e as faltas e até gandulas. Estes saíam desembestados atrás da pelota e
travavam uma pequena batalha com os meninos menores, que corriam muito mais que eles.
A uma certa
altura, um dos jogadores do time adversário fez um gesto pra mim, com as mãos,
apontando pro lado do campo. Eu não entendi nada, mas fiquei na minha, atento
ao jogo. Ele repetiu o gesto outra vez e eu apontei pro ouvido, pra dizer que
não tinha decifrado a mensagem ou escutado.
Só depois de
alguns minutos, quando teve um escanteio na nossa área, foi que ele chegou
perto de mim e disse:
– Tem batata
ali, tá vendo? – depois correu pra lateral meio rindo de mim.
Mas que porra de
batata esse guri tá falando? Fiquei pensando em alguma coisa que fizesse
sentido, mas nada me vinha à mente. Eu olhava pros lados, tentando ver alguma
batata, ou seria batata-frita, ou seria o apelido de alguém...
– Que batata?
– perguntei uma hora que a bola saiu.
Aí foi a vez
dele fazer sinal, mostrando que não entendeu o que eu perguntei. Pôs o dedo
apontando pro ouvido e tudo. Eu já achei que ele estava era me imitando e que o
causo era só uma idiotice dele ou algo pra me tirar a atenção do jogo. Mas eu
não ia cair nessa. Não mesmo.
Outra vez ele
fez o sinal, disse alguma coisa, apontou pra lateral e riu. Eu balancei a
cabeça e até perguntei pra um jogador do meu time:
– Que bosta
esse cara tá falando de batata?
– O quê –
respondeu o meu zagueiro.
– Aquele
baixinho ali. Tá falando que tem alguma batata ali do lado de fora. Você sabe o
que é?
– Barata?
Cara, aqui não tem barata nenhuma. Pode ficar tranquilo.
Ai, caceta.
Pior do que um sujeito não entender, são dois sujeitos não entenderem. Melhor
deixar essa bodega pra lá. Esse sujeito deve ser um doido varrido, falando em
batata no meio do jogo.
Gol do meu
time. Cruzamento na área e o goleiro aceitou. Maravilha. Talvez eu tenha ouvido
fogos. Não posso jurar. Mas, sim, acho que teve.
Depois do gol
o jogo mudou. Começou a rolar umas pancadas dignas de um Grenal. Era sola,
solavanco, sopapo e safanão, tudo na mesma jogada, que o juiz mal conseguia
manter a calma pra apartar os ânimos. Os cartões rolaram soltos de parte a
parte. Eu já estava me preparando pra levar bordoada assim que a bola estivesse
comigo, e tratava de passar rápido pra outro jogador.
Então veio uma
falta na entrada da área. Nosso time se juntou pra combinar a batida e um dos
atacantes deu a ideia de uma jogada que podia surpreender a defesa adversária.
– Você toca
pro lado da barreira – disse apontando o centroavante – Aí, Esse Menino (eu)
finge que vai cruzar e chuta direto pro gol. O geleiro vai sair pra cortar o
cruzamento e a bola vai no gol. Vamooos.
Todo o time se
posicionou pra execução da jogada combinada. Eu ali, nervoso, não podia errar o
chute, nem a direção. Mesmo que o goleiro pegasse, tudo bem, eu só não poderia
isolar ou dar um balão mequetrefe pra fora do condomínio. Pelo menos na direção
do gol tinha que ser.
A bola veio e
eu chutei. No mesmo instante em que ela tocou a trave, com o goleiro voando de
lado, plasticamente, um caminhão passava por cima de mim. Dois volantes de
contenção, querendo travar o meu chute, acabaram por me travar. Só a mim. Eu
dei umas três piruetas pra trás, quatro duplos carpados pra frente, dois
grupados pro alto e caí de costas, estatelado, olhando o azul do céu, sem
perceber nem a sua cor, nem o brilho do sol, nem se a vida ainda continuava. Na
minha cabeça a questão era, simplesmente, chamar uma ambulância, fazer uma
transfusão de sangue, e depois, com um balão de oxigênio na boca, aplicar um
desfiblilador no peito.
Tudo doía. Até
as minhas pestanas estavam doloridas. Foram dois ataques, um por cada lado, que
eu mal pude entender como vieram. Quase todos os jogadores do meu time pediram
expulsão sumária e queriam brigar com os zagueiros, com o juiz e os
bandeirinhas. A torcida quase invadiu o campo e acho que foi nessa hora que eu perdi
as minhas duas tornozeleiras, novinhas, que eu estava estreando.
Quando os
ânimos se acalmaram e eu pude voltar à vida, a estratégia do time era então
segurar o final do jogo e garantir a vitória, o que já estava de bom tamanho.
Eu fiquei um pouco mais recuado, até pra não passar outra refrega daquela, e
tentava fazer as pernas pararem de tremer.
Dali a mais um
pouco a bola ganhou o matagal ao lado e lá foram os gandulas, os meninos e os
pais de alguns deles, novamente, atrás do caroço. Demorou um pouco e nesse momento eis que
vem o tal baixinho pra perto de mim perguntando se eu tinha me machucado muito
no lance anterior.
– Cara, eu não
vi nada. Só percebi que estava no chão e nem vi direito onde a bola foi.
– Nesse
condomínio o jogo é sempre duro assim mesmo. Mas você sabe porquê, né?
Eu só lembrava
da frase dele falando da batata. Mas não queria retomar aquilo. Então apenas
disse que era muita violência, que alguém podia se machucar seriamente e tal.
– Foi por isso
que eu te avisei que o jogo era duro. Eu te falei ali no jogo: “Tem uma taça
ali, valendo.” E quando tem taça, meu rei, a galera vai com tudo. Se duvidar
entra de sola até na mãe.
– Ah, então
era da taça que você estava falando?
– Claro. Eu
estava te avisando, porque vi que você é novato aqui.
– Ah, tá.
Obrigado então pelo aviso.
Eu nem falei nada
de ter entendido “tem batata ali, tá vendo?”.
E, também, foi somente nessa hora que eu percebi, ali fora, ao lado da mesa, a taça do campeonato.
Fiquei rindo
sozinho, que nem um tonto.
E o juiz
encerrou o jogo!
A nós, os
vencedores, as batatas.
Ou melhor, as taças.