sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Remédio

 

Assim que eu entrei na farmácia, vindo do dentista, já percebi um certo burburinho no ar. Parecia uma discussão. Contida, porém generalizada. As vozes se alternavam e o silêncio, quando surgia, causava uma certa pausa reflexiva, apta a eleger um argumento como definitivo, coisa que não existe em um diálogo como aquele.

A princípio, o senhor reclamava da demora em ser atendido. Toda hora ele olhava a sua senha e depois mirava o painel, balançando a cabeça em desaprovação. O amigo, tentando acalmá-lo, dizia que naquele horário era assim mesmo, as pessoas saindo do trabalho e tal, era normal.

– Não, isso acontece por que nós somos um povo doente. A quantidade de farmácias aqui no Centro nos diz exatamente isso: nós somos doentes. Olha em volta. Em cada esquina tem uma farmácia. Tem farmácia uma ao lado da outra. E são enormes. Algumas parecem verdadeiros supermercados.

– Falando nisso, você trouxe a receita médica? – disse o amigo, segurando uma sacola.

O outro nem respondeu. Apenas bateu com os dedos no bolso da camisa, indicando a ponta de uma folha de papel, e novamente reclamou de alguma coisa que eu não consegui perceber.

Duas chamadas depois, com cada um olhando o seu número e conferindo no visor do alto da farmácia, o homem voltou com sua lamúria.

– Agora temos essa alta na gasolina. Não faltava mais nada pra esse governo, que resolve aumentar tudo, e que se dane todos nós. Na feira, outro dia, a gente tinha de escolher o que levar e o que substituir, por causa dos preços. E nem falo da carne.

– Mas isso é por causa da guerra lá no Irã. Os navios não conseguem transportar o petróleo e aí, quando começa a faltar, vêm os aumentos. Não tem jeito, o petróleo faz tudo ficar mais caro. Tá assim no mundo todo.

– É, mas se fosse um governo de verdade ele saberia o que fazer pra não aumentar o custo de vida. Sendo pelo petróleo ou não, a meta deveria ser ajudar a população, custear e auxiliar os mais pobres, principalmente os aposentados, como nós.

– Eu discordo, meu amigo. Nem tudo é culpa do governo.

– Tudo é culpa do governo, sim. Um governo que não olha pra quem precisa, que não cuida da saúde do brasileiro.

A moça repetiu o número estampado no monitor e o nosso amigo levantou a mão, mostrando a sua senha. Minha vez, ele disse, pegando o amigo pelo pulso e levando com ele até o balcão.

– Boa tarde, senhor. Eu só preciso da receita e de um documento seu.

– Documento? Pra comprar agora precisa mostrar documento? – disse contrariado.

– Sim, por favor. No seu caso, sim.

Enquanto ela se dirigia para os fundos da farmácia, levando a receita e o documento do homem, uma nova saraivada de comentários rudes era proferida em modo de palanque. As pessoas em volta evitavam o menor contato visual com o senhor, para não ter que se envolver com aquela situação. Se ele reclamava de tudo, paciência. Eu é que não ia bater boca com gente assim, pensávamos todos nós em conjunto.

– O dólar só faz subir e o Real cada vez pior, desvalorizando. Veja você, agora vem a Copa do Mundo. Quantos milhões o governo não vai gastar pra mandar esse monte de gente pra lá? Tudo em dólar. E não é só jogador, não. É equipe técnica, médicos e preparadores físicos, hospedagem pra todo mundo, comida. Nossa senhora, ainda bem que tem eleição esse ano. Enfim, tudo isso junto e ainda tem os remédios, a saúde em geral. Eles não fazem nada de bom. Nada.

Quando o amigo ia responder, surge a atendente retornando ao balcão.

– Está aqui, senhor. O seu documento e os seus remédios. A receita vai ficar retida aqui com a gente, como manda o protocolo.

– Ah, sim. Obrigado. Onde fica o caixa?

– Não. Não tem que pagar nada, os seus remédios são de graça.

– Como assim? Não vou pagar?

– Não. O senhor não é paciente do SUS? Então, aqui é uma Farmácia Popular. Para o cidadão inscrito no SUS o governo paga os remédios porque é um programa federal, do governo federal, entende?

O amigo do rabugento, morrendo de vergonha, tratou logo de tirar o homem dali. Em poucos segundos já estava novamente de braço dado com ele, puxando o coitado pra fora da drogaria.

Me lembro bem que, naquela farmácia, pelos próximos cinco minutos, ninguém e nada se mexeu. O painel não chamou um novo número, nenhuma outra senha foi sacada, o caixa não recebeu um único pagamento, nem deu troco, e nenhum atendente entregou o remédio ao cliente.

É que todos estavam acompanhando a cena silenciosa dos dois homens ganhando a calçada e voltando a cultivar a sua ranzinzice, a sua intolerância em ano de eleição.

Curioso foi constatar que até a minha dor de dente passou!