Tem gente que
já nasceu velha. Não importa a idade, a pessoa já era velha desde nova.
Diferente do cabra que, mesmo depois dos 60, ainda é jovem, na mente pelo
menos, quiçá no corpo, com todas essas academias por aí, e na alma, com todas
as emoções que o cinema pode proporcionar.
É que gente
velha, com o pensamento velho, tende a ser cacete, como Machado de Assis
gostava de descrever: o sujeito maçante, chato, enjoado, trocho, manguara, ou
seja, velho! Sem apelação. E mesmo não conhecendo algumas dessas palavras, dá
pra intuir o significado só pelo som de cada uma, assim que sai da boca. Portanto,
chato.
Pois eu,
depois de muito evitar essa palavra, acabei por me dar por vencido quando tive
de explicar o real motivo pelo qual eu chamei o técnico do ar-condicionado. O
bicho é novo e não tem nada de errado; está funcionando corretamente, como
inclusive sentenciou o rapaz, assim que o auscultou metodicamente.
Ocorre que,
para justificar o meu chamado, eu tive de contar pra ele que a vizinha de
baixo, sempre que me encontra, diz que o meu ar faz muito barulho e que ela não
consegue dormir. Assim posto, que ele desse uma boa olhada, limpasse o filtro de ar, botasse óleo onde
precisasse, apertasse os parafusos do suporte, conferisse se
a grade estava frouxa etc. Ele, por sua vez, lembrou da ocasião em que foi instalado
o dito cujo, por ele próprio, que não fazia muito tempo e que, daquela vez, o
tio, dono da empresa, até tinha vindo junto e chegou a elogiar o trabalho do
sobrinho.
– Mas
realmente, seu Anderson, o seu climatizador está em perfeitas condições de uso.
– Como? Quem?
– O seu
ar-condicionado.
– Agora o
amigo me assustou – disse eu, em tom de piada, pra descontrair, uma vez que o
rapaz já estava me dando como doido por acionar o técnico e pagar por uma
visita na qual não havia nada a se fazer.
Foi nessa
hora, de plena incredulidade do especialista, que eu acabei por me render e
concordar com ele que a tal vizinha estava reclamando sem razão, pois o
aparelho não tinha nada que ver com o barulho que ela ouvia. Aliás, disse ele,
isso aqui está muito bom. Trata-se de um trabalho muito bem-feito. Ao final da
frase deu um risinho e piscou o olho, pra que eu entendesse que era uma
referência ao seu próprio trabalho, um autoelogio. Eu sorri também e concordei vivamente.
– Enfim, eu
chamei você aqui pra ver se tem alguma coisa que possa ser feita, pra que a
vizinha não reclame mais comigo.
– Olha,
realmente, nada que eu faça aqui vai melhorar o que já está bom. Essa mulher
deve ter o sono leve demais. Ou então é uma chata, que vive pra reclamar dos
vizinhos.
– Ela é uma
senhorinha. Idosa talvez, mas...
– Uma velha
chata, isso sim!
– Ok, uma
velha a quem eu preciso convencer de que o meu ar-condicionado está bom e não
faz barulho anormal algum. Por isso estamos aqui a verificar tudo certinho, ok?
O rapaz, resignado,
balançou um pouco a cabeça e pegou um medidor de dentro da sua caixa de
ferramentas. Um aparelho que tinha uma tela, bacana, todo tecnológico. A
seguir, se pendurou novamente na janela e foi verificar as mangueiras da
máquina, o nível do gás e a saída de exaustão.
– Já que eu
estou aqui, vou ver logo tudo. Mas a princípio está tudo perfeito, doutor.
Nesse exato
momento, a vizinha de baixo chega na janela. Não sei se ela já estava esperando
uma deixa pra entrar na conversa mas, assim que ela deu de cara com o homem,
quase pendurado prédio a fora, já foi assuntando a sua presença ali.
– Bom dia.
– Bom dia,
senhora.
– Isso é
batata! O ar-condicionado só dá defeito no verão. Justamente no verão, não é
assim?
– Exatamente. É
assim mesmo. Mas aqui não é o caso, não. O aparelho não estava com defeito.
– Então, é só
uma manutenção?
– É que tem
uma velha aí que tá sempre reclamando do barulho desse ar-condicionado, sabe?
Aí eu vim aqui pra dar uma conferida geral.
– Essa velha
sou eu.
Se eu morasse
numa casa e não num apartamento, essa seria a ocasião certa de fazer um buraco no
meio do quintal e me jogar dentro dele. Eu queria morrer ali, enterrado, ou eletrocutado,
fulminado, sei lá, e virar cinza, só pra não ter que viver o prosseguimento
daquela prosa.
A janela de
baixo se fechou rápida e eu não sabia onde enfiar a minha cara. O técnico, por
sua vez, se deu conta do que tinha dito e torceu os lábios.
– A velha é
ela mesmo? A velha que reclama?
– Sim, é ela.
– Puta bosta
que eu fiz!
Eu nem
respondi. E nem precisava.
A dona
reclamante ficou sem falar comigo um bom tempo. O que antes era um cumprimento
generoso nos encontros na garagem do prédio, passou a ser um seco, sequíssimo,
bom dia, boa tarde, boa noite, sem nem olhar na cara.
Um belo dia eu
tinha acabado de estacionar quando notei uma coisa estranha no carro da
famigerada vizinha. Fui chegando perto e, estarrecido, parei pra ler. Nos dois
vidros, o traseiro e o para-brisa, estava escrito em letras grandes e brancas a
palavra “Velha”.
Putz, não é
possível! Eu gelei. Quem fez isso, cacete? Ela vai achar que fui eu. Lógico!
Que merda é essa, gente? Num átimo eu corri pro carro peguei um pano que sempre
fica no porta-malas e fui correndo até a torneirinha que tem ali perto do banheiro
dos porteiros. Logo que abri a bica veio o desespero, um grande desespero, pois
não tinha água. Eu abria o registro, abria e fechava frenético e não saía água
alguma.
Foi então que
eu acordei assustado, pedindo água e repetindo “o carro, tenho que apagar
aquilo, água, carro, não fui eu, vidro, apagar”.
Só depois de
uns bons minutos é que o teto do quarto me acalmou, explicando que eu estive sonhando.
O coração aos
pulos, sem ar.
Aos poucos, o
sangue foi voltando à velocidade normal.
E eu agradeci
aos deuses.
E ao teto do
Saramago, sempre me acudindo.
Mais uma vez.