terça-feira, 31 de março de 2026

O Contracheque

 

Agora imagine o nobre leitor, a nobre leitora: um carro bonito, imponente, com um motorzão, ar-condicionado gelando, descendo uma estrada toda lisinha, quase vazia, num sábado de sol, no meio do outono. Era eu com o meu Logus 1.8 verde-escuro, vindo de São Paulo para Florianópolis.

Era uma daquelas retas que a gente olha e não vê o fim. Só percebe a estrada subir, despois descer, depois subir de novo e as árvores parece que vão acenando e dizendo umas às outras: “olha que carrão lindão”, ao que uma outra responde: “é a minha cor favorita, gente”. E elas abrem um sorrisão enquanto esticam os braços-galhos em reverência.

Mesmo com aquele painel magnífico, não tinha como eu perder tempo olhando o velocímetro. Nessas horas o máximo que eu fazia era tatear o botão do rádio e aumentar o som, conforme a música começava. Aliás, o som daquele Logus era digno de nota, com graves e agudos perfeitamente equalizados.

O carro foi batizado de Andrew Sheldrick, logo que entrou na família. O nome veio de um advogado canadense, eu acho, que li numa revista da época e que depois soube que tinha sido sócio de um escritório de São Paulo. O nome era tão chique quanto o carro, sem dúvida. E eu gostava de chamá-lo assim.

Em pleno sabadão, descendo livre e solto a estrada vazia, cantando alguma coisa e só curtindo a paisagem, eis que logo ali na frente surge uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. O guarda fez sinal apontando o acostamento e então eu pude ver as outras picapes da polícia, todas enfileiradas, cada uma com uma guarnição, cheia de equipamentos de medição de velocidade.

Era uma baita blitz. Não dava pra contar quantos carros estavam ali, sendo inspecionados ao mesmo tempo. Toda a lateral da estrada estava tomada de gente abrindo portas, porta-malas, capô, mostrando documentos, licenças e até muitos deles agachados, discutindo o estado dos pneus.

Na minha cabeça, o guarda ia precisamente fazer como as árvores: elogiar o carro e me dar os parabéns. Mas ele tinha outros planos para mim, certamente. Assim que chegou perto foi logo anunciando o limite de velocidade da área. Depois me perguntou a quantos quilômetros eu acreditava que vinha com o meu amigo Andrew. Na hora eu já percebi tudo e apenas redargui, já me desculpando:

– O problema é que a gente não percebe, quando a estrada é lisinha assim, quão rápida é a nossa levada. Ainda mais que nesse trecho tem um prazeroso declive. Aí o carro parece que vai sozinho, sem nem precisar de motor ou acelerador. Isso acaba por nos enganar e então, sem querer, a gente acaba andando mais rápido do que queria.

– Pois foi exatamente isso que aconteceu. O senhor estava a mais de 130 por hora. – disse, maneando a cabeça – Documentos do veículo e seus, por favor.

Uma coisa muito comum de acontecer nessas horas é que a gente sempre se atabalhoa quando uma autoridade nos pede os documentos. Mesmo sabendo exatamente o local em que eles estão guardados, geralmente em um compartimento específico da bolsa ou carteira, basta que um policial nos peça e a gente fica ali chafurdando de um lado pro outro e nada de achar.

No caso aqui, eu considero que esse nervosismo aplicado ao ato de não encontrar o documento solicitado, foi a minha salvação. Isto porque, ao folhear as páginas na carteira eis que algo chamou a atenção da autoridade.

– O senhor é federal?

– Sou o quê?

– Federal. O senhor é servidor federal? Estou vendo um contracheque bem ali.

– Sou sim. Do Ministério da Cultura.

– E trabalha onde?

– Na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

O guarda pegou os documentos nas mãos e gritou pra outro colega mais à frente, que parecia ser um tipo de supervisor da operação:

– Tenente, esse aqui é federal. É um fodido igual a gente.

– É documento?

– Não. O documento tá ok. É excesso de velocidade. Deu 130 por hora.

– Manda vazar. É um fodido como nós – e os dois deram uma risadinha com ares de cumplicidade.

O policial retornou e me devolveu os documentos. Depois disse que se tem alguém que pode fazer alguma coisa, são os servidores públicos dos outros ministérios, que não os de farda.

– Tem que fazer greve mesmo, parar tudo, passeata, o que for preciso. Ele, o almofadinha do Fernando Henrique, com aquele ar superior, está achatando o nosso salário há mais de cinco anos. Aquele filho da mãe engomadinho. Então, o senhor tá liberado. Vai com Deus e segure esse seu pé direito aí. Cuidado com as descidas e preste atenção aos limites pra não correr risco na estrada, nem botar outras pessoas em risco.

– Muito obrigado – disse eu, juntando as coisas pra seguir viagem – Eu nunca pensei que um dia ia achar bom ser chamado de fodido. A vida nos ensina cada coisa. Bom dia pro senhor e bom trabalho.

– Quando eu for a São Paulo dou uma passada lá na sua Cinemateca. Bom dia também.