quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Mochila e o Folgado


Foi muito estranho perceber aquele rapaz sentado no banco da pracinha e todo mundo olhando pra ele. Parecia que estava sendo vigiado. Ele, especificamente não, mas a mochila de duas cores que estava ao seu lado.

Da calçada oposta, o meu vizinho, me vendo parado ali, me contou que alguém tinha esquecido uma mochila, bem bonita, no banco da praça. As pessoas estavam à espera de que o dono aparecesse em breve e, nesse ínterim, chegou o tal rapaz e se sentou ao lado da mochila.

Ninguém verbalizou, mas o pensamento de todos era que o rapaz ia simplesmente roubar a mochila. E eles estavam tentando evitar que isso acontecesse, o que explicava (?) aqueles mil olhos no entorno do banco da praça. Mil olhos na mochila e outros mil no rapaz, com sua aparência simples, o que para a maioria dos “homens e mulheres de bem” já é motivo de preocupação.

Até que surge uma moça, com roupas de academia, correndo ao atravessar a rua. De longe ela fez sinal para o rapaz e a gente entendeu prontamente que era a dona da mochila. Ela chegou esbaforida e deu-se um diálogo inusitado.

– Ô amigo, essa mochila é minha. Eu sentei aqui pra atender o telefone e depois de desligar saí direto pra academia sem levar a bolsa. Estava no meio da malhação e, de repente, me dei conta que tinha esquecido e larguei tudo lá.

– A senhora deu muita sorte, viu? Eu estava passando e vi a mochila largada aqui e pensei na hora que alguém tinha esquecido. Aí sentei aqui e disse pra mim mesmo que só sairia quando o dono chegasse pra buscar. Sei lá, esse pessoal aí podia roubar, né?

– Ah, sim. Poxa obrigado por ter ficado de guarda aqui. Você quer alguma coisa? Um trocado? Eu faço questão.

– Olha moça, eu até estou precisando, sim. Mas se a senhora me der algum dinheiro aqui, com toda essa gente olhando, eles vão pensar que foi eu que exigi algo, sabe? E eu queria só devolver pro dono mesmo, no caso a dona, a senhora.

– Vamos ali na academia que lá eu te dou um trocado. Aí ninguém vai ver. Tá certo assim?

Eu não sei se foi uma boa opção aquele acerto dos dois. Se ela tivesse dado um dinheirinho pro rapaz, não ia parecer tão estranho como foi vê-la sair andando com o rapaz e ir conversando como se fossem velhos amigos. As pessoas que estavam desde o início da história, quando a mochila ainda estava sozinha no banco, balançavam a cabeça em sinal de desaprovação e por pouco não intercederam com ela nesse momento.

A história acabaria aí. Os dois tomando o mesmo caminho da academia, enquanto a plateia, cada qual  com sua preocupação, seguia a vida, torcendo pra que a moça ficasse bem, inclusive eu.

Só mais tarde, quando voltei pra casa, é que eu soube do restante da história. De tanto a dona da mochila insistir com o rapaz, ele disse que não queria dinheiro, mas que se ela quisesse poderia comprar um pacote de salsicha pra ele ali no mercado. Salsicha? – ela teria perguntado. E ele: sim. Mas como você vai cozinhar? – ela devolveu. E ele: o meu amigo trabalha num lava-carro e a gente tem um fogãozinho lá. Eu vou levar a salsicha, a gente compra um pãozinho e almoça lá mesmo.

A moça da portaria do meu prédio ria alto enquanto finalizava a história da mochila para os outros moradores ao redor dela. E todos se surpreenderam com aquele final. Veja você, um pacote de salsicha – disse um vizinho com o cachorro no colo.

 

***********

 

Eu estava andando ao lado da ciclovia e, de longe, podia ver um sujeito baixinho que interpelava todo mundo que passava. O sujeito trazia um sanduíche em uma das mãos e, na outra, uma lata de refrigerante. Ele andava de um lado pro outro, na calçada, quase que entrando na frente das pessoas pra poder interagir.

Eu já estava até me preparando pra ser convidado a contribuir com um trocado, quando chegasse mais perto. Contudo, no fundo, me confundia o fato de ele já estar com uma comida e uma bebida nas mãos. O que mais ele vai pedir, gente? Eu pensava enquanto tentava decifrar o homem.

Pelo gesto dele, entendi que o pedido era “um Real”. Simplesmente ele pedia um Real. Então, tá ok.

Mas na minha frente, caminhando no mesmo sentido, iam um homem e uma mulher, ambos vestindo um mesmo uniforme de trabalho, de calças e camisas da mesma cor. E tinham uma logomarca nas costas.

Quando chegaram perto do pedinte eu já estava a uma certa distância, curta, que dava pra ouvir o diálogo deles. E outra vez uma tirada surpreendente e galhofeira aconteceu.

– Aí, meu irmão, tudo bem? Tem um Real? Só um Real? Tem aí?

O sujeito parou junto com a mulher e foi apalpando os bolsos das calças e depois da camisa. Enquanto verificava ele respondeu:

– Ô amigo, peraí um pouco. Olha, eu acho que um Real eu até consigo?

– Então me dá dois!

Paralisados, pelo inusitado, todos nós que ouvimos essa resposta peculiar e bem-humorada caímos na risada. Ao mesmo tempo, alguém poderia pensar que tudo poderia ser levado para o lado da petulância, do atrevimento. Mas, sei lá, a agilidade dele na resposta e o jeito simplório como ele falou pegaram a todos nós de surpresa.

Ele continuava comendo o seu sanduiche e tomando o refrigerante no maior astral.

Daí, o surpreendente.

Que nos fez rir.