Sônia diz que
tem insônia. De noite fica revirando na cama e qualquer barulhinho a incomoda.
Ora é o cachorro do vizinho, o gato vadio que mia no telhado, e ora é a chuva,
o vento sul e o caminhão do lixo, pois esses caras resolvem recolher o lixo
justamente quando ela está quase conseguindo dormir. Um desplante!
Dorme um sono
ralo a pobre senhora, deveras picado e quando o dia amanhece traz com ele um
cansaço fantasmagórico, justamente por não ter tido o benefício de um sono
reparador. Ela garante ainda que desde pequena tem essa insônia crônica e que deve
ser herança de família, algo genético, carma ou vai ver encosto mesmo, cuja
origem pertence a uma encarnação anterior.
Alberto, o
marido, por sua vez, jura que a mulher dorme a noite toda e que toda aquela
reclamação não tem o menor fundamento. Insônia? Desde pequena? Conta outra! Ele
ressalta que quando vão dormir, no meio da conversa se dá conta de que está
falando sozinho faz tempo, pois a mulher já estava ressonando serena desde a sua primeira
frase.
Enfim, o fato
é que Sônia continuava a lutar contra a sua insônia. Houve um tempo que ela
tomava própolis, depois punha debaixo do travesseiro uma folha de alface,
também tentou com folhas de manjericão, de manga e de eucalipto. Ah, e teve a
arruda também, que ela desistiu logo porque deixava um cheiro muito forte no
quarto. O sal grosso atrás da porta foi indicado pra purificar as energias do
aposento e trazer bom sono, mas logo foi substituído pelo chá de casca de
mulungu. Este mulungu reinou solene por um bom tempo e depois foi-se, tal como
os demais.
Outras
tentativas foram a melatonina, a valeriana, a passiflora e as conhecidas
camomila e erva-cidreira. Também teve a fase da lavanda floral e da folha de
abacate, ambas usadas como complemento da luz azul instalada estrategicamente
no abajur, perto da cabeceira do casal.
No campo da medicina
as investigações foram em busca de desvio do septo nasal, apneia obstrutiva,
engasgos noturnos e as velhas rinite e sinusite, além da síndrome de
hipoventilação e da de resistência das vias aéreas superiores. A cada vez que
esses exames davam em nada um outro era logo acrescido à lista.
Vale dizer que
nessa época não havia celular e as pessoas não tinham tanta familiaridade com o
ato de filmar ou gravar coisas. Fosse no tempo atual e um simples e curto vídeo
resolveria definitivamente a questão se a dona Sônia tinha insônia ou não,
dando ao seu marido os louros pela vitória e comprovando a equivocada sensação
da senhora, quanto a não dormir à noite.
Foi então que
o Alberto, sujeito que adora uma MPB bem tocada, convidou os amigos para uma
roda de samba em sua casa na noite da sexta-feira. A festinha comemorava o
aniversário da dona Sônia, que era no dia seguinte, sábado, e o próprio
anfitrião cuidou de tudo para receber os convidados.
Só mesmo
aquela sala ampla e aconchegante, de grandes janelas e com vista pro mar, pra
acolher da melhor forma possível o som maravilhoso daquele quinteto que tinha
violão, cavaquinho, flauta, pandeiro e tantan. Eles sabiam tudo e mais um
pouco. As melhores músicas, desde a bossa-nova até os sambas-canções, passando
pelos sambas de enredo e o bom e velho partido alto.
O repertório
variado não parou nem mesmo pra cantar o parabéns, que foi executado em ritmo
de samba e logo depois emendado com um Paulinho da Viola da melhor qualidade.
Já passava um bocado
da meia-noite quando o Alberto se deu conta de que o aniversário mesmo, da
esposa, era neste sábado que já estava a transcursar. O bolo já tinha sido até cortado
bem antes e, naturalmente, muitos convidados já tinham ido embora, tendo ficado
só os mais chegados e, claro, os músicos, em plena disposição para brindar até o
amanhecer do dia.
O marido então
saiu pela casa em busca da mulher. Foi lá para os fundos e nada. Quando voltou
à grande sala se deparou com uma cena extraordinária: a dona Sônia estava deitada
num sofá, toda encolhida, dormindo a sono solto, aqueles sonos fortes de roncar
e fazer tremer o teto. Por causa da música ninguém tinha ouvido nada, tampouco
percebido quando se deu o momento exato do recolhimento da mulher.
No primeiro
intervalo da cantoria o Alberto chamou os músicos pra perto do sofá e começou o
seu discurso:
– Pessoal, por
favor, agora eu queria pedir um brinde à minha querida esposa. Aliás dois brindes.
Um pelo aniversário, com muita saúde e paz, e outro, não menos importante, pela
insônia dela. Nesse momento festivo e solene nós temos a oportunidade de constatar,
para o mundo todo, que ela tem uma insônia absurda, peremptória, e que isso realmente está
afetando as noites dela. Enquanto a gente estava ali, tocando e cantando,
ela estava aqui nesse sofá, curtindo essa insônia cruel e perversa. Tentando
dormir, mas o sono não vinha de jeito algum. A surpresa dela agora, despertando amarrotada das profundezas do inconsciente, não é nada menos do que
insônia. A pura e legítima insônia, senhoras e senhores. Então, por essa razão, eu peço agora um brinde
à insônia da dona Sônia.
A coitada
acordou no meio do discurso com a cara amassada e assustada com todo aquele
fuzuê de gente gritando, dando parabéns e rindo da cena insólita. Como ela não
tinha outra saída, começou a rir também, meio sem jeito, aí se levantou do sofá
e foi abraçar o marido. Depois ainda tentou argumentar que a razão de ter
dormido daquele jeito foi por que estava cansada, que o dia de festa foi puxado
e que, por isso, não teve insônia, mas sim, caiu dormindo de cansaço.
O marido, sem perder
a nova chance, sentenciou, erguendo o copo:
– Aqui galera,
mais um brinde então. Um brinde final. Ela diz que não dorme direito mas, na
verdade, o que acontece é que ela dorme sim e muito bem. E sonha. Sonha toda
noite. É que ela sonha que tem insônia. É isso! E tenho dito. Muito obrigado a
vocês.
E o samba
voltou a soar firme e forte.