sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Remédio

 

Assim que eu entrei na farmácia, vindo do dentista, já percebi um certo burburinho no ar. Parecia uma discussão. Contida, porém generalizada. As vozes se alternavam e o silêncio, quando surgia, causava uma certa pausa reflexiva, apta a eleger um argumento como definitivo, coisa que não existe em um diálogo como aquele.

A princípio, o senhor reclamava da demora em ser atendido. Toda hora ele olhava a sua senha e depois mirava o painel, balançando a cabeça em desaprovação. O amigo, tentando acalmá-lo, dizia que naquele horário era assim mesmo, as pessoas saindo do trabalho e tal, era normal.

– Não, isso acontece por que nós somos um povo doente. A quantidade de farmácias aqui no Centro nos diz exatamente isso: nós somos doentes. Olha em volta. Em cada esquina tem uma farmácia. Tem farmácia uma ao lado da outra. E são enormes. Algumas parecem verdadeiros supermercados.

– Falando nisso, você trouxe a receita médica? – disse o amigo, segurando uma sacola.

O outro nem respondeu. Apenas bateu com os dedos no bolso da camisa, indicando a ponta de uma folha de papel, e novamente reclamou de alguma coisa que eu não consegui perceber.

Duas chamadas depois, com cada um olhando o seu número e conferindo no visor do alto da farmácia, o homem voltou com sua lamúria.

– Agora temos essa alta na gasolina. Não faltava mais nada pra esse governo, que resolve aumentar tudo, e que se dane todos nós. Na feira, outro dia, a gente tinha de escolher o que levar e o que substituir, por causa dos preços. E nem falo da carne.

– Mas isso é por causa da guerra lá no Irã. Os navios não conseguem transportar o petróleo e aí, quando começa a faltar, vêm os aumentos. Não tem jeito, o petróleo faz tudo ficar mais caro. Tá assim no mundo todo.

– É, mas se fosse um governo de verdade ele saberia o que fazer pra não aumentar o custo de vida. Sendo pelo petróleo ou não, a meta deveria ser ajudar a população, custear e auxiliar os mais pobres, principalmente os aposentados, como nós.

– Eu discordo, meu amigo. Nem tudo é culpa do governo.

– Tudo é culpa do governo, sim. Um governo que não olha pra quem precisa, que não cuida da saúde do brasileiro.

A moça repetiu o número estampado no monitor e o nosso amigo levantou a mão, mostrando a sua senha. Minha vez, ele disse, pegando o amigo pelo pulso e levando com ele até o balcão.

– Boa tarde, senhor. Eu só preciso da receita e de um documento seu.

– Documento? Pra comprar agora precisa mostrar documento? – disse contrariado.

– Sim, por favor. No seu caso, sim.

Enquanto ela se dirigia para os fundos da farmácia, levando a receita e o documento do homem, uma nova saraivada de comentários rudes era proferida em modo de palanque. As pessoas em volta evitavam o menor contato visual com o senhor, para não ter que se envolver com aquela situação. Se ele reclamava de tudo, paciência. Eu é que não ia bater boca com gente assim, pensávamos todos nós em conjunto.

– O dólar só faz subir e o Real cada vez pior, desvalorizando. Veja você, agora vem a Copa do Mundo. Quantos milhões o governo não vai gastar pra mandar esse monte de gente pra lá? Tudo em dólar. E não é só jogador, não. É equipe técnica, médicos e preparadores físicos, hospedagem pra todo mundo, comida. Nossa senhora, ainda bem que tem eleição esse ano. Enfim, tudo isso junto e ainda tem os remédios, a saúde em geral. Eles não fazem nada de bom. Nada.

Quando o amigo ia responder, surge a atendente retornando ao balcão.

– Está aqui, senhor. O seu documento e os seus remédios. A receita vai ficar retida aqui com a gente, como manda o protocolo.

– Ah, sim. Obrigado. Onde fica o caixa?

– Não. Não tem que pagar nada, os seus remédios são de graça.

– Como assim? Não vou pagar?

– Não. O senhor não é paciente do SUS? Então, aqui é uma Farmácia Popular. Para o cidadão inscrito no SUS o governo paga os remédios porque é um programa federal, do governo federal, entende?

O amigo do rabugento, morrendo de vergonha, tratou logo de tirar o homem dali. Em poucos segundos já estava novamente de braço dado com ele, puxando o coitado pra fora da drogaria.

Me lembro bem que, naquela farmácia, pelos próximos cinco minutos, ninguém e nada se mexeu. O painel não chamou um novo número, nenhuma outra senha foi sacada, o caixa não recebeu um único pagamento, nem deu troco, e nenhum atendente entregou o remédio ao cliente.

É que todos estavam acompanhando a cena silenciosa dos dois homens ganhando a calçada e voltando a cultivar a sua ranzinzice, a sua intolerância em ano de eleição.

Curioso foi constatar que até a minha dor de dente passou!

 

 



quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Acidente

 

Foi uma grande surpresa quando a Fabiana falou que tinha um irmão. Não que eu a conhecesse assim tão bem, tampouco tivesse a sorte de ter estudado violão na mesma escola que ela. Na verdade, nós tínhamos amigos em comum e, na maioria das vezes, a gente se encontrava antes ou depois de alguma apresentação sua. Poucas vezes, também, acontecia de uma esticada depois dos shows acabar lá em casa. Aí era mesmo um evento. Ela tocava mais descontraída, falava dos autores e das composições e, às vezes, no meio de alguma conversa lembrava de outro trecho e saía tocando, como se estivesse mostrando uma foto no celular.

A revelação do irmão passou despercebida no início, mas logo ela disse o nome dele e contou alguma coisa que se tornou interessante pelo final da narrativa. Disse ela que o causo que contava tinha sido bem antes do acidente. Uma parte dos amigos ficou esperando a continuação da conversa. Outra tratou logo de pedir mais detalhes, sublinhando o que eu também estava a ponto de perguntar, ou seja, que a gente nem sabia da existência do tal irmão.

A violonista então pôs o instrumento no colo, abraçando-o em sentido vertical e, por vezes, apoiando a cabeça no seu bojo, enquanto falava.

– Sim, o Fep é uma figura. Um amigo que Deus e meus pais me deram. Ele é dois anos mais novo que eu e a gente está sempre junto. É verdade que nem sempre foi assim, pois ele é um sujeito de duas vidas. E essas podem ser divididas em antes e depois do acidente.

Alguém quis confirmar o nome do irmão e ela disse que era por causa do seu nome completo, cujas iniciais eram F, E e P, e isso virou uma sigla, FEP, apelido que os mais próximos lhe atribuíram num certo momento e que ficou desde então.

– Ele sempre foi um sujeito bonito – continuou ela. – Desde muito cedo chamava a atenção onde quer que estivesse. Também é muito inteligente, se vestia sempre bem e jogava vôlei e futebol na escola. Era um cara do tipo popular, que fazia muito sucesso com as meninas, as namoradas e tal. Mas o que essa aparência e esse jeito expansivo escondiam é que ele era uma pessoa ruim. E eu digo isso com muito pesar.

– Como assim, ruim? – alguém perguntou.

– Era um rapaz cheio de si, arrogante mesmo, que não respeitava ninguém, que tripudiava das namoradas, fazia bullying com as pessoas antes mesmo de existir esse nome, mal-educado, cheio de soberba e presunção. Enfim, um crápula, um inescrupuloso, que muitas pessoas evitavam o simples convívio, tratando de erguer um muro de segurança entre si e aquele arremedo de homem.

As pessoas se entreolharam com uma certa inquietação, mas logo ela retomou.

– Não pensem que estou exagerando nas minhas adjetivações. Falar do próprio irmão é dolorido. Mas não faço isso senão pra dar a vocês a ideia exata do perfil que quero demonstrar. Ele é meu irmão, mas nessa época a gente não tinha a menor alegria com a perspectiva do homem que ele se tornaria na idade madura. A gente da família tentava de tudo, mas era uma decepção atrás da outra, em cada gesto que se pretendia trazê-lo de volta à natureza humana. A nossa mãe colecionava desgosto com o comportamento do Fep, essa que é a verdade.

– Nossa, que situação triste. Mas e depois? O que aconteceu?

– Pois é, aconteceu o acidente. Simples assim. Voltando pra casa de madrugada, sozinho no carro, provavelmente alcoolizado, ele bateu em uma árvore, perto do Maracanã, e o carro caiu dentro do valão que tem ali, acho que é o Rio Maracanã mesmo, e ele ficou preso um tempão, até ser resgatado. O resultado foi que ele perdeu a sensibilidade corporal da cintura pra baixo, ficando paraplégico.

– E foi então que a vida dele mudou?

– Isso. Foi aí que eu ganhei um irmão de verdade. Ele não teve qualquer sequela neurológica. Nada, além das pernas, e de ter que ficar em uma cadeira de rodas pro resto da vida, nada explica a mudança de comportamento que ele teve dali pra frente. Foi uma surpresa pra todo mundo da família, os amigos, as namoradas, a vizinhança, os trabalhadores do nosso prédio, todos os que o conheceram faziam questão de mostrar a alegria pela nova pessoa que o Fep se transformou. Minha mãe foi quem esteve com ele o tempo todo no hospital. Depois de sair do coma ela já nos dizia que ele estava diferente, que se mostrava atencioso não só com ela, mas também com o pai e comigo. Pedia informações sobre os amigos e tudo, ou seja, uma postura bem diferente, como ela contava. Mais tarde, com as visitas e a volta pra casa é que a gente pôde constatar tudo o que a mãe já tinha alertado desde a internação.

A gente ali, ouvindo aquilo, tentava entender o alcance daquela transformação. E a Fabiana continuou, agora acariciando o braço do violão.

– Meu irmão hoje é um sujeito querido por todo mundo. Depois do acidente ele virou gente boa, do nada. Amigo, um cara sensível e disponível, fraternal e afetivo. Mudou completamente. Quase todos os seus detratores, adversários, pessoas que nutriam por ele verdadeira antipatia, passaram a ser seus amigos. As ex-namoradas, cujas experiências invariavelmente tinham sido marcadas por grande aversão e decepção, quando vinham conhecer o “novo Fep” saíam lá de casa comovidas e renovadas com a perspectiva de amizade e cheias de afeto por aquele rapaz. É uma outra pessoa, diziam.

Ela fez uma pausa e retomou.

– Mais tarde, quando ele começou a dirigir, uma vez parou no sinal e uma amiga, que ele não via há muito tempo, parou ao lado. Ele baixou o vidro e acenou. Quando ela o viu fechou a cara e se manteve imóvel, olhando pra frente até o sinal abrir. De noite, já em casa, ele recebeu uma ligação dela. Disse que comentando com uma amiga, foi informada do acidente e pediu desculpas por não ter falado com ele no trânsito. Também perguntou se podia visitá-lo qualquer dia, alertando que talvez precisasse de um tempo até juntar coragem para estar de novo frente a frente com ele, depois de tudo o que tinha passado no colégio. Enquanto ele nos contava isso tudo, balançou a cabeça e disse risonho: “Olha, mãe, ainda bem que eu não morri dentro daquele carro. Esse monte de gente me odiando assim, eu ia parar era nos braços do capeta, com toda a certeza.” Então eu e a mãe nos olhamos e começamos a rir junto com ele.

Quando empunhou novamente o violão, Fabiana parecia lembrar da fisionomia do irmão e, como num filme, talvez conseguisse rever tudo o que acabava de nos contar. Então, depois de um breve suspiro, a violonista anunciou que ia tocar uma peça de João Pernambuco.

– Som de Carrilhões. Que meu querido irmãozinho adora me ouvir tocar.

 

 


terça-feira, 14 de abril de 2026

A Batata

 

Na paradisíaca Ilha de Itaparica tinha um condomínio paradisíaco, na localidade de Vera Cruz. Na entrada deste, havia um campo de futebol. Só pra mostrar como o campo era paradisíaco, tal como a Ilha, não era permitido jogar calçado, nem de tênis e muito menos chuteiras. A gente usava meia ou então aquelas tornozeleiras elásticas, feitas de tecido emborrachado, do tipo que se usa pra jogar futevôlei.

Por pura escassez de jogadores, eu fui convidado a completar um time do campeonato que se ia iniciar e que tomaria o ano todo. Pelo menos o verão todo. Ou seja, em termos baianos, ia começar em maio e acabar em dezembro. O verão todo, claro!

Se tem uma coisa que baiano gosta é de assistir futebol. Se o jogo é bom, ele vê porque é bem jogado. Se é ruim, ele vê pra dar risada e fazer piada com os “peba” que singram, eventualmente, em um gramado paradisíaco, como já dito. E tinha era gente vendo aquelas peladas. Todo fim de semana. Não sei se era só gente do condomínio, mas parecia, pela quantidade, que até o povo da Ponta de Areia e lá de Caixa Pregos estavam em peso. Era gente em cima dos muros, nas árvores e em toda a volta do campo.

Eu tinha então 30 anos, quase a metade do que a maioria ali dizia ter. Talvez por essa razão eles me chamavam de Esse Menino. Uns diziam que era porque meu nome era muito complicado. Alguns até me apelidaram de Antônio. Desde que eles passassem a bola pra mim, podiam me chamar de qualquer coisa, até de Daniela Mercury, a menina de roupa metálica que cantava no Trio Paes Mendonça e ninguém ainda conhecia direito.

Rolou a bola. Tudo organizadinho, camisas dos times, juiz e bandeirinhas, mesa pra anotar os cartões e as faltas e até gandulas. Estes saíam desembestados atrás da pelota e travavam uma pequena batalha com os meninos menores, que corriam muito mais que eles.

A uma certa altura, um dos jogadores do time adversário fez um gesto pra mim, com as mãos, apontando pro lado do campo. Eu não entendi nada, mas fiquei na minha, atento ao jogo. Ele repetiu o gesto outra vez e eu apontei pro ouvido, pra dizer que não tinha decifrado a mensagem ou escutado.

Só depois de alguns minutos, quando teve um escanteio na nossa área, foi que ele chegou perto de mim e disse:

– Tem batata ali, tá vendo? – depois correu pra lateral meio rindo de mim.

Mas que porra de batata esse guri tá falando? Fiquei pensando em alguma coisa que fizesse sentido, mas nada me vinha à mente. Eu olhava pros lados, tentando ver alguma batata, ou seria batata-frita, ou seria o apelido de alguém...

– Que batata? – perguntei uma hora que a bola saiu.

Aí foi a vez dele fazer sinal, mostrando que não entendeu o que eu perguntei. Pôs o dedo apontando pro ouvido e tudo. Eu já achei que ele estava era me imitando e que o causo era só uma idiotice dele ou algo pra me tirar a atenção do jogo. Mas eu não ia cair nessa. Não mesmo.

Outra vez ele fez o sinal, disse alguma coisa, apontou pra lateral e riu. Eu balancei a cabeça e até perguntei pra um jogador do meu time:

– Que bosta esse cara tá falando de batata?

– O quê – respondeu o meu zagueiro.

– Aquele baixinho ali. Tá falando que tem alguma batata ali do lado de fora. Você sabe o que é?

– Barata? Cara, aqui não tem barata nenhuma. Pode ficar tranquilo.

Ai, caceta. Pior do que um sujeito não entender, são dois sujeitos não entenderem. Melhor deixar essa bodega pra lá. Esse sujeito deve ser um doido varrido, falando em batata no meio do jogo.

Gol do meu time. Cruzamento na área e o goleiro aceitou. Maravilha. Talvez eu tenha ouvido fogos. Não posso jurar. Mas, sim, acho que teve.

Depois do gol o jogo mudou. Começou a rolar umas pancadas dignas de um Grenal. Era sola, solavanco, sopapo e safanão, tudo na mesma jogada, que o juiz mal conseguia manter a calma pra apartar os ânimos. Os cartões rolaram soltos de parte a parte. Eu já estava me preparando pra levar bordoada assim que a bola estivesse comigo, e tratava de passar rápido pra outro jogador.

Então veio uma falta na entrada da área. Nosso time se juntou pra combinar a batida e um dos atacantes deu a ideia de uma jogada que podia surpreender a defesa adversária.

– Você toca pro lado da barreira – disse apontando o centroavante – Aí, Esse Menino (eu) finge que vai cruzar e chuta direto pro gol. O geleiro vai sair pra cortar o cruzamento e a bola vai no gol. Vamooos.

Todo o time se posicionou pra execução da jogada combinada. Eu ali, nervoso, não podia errar o chute, nem a direção. Mesmo que o goleiro pegasse, tudo bem, eu só não poderia isolar ou dar um balão mequetrefe pra fora do condomínio. Pelo menos na direção do gol tinha que ser.

A bola veio e eu chutei. No mesmo instante em que ela tocou a trave, com o goleiro voando de lado, plasticamente, um caminhão passava por cima de mim. Dois volantes de contenção, querendo travar o meu chute, acabaram por me travar. Só a mim. Eu dei umas três piruetas pra trás, quatro duplos carpados pra frente, dois grupados pro alto e caí de costas, estatelado, olhando o azul do céu, sem perceber nem a sua cor, nem o brilho do sol, nem se a vida ainda continuava. Na minha cabeça a questão era, simplesmente, chamar uma ambulância, fazer uma transfusão de sangue, e depois, com um balão de oxigênio na boca, aplicar um desfiblilador no peito.

Tudo doía. Até as minhas pestanas estavam doloridas. Foram dois ataques, um por cada lado, que eu mal pude entender como vieram. Quase todos os jogadores do meu time pediram expulsão sumária e queriam brigar com os zagueiros, com o juiz e os bandeirinhas. A torcida quase invadiu o campo e acho que foi nessa hora que eu perdi as minhas duas tornozeleiras, novinhas, que eu estava estreando.

Quando os ânimos se acalmaram e eu pude voltar à vida, a estratégia do time era então segurar o final do jogo e garantir a vitória, o que já estava de bom tamanho. Eu fiquei um pouco mais recuado, até pra não passar outra refrega daquela, e tentava fazer as pernas pararem de tremer.

Dali a mais um pouco a bola ganhou o matagal ao lado e lá foram os gandulas, os meninos e os pais de alguns deles, novamente, atrás do caroço. Demorou um pouco e nesse momento eis que vem o tal baixinho pra perto de mim perguntando se eu tinha me machucado muito no lance anterior.

– Cara, eu não vi nada. Só percebi que estava no chão e nem vi direito onde a bola foi.

– Nesse condomínio o jogo é sempre duro assim mesmo. Mas você sabe porquê, né?

Eu só lembrava da frase dele falando da batata. Mas não queria retomar aquilo. Então apenas disse que era muita violência, que alguém podia se machucar seriamente e tal.

– Foi por isso que eu te avisei que o jogo era duro. Eu te falei ali no jogo: “Tem uma taça ali, valendo.” E quando tem taça, meu rei, a galera vai com tudo. Se duvidar entra de sola até na mãe.

– Ah, então era da taça que você estava falando?

– Claro. Eu estava te avisando, porque vi que você é novato aqui.

­– Ah, tá. Obrigado então pelo aviso.

Eu nem falei nada de ter entendido “tem batata ali, tá vendo?”.

E, também, foi somente nessa hora que eu percebi, ali fora, ao lado da mesa, a taça do campeonato.

Fiquei rindo sozinho, que nem um tonto.

E o juiz encerrou o jogo!

A nós, os vencedores, as batatas.

Ou melhor, as taças.

 

 

terça-feira, 31 de março de 2026

O Contracheque

 

Agora imagine o nobre leitor, a nobre leitora: um carro bonito, imponente, com um motorzão, ar-condicionado gelando, descendo uma estrada toda lisinha, quase vazia, num sábado de sol, no meio do outono. Era eu com o meu Logus 1.8 verde-escuro, vindo de São Paulo para Florianópolis.

Era uma daquelas retas que a gente olha e não vê o fim. Só percebe a estrada subir, despois descer, depois subir de novo e as árvores parece que vão acenando e dizendo umas às outras: “olha que carrão lindão”, ao que uma outra responde: “é a minha cor favorita, gente”. E elas abrem um sorrisão enquanto esticam os braços-galhos em reverência.

Mesmo com aquele painel magnífico, não tinha como eu perder tempo olhando o velocímetro. Nessas horas o máximo que eu fazia era tatear o botão do rádio e aumentar o som, conforme a música começava. Aliás, o som daquele Logus era digno de nota, com graves e agudos perfeitamente equalizados.

O carro foi batizado de Andrew Sheldrick, logo que entrou na família. O nome veio de um advogado canadense, eu acho, que li numa revista da época e que depois soube que tinha sido sócio de um escritório de São Paulo. O nome era tão chique quanto o carro, sem dúvida. E eu gostava de chamá-lo assim.

Em pleno sabadão, descendo livre e solto a estrada vazia, cantando alguma coisa e só curtindo a paisagem, eis que logo ali na frente surge uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. O guarda fez sinal apontando o acostamento e então eu pude ver as outras picapes da polícia, todas enfileiradas, cada uma com uma guarnição, cheia de equipamentos de medição de velocidade.

Era uma baita blitz. Não dava pra contar quantos carros estavam ali, sendo inspecionados ao mesmo tempo. Toda a lateral da estrada estava tomada de gente abrindo portas, porta-malas, capô, mostrando documentos, licenças e até muitos deles agachados, discutindo o estado dos pneus.

Na minha cabeça, o guarda ia precisamente fazer como as árvores: elogiar o carro e me dar os parabéns. Mas ele tinha outros planos para mim, certamente. Assim que chegou perto foi logo anunciando o limite de velocidade da área. Depois me perguntou a quantos quilômetros eu acreditava que vinha com o meu amigo Andrew. Na hora eu já percebi tudo e apenas redargui, já me desculpando:

– O problema é que a gente não percebe, quando a estrada é lisinha assim, quão rápida é a nossa levada. Ainda mais que nesse trecho tem um prazeroso declive. Aí o carro parece que vai sozinho, sem nem precisar de motor ou acelerador. Isso acaba por nos enganar e então, sem querer, a gente acaba andando mais rápido do que queria.

– Pois foi exatamente isso que aconteceu. O senhor estava a mais de 130 por hora. – disse, maneando a cabeça – Documentos do veículo e seus, por favor.

Uma coisa muito comum de acontecer nessas horas é que a gente sempre se atabalhoa quando uma autoridade nos pede os documentos. Mesmo sabendo exatamente o local em que eles estão guardados, geralmente em um compartimento específico da bolsa ou carteira, basta que um policial nos peça e a gente fica ali chafurdando de um lado pro outro e nada de achar.

No caso aqui, eu considero que esse nervosismo aplicado ao ato de não encontrar o documento solicitado, foi a minha salvação. Isto porque, ao folhear as páginas na carteira eis que algo chamou a atenção da autoridade.

– O senhor é federal?

– Sou o quê?

– Federal. O senhor é servidor federal? Estou vendo um contracheque bem ali.

– Sou sim. Do Ministério da Cultura.

– E trabalha onde?

– Na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

O guarda pegou os documentos nas mãos e gritou pra outro colega mais à frente, que parecia ser um tipo de supervisor da operação:

– Tenente, esse aqui é federal. É um fodido igual a gente.

– É documento?

– Não. O documento tá ok. É excesso de velocidade. Deu 130 por hora.

– Manda vazar. É um fodido como nós – e os dois deram uma risadinha com ares de cumplicidade.

O policial retornou e me devolveu os documentos. Depois disse que se tem alguém que pode fazer alguma coisa, são os servidores públicos dos outros ministérios, que não os de farda.

– Tem que fazer greve mesmo, parar tudo, passeata, o que for preciso. Ele, o almofadinha do Fernando Henrique, com aquele ar superior, está achatando o nosso salário há mais de cinco anos. Aquele filho da mãe engomadinho. Então, o senhor tá liberado. Vai com Deus e segure esse seu pé direito aí. Cuidado com as descidas e preste atenção aos limites pra não correr risco na estrada, nem botar outras pessoas em risco.

– Muito obrigado – disse eu, juntando as coisas pra seguir viagem – Eu nunca pensei que um dia ia achar bom ser chamado de fodido. A vida nos ensina cada coisa. Bom dia pro senhor e bom trabalho.

– Quando eu for a São Paulo dou uma passada lá na sua Cinemateca. Bom dia também.

 

 


terça-feira, 10 de março de 2026

A Insônia

 

Sônia diz que tem insônia. De noite fica revirando na cama e qualquer barulhinho a incomoda. Ora é o cachorro do vizinho, o gato vadio que mia no telhado, e ora é a chuva, o vento sul e o caminhão do lixo, pois esses caras resolvem recolher o lixo justamente quando ela está quase conseguindo dormir. Um desplante!

Dorme um sono ralo a pobre senhora, deveras picado e quando o dia amanhece traz com ele um cansaço fantasmagórico, justamente por não ter tido o benefício de um sono reparador. Ela garante ainda que desde pequena tem essa insônia crônica e que deve ser herança de família, algo genético, carma ou vai ver encosto mesmo, cuja origem pertence a uma encarnação anterior.

Alberto, o marido, por sua vez, jura que a mulher dorme a noite toda e que toda aquela reclamação não tem o menor fundamento. Insônia? Desde pequena? Conta outra! Ele ressalta que quando vão dormir, no meio da conversa se dá conta de que está falando sozinho faz tempo, pois a mulher já estava ressonando serena desde a sua primeira frase.

Enfim, o fato é que Sônia continuava a lutar contra a sua insônia. Houve um tempo que ela tomava própolis, depois punha debaixo do travesseiro uma folha de alface, também tentou com folhas de manjericão, de manga e de eucalipto. Ah, e teve a arruda também, que ela desistiu logo porque deixava um cheiro muito forte no quarto. O sal grosso atrás da porta foi indicado pra purificar as energias do aposento e trazer bom sono, mas logo foi substituído pelo chá de casca de mulungu. Este mulungu reinou solene por um bom tempo e depois foi-se, tal como os demais.

Outras tentativas foram a melatonina, a valeriana, a passiflora e as conhecidas camomila e erva-cidreira. Também teve a fase da lavanda floral e da folha de abacate, ambas usadas como complemento da luz azul instalada estrategicamente no abajur, perto da cabeceira do casal.

No campo da medicina as investigações foram em busca de desvio do septo nasal, apneia obstrutiva, engasgos noturnos e as velhas rinite e sinusite, além da síndrome de hipoventilação e da de resistência das vias aéreas superiores. A cada vez que esses exames davam em nada um outro era logo acrescido à lista.

Vale dizer que nessa época não havia celular e as pessoas não tinham tanta familiaridade com o ato de filmar ou gravar coisas. Fosse no tempo atual e um simples e curto vídeo resolveria definitivamente a questão se a dona Sônia tinha insônia ou não, dando ao seu marido os louros pela vitória e comprovando a equivocada sensação da senhora, quanto a não dormir à noite.

Foi então que o Alberto, sujeito que adora uma MPB bem tocada, convidou os amigos para uma roda de samba em sua casa na noite da sexta-feira. A festinha comemorava o aniversário da dona Sônia, que era no dia seguinte, sábado, e o próprio anfitrião cuidou de tudo para receber os convidados.

Só mesmo aquela sala ampla e aconchegante, de grandes janelas e com vista pro mar, pra acolher da melhor forma possível o som maravilhoso daquele quinteto que tinha violão, cavaquinho, flauta, pandeiro e tantan. Eles sabiam tudo e mais um pouco. As melhores músicas, desde a bossa-nova até os sambas-canções, passando pelos sambas de enredo e o bom e velho partido alto.

O repertório variado não parou nem mesmo pra cantar o parabéns, que foi executado em ritmo de samba e logo depois emendado com um Paulinho da Viola da melhor qualidade.

Já passava um bocado da meia-noite quando o Alberto se deu conta de que o aniversário mesmo, da esposa, era neste sábado que já estava a transcursar. O bolo já tinha sido até cortado bem antes e, naturalmente, muitos convidados já tinham ido embora, tendo ficado só os mais chegados e, claro, os músicos, em plena disposição para brindar até o amanhecer do dia.

O marido então saiu pela casa em busca da mulher. Foi lá para os fundos e nada. Quando voltou à grande sala se deparou com uma cena extraordinária: a dona Sônia estava deitada num sofá, toda encolhida, dormindo a sono solto, aqueles sonos fortes de roncar e fazer tremer o teto. Por causa da música ninguém tinha ouvido nada, tampouco percebido quando se deu o momento exato do recolhimento da mulher.

No primeiro intervalo da cantoria o Alberto chamou os músicos pra perto do sofá e começou o seu discurso:

– Pessoal, por favor, agora eu queria pedir um brinde à minha querida esposa. Aliás dois brindes. Um pelo aniversário, com muita saúde e paz, e outro, não menos importante, pela insônia dela. Nesse momento festivo e solene nós temos a oportunidade de constatar, para o mundo todo, que ela tem uma insônia absurda, peremptória, e que isso realmente está afetando as noites dela. Enquanto a gente estava ali, tocando e cantando, ela estava aqui nesse sofá, curtindo essa insônia cruel e perversa. Tentando dormir, mas o sono não vinha de jeito algum. A surpresa dela agora, despertando amarrotada das profundezas do inconsciente, não é nada menos do que insônia. A pura e legítima insônia, senhoras e senhores. Então, por essa razão, eu peço agora um brinde à insônia da dona Sônia.

A coitada acordou no meio do discurso com a cara amassada e assustada com todo aquele fuzuê de gente gritando, dando parabéns e rindo da cena insólita. Como ela não tinha outra saída, começou a rir também, meio sem jeito, aí se levantou do sofá e foi abraçar o marido. Depois ainda tentou argumentar que a razão de ter dormido daquele jeito foi por que estava cansada, que o dia de festa foi puxado e que, por isso, não teve insônia, mas sim, caiu dormindo de cansaço.

O marido, sem perder a nova chance, sentenciou, erguendo o copo:

– Aqui galera, mais um brinde então. Um brinde final. Ela diz que não dorme direito mas, na verdade, o que acontece é que ela dorme sim e muito bem. E sonha. Sonha toda noite. É que ela sonha que tem insônia. É isso! E tenho dito. Muito obrigado a vocês.

E o samba voltou a soar firme e forte.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Velha

 

Tem gente que já nasceu velha. Não importa a idade, a pessoa já era velha desde nova. Diferente do cabra que, mesmo depois dos 60, ainda é jovem, na mente pelo menos, quiçá no corpo, com todas essas academias por aí, e na alma, com todas as emoções que o cinema pode proporcionar.

É que gente velha, com o pensamento velho, tende a ser cacete, como Machado de Assis gostava de descrever: o sujeito maçante, chato, enjoado, trocho, manguara, ou seja, velho! Sem apelação. E mesmo não conhecendo algumas dessas palavras, dá pra intuir o significado só pelo som de cada uma, assim que sai da boca. Portanto, chato.

Pois eu, depois de muito evitar essa palavra, acabei por me dar por vencido quando tive de explicar o real motivo pelo qual eu chamei o técnico do ar-condicionado. O bicho é novo e não tem nada de errado; está funcionando corretamente, como inclusive sentenciou o rapaz, assim que o auscultou metodicamente.

Ocorre que, para justificar o meu chamado, eu tive de contar pra ele que a vizinha de baixo, sempre que me encontra, diz que o meu ar faz muito barulho e que ela não consegue dormir. Assim posto, que ele desse uma boa olhada, limpasse o filtro de ar, botasse óleo onde precisasse, apertasse os parafusos do suporte, conferisse se a grade estava frouxa etc. Ele, por sua vez, lembrou da ocasião em que foi instalado o dito cujo, por ele próprio, que não fazia muito tempo e que, daquela vez, o tio, dono da empresa, até tinha vindo junto e chegou a elogiar o trabalho do sobrinho.

– Mas realmente, seu Anderson, o seu climatizador está em perfeitas condições de uso.

– Como? Quem?

– O seu ar-condicionado.

– Agora o amigo me assustou – disse eu, em tom de piada, pra descontrair, uma vez que o rapaz já estava me dando como doido por acionar o técnico e pagar por uma visita na qual não havia nada a se fazer.

Foi nessa hora, de plena incredulidade do especialista, que eu acabei por me render e concordar com ele que a tal vizinha estava reclamando sem razão, pois o aparelho não tinha nada que ver com o barulho que ela ouvia. Aliás, disse ele, isso aqui está muito bom. Trata-se de um trabalho muito bem-feito. Ao final da frase deu um risinho e piscou o olho, pra que eu entendesse que era uma referência ao seu próprio trabalho, um autoelogio. Eu sorri também e concordei vivamente.

– Enfim, eu chamei você aqui pra ver se tem alguma coisa que possa ser feita, pra que a vizinha não reclame mais comigo.

– Olha, realmente, nada que eu faça aqui vai melhorar o que já está bom. Essa mulher deve ter o sono leve demais. Ou então é uma chata, que vive pra reclamar dos vizinhos.

– Ela é uma senhorinha. Idosa talvez, mas...

– Uma velha chata, isso sim!

– Ok, uma velha a quem eu preciso convencer de que o meu ar-condicionado está bom e não faz barulho anormal algum. Por isso estamos aqui a verificar tudo certinho, ok?

O rapaz, resignado, balançou um pouco a cabeça e pegou um medidor de dentro da sua caixa de ferramentas. Um aparelho que tinha uma tela, bacana, todo tecnológico. A seguir, se pendurou novamente na janela e foi verificar as mangueiras da máquina, o nível do gás e a saída de exaustão.

– Já que eu estou aqui, vou ver logo tudo. Mas a princípio está tudo perfeito, doutor.

Nesse exato momento, a vizinha de baixo chega na janela. Não sei se ela já estava esperando uma deixa pra entrar na conversa mas, assim que ela deu de cara com o homem, quase pendurado prédio a fora, já foi assuntando a sua presença ali.

– Bom dia.

– Bom dia, senhora.

– Isso é batata! O ar-condicionado só dá defeito no verão. Justamente no verão, não é assim?

– Exatamente. É assim mesmo. Mas aqui não é o caso, não. O aparelho não estava com defeito.

– Então, é só uma manutenção?

– É que tem uma velha aí que tá sempre reclamando do barulho desse ar-condicionado, sabe? Aí eu vim aqui pra dar uma conferida geral.

– Essa velha sou eu.

Se eu morasse numa casa e não num apartamento, essa seria a ocasião certa de fazer um buraco no meio do quintal e me jogar dentro dele. Eu queria morrer ali, enterrado, ou eletrocutado, fulminado, sei lá, e virar cinza, só pra não ter que viver o prosseguimento daquela prosa.

A janela de baixo se fechou rápida e eu não sabia onde enfiar a minha cara. O técnico, por sua vez, se deu conta do que tinha dito e torceu os lábios.

– A velha é ela mesmo? A velha que reclama?

– Sim, é ela.

– Puta bosta que eu fiz!

Eu nem respondi. E nem precisava.

A dona reclamante ficou sem falar comigo um bom tempo. O que antes era um cumprimento generoso nos encontros na garagem do prédio, passou a ser um seco, sequíssimo, bom dia, boa tarde, boa noite, sem nem olhar na cara.

Um belo dia eu tinha acabado de estacionar quando notei uma coisa estranha no carro da famigerada vizinha. Fui chegando perto e, estarrecido, parei pra ler. Nos dois vidros, o traseiro e o para-brisa, estava escrito em letras grandes e brancas a palavra “Velha”.

Putz, não é possível! Eu gelei. Quem fez isso, cacete? Ela vai achar que fui eu. Lógico! Que merda é essa, gente? Num átimo eu corri pro carro peguei um pano que sempre fica no porta-malas e fui correndo até a torneirinha que tem ali perto do banheiro dos porteiros. Logo que abri a bica veio o desespero, um grande desespero, pois não tinha água. Eu abria o registro, abria e fechava frenético e não saía água alguma.

Foi então que eu acordei assustado, pedindo água e repetindo “o carro, tenho que apagar aquilo, água, carro, não fui eu, vidro, apagar”.

Só depois de uns bons minutos é que o teto do quarto me acalmou, explicando que eu estive sonhando.

O coração aos pulos, sem ar.

Aos poucos, o sangue foi voltando à velocidade normal.

E eu agradeci aos deuses.

E ao teto do Saramago, sempre me acudindo.

Mais uma vez.

 

 


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Almoço

 

Parecia que tinha uns cinco falando ao mesmo tempo. Quando eu terminei de estacionar percebi que eram “só” dois, mas, mesmo assim, não consegui acreditar que todas aquelas vozes vinham apenas de um diálogo entre dois trabalhadores do estacionamento do centro médico.

Confesso que muita coisa que era dita ali eu não entendia, por tão rápida que era aquela troca de palavras. Mesmo pertinho, quando eu fui pegar o meu tíquete, olhando para as bocas dos homens, eu pouco ou nada conseguia. Acho que foi por isso que eles passaram a falar mais devagar comigo, o que foi ótimo.

Os dois conheciam todo mundo que estacionava ali. Desde os médicos, enfermeiros, o pessoal da administração, recepção, todos cumprimentavam a dupla com muita amizade. Alguns conseguiam levar os próprios carros às vagas indicadas. Já outros deixavam a chave com um deles e o veículo era adequadamente abrigado.

Naquele dia feio e chuvoso estava um entra e sai frenético dos prestadores de serviços e dos entregadores de insumos, que depois percebi serem das máquinas da terapia intensiva. Os furgões entravam e descarregavam seus produtos, tudo bem rápido, mas mesmo assim sempre tinham uma saudação especial aos dois guardadores.

Eu fiquei abrigado da chuva fina em um ponto meio central do estacionamento, debaixo de uma pequena marquise e eles passavam por mim a todo momento. Numa dessas vezes o mais baixinho trouxe um banco de madeira e sentou perto de mim, terminando de falar ao celular.

– Tudo bem meu amigo?

– Sim, tudo ok. Deu uma folguinha agora, né?

– Esse horário fica mais tranquilo porque o pessoal já entrou na consulta. É nessa hora que eu dou uma recolhida e vou almoçar.

Eu nem precisei falar da minha estranheza por ter ouvido a palavra almoço em plena manhã, visto que mal chegava a dar 10 horas.

– É cedo, né? Mas é assim mesmo, eu almoço às 10 horas. Isso é o normal, porque chego aqui às seis da manhã. Então às 10 o meu amigo ali do restaurante me traz uma quentinha e eu como ali mesmo na cabine da guarda, enquanto recebo os carros. Essa ligação que eu atendi agora é da minha esposa me chamando pra almoçar. Lá pras 13 horas, por aí, eu vou almoçar com ela. Aí saio, pego a moto e a gente se encontra no Centro.

– Nunca tinha visto alguém que almoçasse duas vezes.

– Mas não é sempre não. Só quando ela pode ir. Aí ela me chama. Senão ela come lá no trabalho dela mesmo e eu peço um lanchinho de tarde pra mim.

Pra reforçar a minha impressão de que eles conheciam todo mundo ali dentro, eis que vem vindo um velhinho, apoiado pelo braço de uma jovem. Chegando perto, enquanto ela pagava o estacionamento, o senhor tirou do banco de trás do carro um boné todo azul.

– Olha, isso é pra você. Um presente pela sua camaradagem comigo todos esses meses. Hoje foi a minha última sessão e espero que esse time do Avaí te faça feliz como eu estou me sentindo agora.

A moça escondeu uma lágrima enquanto os dois se abraçavam como dois velhos amigos.

Eu fiquei paralisado com o que via, não sabendo como descrever aquela cena. Ele tornou a se sentar no banco e guardou o celular no bolso.

– Essas pessoas aqui, que passam por aqui todos os dias, são todas umas lutadoras. Uma doença que derruba a família inteira até levar o sujeito de vez. E é só com muita luta, esperança mesmo, que eles conseguem vencer e sair daqui assim, com essa vontade de viver. Isso me dá força também, sabe senhor?

– Claro. Você vendo essa trajetória deles percebe como a vida é frágil.

Ele disse “isso mesmo” e, rápido como um passarinho, já levantou voando pra ir abrir a cancela pra um outro paciente que entrava. De longe eu o via conversando com a motorista, tal como dois amigos, ora apontando pra entrada do prédio, talvez indicando uma vaga pra ela.

Quando retornou, pegou o banco e o pôs debaixo do braço, retomando o diálogo de há pouco.

– A vida é mesmo muito frágil, meu amigo. E curta. Se a gente fica lamentando, já foi. Deus nos dá a ladeira pra gente subir, mas as pernas são as nossas.

Eu fiquei ali um bom tempo, olhando o trabalho dos dois, perdido no tempo e na frase dele.

Perto da hora de sair eu fui até a guarita pra pagar. Junto comigo chegou uma senhora também pra fazer o pagamento. Eu dei a vez a ela e o rapaz foi buscar a máquina de cartão.

– O seu é 20 reais, senhora.

– Ah, ok. Débito, por favor. Amanhã não vou precisar de vaga. Venho a pé.

– A pé? Mas, e a chuva?

– Amanhã é a minha última quimio, meu amigo. Agora é vida nova. Amanhã vou sair daqui caminhando na chuva em homenagem à minha querida mãe, que adorava andar na chuva. Muitas vezes saía com ela de cadeira de rodas e ela pedia pra esperar a chuva cair. A gente voltava encharcada e ela, feliz da vida, ia contando os borriços que tomava na infância, junto com os irmãos mais velhos, quando moravam no interior. Parecia que ela estava vendo um filme bem na sua frente. Então, amanhã, quem vai ver um filme tomando chuva serei eu.

– Que a senhora tenha um lindo filme amanhã. E na saída passa aqui pra me dar um abraço, viu?

– Pode deixar.

Eu paguei o meu tíquete e ele disse pra eu ir buscar o carro, enquanto ele abria o portão.

– Estou surpreso com as coisas bonitas que você escuta aqui no seu trabalho.

– A gente sabe que essas pessoas estão num momento frágil e eu só procuro ajudar, com um pouco de bom-humor e educação. E tudo que a gente faz pra ajudar, volta pra gente. Pode parecer simples, mas é assim que funciona. No final eu sempre acabo recebendo da vida mais do que dou.

– Sei como é. É tipo almoçar duas vezes!!!

– Hahaha, essa foi boa. Vai com Deus, meu amigo!

 

 


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Bolão

 

No meio da gira um dos rapazes que fazem o atendimento às entidades saiu lá do outro lado do salão e veio falar com o Elias, que estava sentado na plateia, junto com a sua mãe. Era uma espécie de arquibancada, com alguns poucos degraus que serviam de assento.

O moço apontou para ele, depois fez sinal pra que o seguisse e estendeu o braço como que alcançando o local onde as entidades incorporadas recebiam as pessoas e davam consultas. Enfim, alguém lá do outro lado o teria convidado a se aproximar.

Os dois atravessaram o salão, onde os demais praticantes evoluíam em suas danças, e chegaram ao senhor encurvado, todo de banco e cheio de guias no pescoço, que sentava em um banquinho pequeno. O rapaz apresentou a entidade como vovô, que Elias entendeu ser um preto velho. Ele fez as saudações devidas e pôs-se a ouvir.

– Meu filho, você não vai ganhar nesse jogo de papel.

– Desculpe, vovô, não entendi.

O homem bateu forte com a bengala preta e branca no chão e repetiu a frase. Depois segurou o cachimbo, de um cheiro bem agradável, e continuou.

– Você nunca vai marcar esses números certos. Na palma da sua mão não tá escrito que as bolinhas que vão cair serão as suas. Não jogue nesses sorteios. Isso não é pra você. Não esse jogo.

Na mesma hora o rapaz pensou no bolão que tinha feito para a Mega da Virada. Era isso! Era esse o único jogo que ele apostava. Então, só podia ser isso.

– Mas por que eu não vou ganhar, vovô? Tem alguma coisa que eu possa fazer, um trabalho?

– Nada. Só não está permitido nessa sua encarnação. E mesmo você jogando com outras pessoas, a sua participação vai fazer com que todos percam.

– Minha nossa. Que dedo podre o meu.

Assim que saiu do centro espírita Elias ligou pro amigo, que era quem organizava o jogo em grupo, o famigerado bolão, e contou sobre a consulta com o preto velho. A princípio eles riram da conversa havida com a entidade. Depois lembraram das tantas vezes que jogaram juntos, não só os dois em dupla, mas também com outros grupos, grandes e pequenos, e uma pulga foi crescendo atrás da orelha de ambos. Será que é verdade? Mas porque ele iria te avisar? As respostas não existiam.

Passou uma semana e o amigo ligou. Disse que tinha uma saída para o caso das apostas. Elias, ansioso, não podia esperar pra ouvir a solução daquela questão.

– A gente vai fazer um jogo, normal, com todo o pessoal que sempre joga junto. Só que você não vai entrar no rateio. Quer dizer, não vai entrar oficialmente, porque vai dar o dinheiro como todo mundo. Mas o seu nome não vai constar oficialmente. E aí, cada um vai se comprometer a te doar uma parte do prêmio, o bastante para que você ganhe a mesma coisa como se tivesse jogado conosco. Entendeu?

– E pode isso?

– Como assim, “pode”? Se as pessoas quiserem te dar uma parte do prêmio delas, o que tem de ilegal nisso?

– Não. Eu tô falando se pode pro preto velho. Se ele vai permitir, se eu não vou estar enganando a espiritualidade, sei lá!

– Ah, bem, isso tu tem que perguntar pra ele. E é bom saber logo, senão a gente vai ficar mal com o santo também e não será só você que vai estar enganando a parada lá dos pretos velhos.

Depois de um tempo em silêncio, ambos tiveram a mesma ideia: ir lá de novo e perguntar pra entidade.

– Vou falar com a minha mãe pra gente ir lá no Centro. Eu sempre vou com ela.

Na fila, enquanto esperava a sua vez pra consulta, Elias passava e repassava toda a questão pra poder explicar claramente pro preto velho. Era uma coisa que não devia deixar mal entendido, ainda mais que podia envolver o restante dos amigos participantes dos jogos.

A cada minuto ele ficava mais nervoso, cuidando pra não esquecer qualquer detalhe daquela pergunta que o liberaria, em termos, pra jogar sem jogar, e eventualmente pra ganhar sem poder ganhar, sem estar autorizado a jogar... Que confusão era a cabeça do pobre do Elias.

A surpresa, entretanto, veio forte e chegou a estalar um músculo no peito do rapaz. É que na primeira frase que ele disse, ainda no começo da pergunta, antes de chegar a fazer algum sentido, o preto velho levantou os olhos na direção dos dele, bateu forte com a bengala no chão e então gritou umas palavras incompreensíveis, talvez em algum dialeto africano, que o fez tremer.

Nesse instante o cambono acudiu e entregou ao preto velho um novo cachimbo e também uma cuia com alguma bebida dentro. A entidade baforou uma fumaça aromática na direção do rapaz e calmamente ficou olhando pra ele, sem dizer nada. Depois balançou a cabeça, bebeu outro gole e disse:

– Você quer saber o que eu acho desse seu plano, meu filho? Quer saber se você pode fazer isso? Você tá com medo do preto velho, filho? Você está pensando na sorte dos seus amigos? Sabe de uma coisa, meu filho? Você pensa muito! Se fosse outro já teria feito a lambança e depois voltava aqui, todo encolhido, pra pedir a minha ajuda. Mas você veio me perguntar primeiro. Isso é bom. É do caráter justo do filho de sua mãe.

Se havia ainda alguma dúvida quanto a fé de Elias nas entidades, com aquela conversa já não restava mais nenhuma. Ele não tinha falado palavra e o preto velho já sabia de todas as suas questões, todas as perguntas que ele ia fazer. E esse fato só aumentava a tensão daquele momento.

– A resposta que eu tenho pra te dar é simples. Você não está proibido de jogar. Nem de tentar. Só não vai ganhar. Mas se você tiver ouvidos de ouvir e olhos de ver, guarde bem isso, porque eu só vou falar uma vez: Você quer dar o seu jeito? Muito bem, então dá o seu jeito! – estendeu a mão, que foi beijada pelo rapaz e o despediu:

– Vá com Deus, na Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E com a bênção do Vô Cipriano.

 

 

Elias reside em Portugal atualmente. Mora em Sintra. Pertinho do castelo.

Ele ganhou um prêmio grande em uma dessas loterias, junto com vários amigos.

Mas Elias não jogou.