Quando apareceu a oportunidade de eu ir
trabalhar naquele congresso de arqueologia, eu aceitei na hora. Ia ser em Campo
Grande, Mato Grosso do Sul, e meu irmão tinha ido morar lá fazia poucos meses.
Então era algo irrecusável, até pelo fato de ser sempre bom sair um pouco da
rotina do trabalho em Floripa.
Chegamos todos juntos no domingo, eu e a equipe
toda. O congresso começava na segunda. Eles ficaram em hotéis no Centro e
eu fui pra casa do meu irmão, que fica em um bairro afastado, mas que é
relativamente perto do local do evento, o que ia facilitar a minha chegada.
Na segunda-feira, bem cedinho, atendendo às
indicações do meu irmão e dos amigos dele, eu fui até o ponto de mototáxi pra
poder ir pro congresso, pois ali era um tanto rara a oferta de ônibus, ainda
mais naquele sentido, oposto ao do Centro da cidade. Eles me indicaram o ponto,
que era pertinho, na esquina, e alertaram que as motos normalmente andam em
louca disparada, sendo necessário que o próprio passageiro alerte pra que eles
não corram. Essa era a recomendação primordial e eu a tinha guardado bem.
Fui chegando no ponto e já fui vendo que as
motos eram um tanto detonadas, velhas mesmo. Algumas tinham os assentos
rasgados e o estado dos capacetes era preocupante, pra dizer o mínimo. Muitas
tinham os escapamentos comprometidos e o barulho do motor era mais
alto que o normal.
Foi aí que eu me lembrei dos cachorros loucos,
como são chamados os motoboys em São Paulo. Quando eu morei na cidade todo dia
tinha uma ocorrência com o pessoal do trabalho, envolvendo os tais cachorros
loucos. Retrovisor era normal eles quebrarem. Mas além disso era porta
amassada, antena arrancada, lateral arranhada, além das lanternas que se iam
embora, com lâmpadas e tudo mais.
Bem, mas eu não tinha muita escolha naquela
circunstância. Precisava chegar ao centro de convenções e só tinha o tal ponto
de mototáxi pra meu transporte. O rapaz da vez me viu e foi se aproximando:
– Bom dia doutor. O senhor vai pra onde?
– Bom dia. Eu gostaria de ir ao centro de
convenções.
– Se gostaria, é pra lá que o senhor vai. Pode
deixar comigo.
Tentando achar os termos certos, as palavras
adequadas pra explicar o meu pânico de andar de moto e por estar prestes a ser
conduzido por um cachorro louco de Campo Grande, eu gaguejei um pouco buscando
um bom motivo pra que ele não corresse muito no trajeto.
Então expliquei que eu tinha saído de casa bem
cedo, que não tinha pressa alguma, e que ele podia pilotar bem devagar pois o
horário do início dos trabalhos estava bem tranquilo. Ele tirou a moto do
descanso, me deu um capacete que tinha um certo cheiro desagradável e me disse
pra eu ficar tranquilo e aproveitar a viagem. Parecia até frase de comissário
de bordo.
Na primeira lombada que ele passou e que eu
quase fui jogado na calçada distante, meu capacete subiu e depois bateu com força
no alto da cabeça, visto que estava frouxo e suas tiras já não funcionavam
direito. Eu pedi pra ele dar uma parada pra eu me ajeitar melhor e expliquei:
– Olha só, eu tenho um problema no coração,
estou tomando remédio e talvez precise fazer uma cirurgia em breve. Então,
vamos tentar ir bem devagar, sem sobressaltos, sem sustos, senão eu vou infartar
aqui mesmo e você vai ter que me levar pro hospital, ao invés do centro de
convenções. Tá certo assim?
– Não. Pô. Tranquilo doutor. Se é caso de saúde,
tá certo sim.
Eu nem me importei se ele tinha ficado
assustado com a minha doença. Aliás, antes ele assustado do que eu. Mas o fato
é que aquilo fez toda a diferença e o resto do trajeto foi realmente tranquilo
e pacifico, como eu jamais poderia imaginar.
Até quando ele passou bem devagarzinho em uma
outra lombada, se apressou em se desculpar:
– Foi mal aí, doutor. Era uma lobada alta essa.
Como está o coração? Tudo bem?
E eu disse que sim, dando um leve sorriso de
vitória.
Como eu tinha carona na volta do congresso, só
precisei fazer outra viagem de mototáxi no dia seguinte. E foi muito
interessante o novo encontro com o ponto das motos. Já na chegada o piloto do
dia anterior veio me perguntar se eu ia pra lá de novo. Eu disse que sim e ele
me apresentou o rapaz da vez, que ia me conduzir, não sem antes fazer as suas
recomendações expressas.
– O doutor tem infarto no coração. Tá
entendendo? Então, cê vai bem devagar, valeu? Faz de conta que tá levando a sua
bisavó e cuidado com as lombadas altas na chegada do centro de convenções.
Eu até podia ficar chateado com aquelas
recomendações. Mas se era pra ele pilotar devagar, quer saber? Pode falar o que
ele quiser, contanto que eu não caia. Ou tenha um infarto de verdade.
Mas foi durante o trajeto que eu tive a noção
exata do quanto todo aquele ponto de mototáxi tinha sido alertado sobre a
extensão do meu infarto. Primeiro, a gente parou num sinal e um outro piloto veio
falar com o que me levava. Ele usou códigos e sinais pra lá de estranhos, mas eu
entendi que era um aviso pra ele não correr comigo na garupa. Eu quase ri da
cena, ainda mais quando o outro reclamava que já sabia, de tanto que devia ter
sido alertado pelo outro colega. Mas eu corria o risco de perder a razão, então
melhor deixar quieto.
Mais tarde, num cruzamento, outro mototáxi que
vinha em sentido contrário também fez sinal pro meu piloto não correr. De longe,
ele fez o formato de um coração com as mãos, apontou pro próprio peito e em
seguida meneou a mão estendida, alternando pra um lado e outro. No final,
mostrou as duas palmas das mãos, flexionando pra frente, como se estivesse
imitando o gesto de frear.
Eu não tinha ideia do quanto eles tinham ficado
preocupados comigo. Mas se eu tiver que pegar um mototáxi outra vez na minha
vida, sei exatamente o que vou fazer, e dizer, pra que ele não corra como um
louco cachorro louco. Ah, se sei.