terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Almoço

 

Parecia que tinha uns cinco falando ao mesmo tempo. Quando eu terminei de estacionar percebi que eram “só” dois, mas, mesmo assim, não consegui acreditar que todas aquelas vozes vinham apenas de um diálogo entre dois trabalhadores do estacionamento do centro médico.

Confesso que muita coisa que era dita ali eu não entendia, por tão rápida que era aquela troca de palavras. Mesmo pertinho, quando eu fui pegar o meu tíquete, olhando para as bocas dos homens, eu pouco ou nada conseguia. Acho que foi por isso que eles passaram a falar mais devagar comigo, o que foi ótimo.

Os dois conheciam todo mundo que estacionava ali. Desde os médicos, enfermeiros, o pessoal da administração, recepção, todos cumprimentavam a dupla com muita amizade. Alguns conseguiam levar os próprios carros às vagas indicadas. Já outros deixavam a chave com um deles e o veículo era adequadamente abrigado.

Naquele dia feio e chuvoso estava um entra e sai frenético dos prestadores de serviços e dos entregadores de insumos, que depois percebi serem das máquinas da terapia intensiva. Os furgões entravam e descarregavam seus produtos, tudo bem rápido, mas mesmo assim sempre tinham uma saudação especial aos dois guardadores.

Eu fiquei abrigado da chuva fina em um ponto meio central do estacionamento, debaixo de uma pequena marquise e eles passavam por mim a todo momento. Numa dessas vezes o mais baixinho trouxe um banco de madeira e sentou perto de mim, terminando de falar ao celular.

– Tudo bem meu amigo?

– Sim, tudo ok. Deu uma folguinha agora, né?

– Esse horário fica mais tranquilo porque o pessoal já entrou na consulta. É nessa hora que eu dou uma recolhida e vou almoçar.

Eu nem precisei falar da minha estranheza por ter ouvido a palavra almoço em plena manhã, visto que mal chegava a dar 10 horas.

– É cedo, né? Mas é assim mesmo, eu almoço às 10 horas. Isso é o normal, porque chego aqui às seis da manhã. Então às 10 o meu amigo ali do restaurante me traz uma quentinha e eu como ali mesmo na cabine da guarda, enquanto recebo os carros. Essa ligação que eu atendi agora é da minha esposa me chamando pra almoçar. Lá pras 13 horas, por aí, eu vou almoçar com ela. Aí saio, pego a moto e a gente se encontra no Centro.

– Nunca tinha visto alguém que almoçasse duas vezes.

– Mas não é sempre não. Só quando ela pode ir. Aí ela me chama. Senão ela come lá no trabalho dela mesmo e eu peço um lanchinho de tarde pra mim.

Pra reforçar a minha impressão de que eles conheciam todo mundo ali dentro, eis que vem vindo um velhinho, apoiado pelo braço de uma jovem. Chegando perto, enquanto ela pagava o estacionamento, o senhor tirou do banco de trás do carro um boné todo azul.

– Olha, isso é pra você. Um presente pela sua camaradagem comigo todos esses meses. Hoje foi a minha última sessão e espero que esse time do Avaí te faça feliz como eu estou me sentindo agora.

A moça escondeu uma lágrima enquanto os dois se abraçavam como dois velhos amigos.

Eu fiquei paralisado com o que via, não sabendo como descrever aquela cena. Ele tornou a se sentar no banco e guardou o celular no bolso.

– Essas pessoas aqui, que passam por aqui todos os dias, são todas umas lutadoras. Uma doença que derruba a família inteira até levar o sujeito de vez. E é só com muita luta, esperança mesmo, que eles conseguem vencer e sair daqui assim, com essa vontade de viver. Isso me dá força também, sabe senhor?

– Claro. Você vendo essa trajetória deles percebe como a vida é frágil.

Ele disse “isso mesmo” e, rápido como um passarinho, já levantou voando pra ir abrir a cancela pra um outro paciente que entrava. De longe eu o via conversando com a motorista, tal como dois amigos, ora apontando pra entrada do prédio, talvez indicando uma vaga pra ela.

Quando retornou, pegou o banco e o pôs debaixo do braço, retomando o diálogo de há pouco.

– A vida é mesmo muito frágil, meu amigo. E curta. Se a gente fica lamentando, já foi. Deus nos dá a ladeira pra gente subir, mas as pernas são as nossas.

Eu fiquei ali um bom tempo, olhando o trabalho dos dois, perdido no tempo e na frase dele.

Perto da hora de sair eu fui até a guarita pra pagar. Junto comigo chegou uma senhora também pra fazer o pagamento. Eu dei a vez a ela e o rapaz foi buscar a máquina de cartão.

– O seu é 20 reais, senhora.

– Ah, ok. Débito, por favor. Amanhã não vou precisar de vaga. Venho a pé.

– A pé? Mas, e a chuva?

– Amanhã é a minha última quimio, meu amigo. Agora é vida nova. Amanhã vou sair daqui caminhando na chuva em homenagem à minha querida mãe, que adorava andar na chuva. Muitas vezes saía com ela de cadeira de rodas e ela pedia pra esperar a chuva cair. A gente voltava encharcada e ela, feliz da vida, ia contando os borriços que tomava na infância, junto com os irmãos mais velhos, quando moravam no interior. Parecia que ela estava vendo um filme bem na sua frente. Então, amanhã, quem vai ver um filme tomando chuva serei eu.

– Que a senhora tenha um lindo filme amanhã. E na saída passa aqui pra me dar um abraço, viu?

– Pode deixar.

Eu paguei o meu tíquete e ele disse pra eu ir buscar o carro, enquanto ele abria o portão.

– Estou surpreso com as coisas bonitas que você escuta aqui no seu trabalho.

– A gente sabe que essas pessoas estão num momento frágil e eu só procuro ajudar, com um pouco de bom-humor e educação. E tudo que a gente faz pra ajudar, volta pra gente. Pode parecer simples, mas é assim que funciona. No final eu sempre acabo recebendo da vida mais do que dou.

– Sei como é. É tipo almoçar duas vezes!!!

– Hahaha, essa foi boa. Vai com Deus, meu amigo!