Assim que eu entrei
na farmácia, vindo do dentista, já percebi um certo burburinho no ar. Parecia
uma discussão. Contida, porém generalizada. As vozes se alternavam e o silêncio,
quando surgia, causava uma certa pausa reflexiva, apta a eleger um argumento como definitivo,
coisa que não existe em um diálogo como aquele.
A princípio, o
senhor reclamava da demora em ser atendido. Toda hora ele olhava a sua senha e
depois mirava o painel, balançando a cabeça em desaprovação. O amigo, tentando
acalmá-lo, dizia que naquele horário era assim mesmo, as pessoas saindo do
trabalho e tal, era normal.
– Não, isso
acontece por que nós somos um povo doente. A quantidade de farmácias aqui no
Centro nos diz exatamente isso: nós somos doentes. Olha em volta. Em cada esquina
tem uma farmácia. Tem farmácia uma ao lado da outra. E são enormes. Algumas parecem
verdadeiros supermercados.
– Falando
nisso, você trouxe a receita médica? – disse o amigo, segurando uma sacola.
O outro nem
respondeu. Apenas bateu com os dedos no bolso da camisa, indicando a ponta de
uma folha de papel, e novamente reclamou de alguma coisa que eu não consegui perceber.
Duas chamadas
depois, com cada um olhando o seu número e conferindo no visor do alto da
farmácia, o homem voltou com sua lamúria.
– Agora temos
essa alta na gasolina. Não faltava mais nada pra esse governo, que resolve
aumentar tudo, e que se dane todos nós. Na feira, outro dia, a gente tinha de
escolher o que levar e o que substituir, por causa dos preços. E nem falo da
carne.
– Mas isso é
por causa da guerra lá no Irã. Os navios não conseguem transportar o petróleo e
aí, quando começa a faltar, vêm os aumentos. Não tem jeito, o petróleo faz tudo
ficar mais caro. Tá assim no mundo todo.
– É, mas se
fosse um governo de verdade ele saberia o que fazer pra não aumentar o custo de
vida. Sendo pelo petróleo ou não, a meta deveria ser ajudar a população,
custear e auxiliar os mais pobres, principalmente os aposentados, como nós.
– Eu discordo,
meu amigo. Nem tudo é culpa do governo.
– Tudo é culpa
do governo, sim. Um governo que não olha pra quem precisa, que não cuida da
saúde do brasileiro.
A moça repetiu
o número estampado no monitor e o nosso amigo levantou a mão, mostrando a sua
senha. Minha vez, ele disse, pegando o amigo pelo pulso e levando com ele até o
balcão.
– Boa tarde,
senhor. Eu só preciso da receita e de um documento seu.
– Documento?
Pra comprar agora precisa mostrar documento? – disse contrariado.
– Sim, por
favor. No seu caso, sim.
Enquanto ela
se dirigia para os fundos da farmácia, levando a receita e o documento do
homem, uma nova saraivada de comentários rudes era proferida em modo de
palanque. As pessoas em volta evitavam o menor contato visual com o senhor,
para não ter que se envolver com aquela situação. Se ele reclamava de tudo,
paciência. Eu é que não ia bater boca com gente assim, pensávamos todos nós em
conjunto.
– O dólar só
faz subir e o Real cada vez pior, desvalorizando. Veja você, agora vem a Copa
do Mundo. Quantos milhões o governo não vai gastar pra mandar esse monte de
gente pra lá? Tudo em dólar. E não é só jogador, não. É equipe técnica, médicos
e preparadores físicos, hospedagem pra todo mundo, comida. Nossa senhora, ainda
bem que tem eleição esse ano. Enfim, tudo isso junto e ainda tem os remédios, a
saúde em geral. Eles não fazem nada de bom. Nada.
Quando o amigo
ia responder, surge a atendente retornando ao balcão.
– Está aqui,
senhor. O seu documento e os seus remédios. A receita vai ficar retida aqui com
a gente, como manda o protocolo.
– Ah, sim.
Obrigado. Onde fica o caixa?
– Não. Não tem
que pagar nada, os seus remédios são de graça.
– Como assim?
Não vou pagar?
– Não. O
senhor não é paciente do SUS? Então, aqui é uma Farmácia Popular. Para o cidadão
inscrito no SUS o governo paga os remédios porque é um programa federal, do
governo federal, entende?
O amigo do
rabugento, morrendo de vergonha, tratou logo de tirar o homem dali. Em poucos
segundos já estava novamente de braço dado com ele, puxando o coitado pra fora
da drogaria.
Me lembro bem
que, naquela farmácia, pelos próximos cinco minutos, ninguém e nada se mexeu. O
painel não chamou um novo número, nenhuma outra senha foi sacada, o caixa não recebeu
um único pagamento, nem deu troco, e nenhum atendente entregou o remédio ao
cliente.
É que todos
estavam acompanhando a cena silenciosa dos dois homens ganhando a calçada e
voltando a cultivar a sua ranzinzice, a sua intolerância em ano de eleição.
Curioso foi
constatar que até a minha dor de dente passou!