sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Macho

 

No meio do calçadão, no entorno da feirinha de produtores familiares, dois homens em situação de rua captavam a atenção de todos pra uma briga que prometia, pra logo, ser levada às vias de fato. Ambos estavam atravessando a feira em direção à esquina e cada um levava vários objetos amontoados, sendo que os cobertores eram os mais visíveis.

Eu só consegui entender o que eles falavam quando passaram por mim, no limiar da feirinha.

– Eu falei pra ele que não mexesse nas minhas coisas. Ele sabia que aquilo era meu.

Mas você viu ele mexer?

– Não, mas hoje não estava lá. Então só pode ser aquele um.

Como esse diálogo era feito em um tom elevado, parecendo uma briga, as pessoas paravam e ficavam olhando, medindo pra ver quem tinha razão naquela treta do meio da rua.

– Eu só digo é isso: eu sou homem, não aceito isso não. Sou macho e comigo tem que ser olho no olho, resolver como homem. Eu sei que ele está fugindo de mim. Mas eu sou muito homem e vou pegar ele. Você pode esperar.

– Eu sei. Você tem razão. Mas tenha calma – disse o outro que tentava apaziguar.

Eles andaram mais um pouco e depois pararam de novo pra discutir mais.

Eu conheço ele. Não vale nada aquele cara. Mas comigo ele vai se danar todinho. Ele não sabe com quem está se metendo. Ele vai aprender a respeitar um macho. Porque eu sou macho.

Eu estava em uma das barracas, comprando uma geleia de abacaxi. Com a maquininha de pagamento na mão, o vendedor me perguntava se eu sabia do que eles estavam falando.

– O que o outro sujeito roubou dele? Você sabe?

– Não. Eu não entendo muito bem o que eles falam.

– Não foi um boné? – respondeu uma senhora ao meu lado – Eu achei que ele tinha dito que o colega dele tinha roubado o boné.

Ficamos os três ali tentando pinçar alguma outra informação, mas era em vão.

Dali a pouco o silêncio voltou a ser quebrado e a treta dos dois veio com mais força.

– Eu só digo é que ele vai se ver comigo.

– Deixa pra lá, rapaz.

– Isso é que não. Eu sou homem, sou macho mesmo. Eu sei onde ele dorme. É ali perto da marquise da Rua Pinto. Eu sei onde ele fica. Ele vai dormir e eu vou jogar ácido muriático na cabeça dele. Deixa ele só. Eu sei onde ele dorme.

– Pra quê isso, homem?

– Não. É assim. As coisas comigo são assim. Ele vai dormir ali, que eu sei onde é, e eu vou jogar gasolina nele. Na cabeça dele. Ele vai dormir. Ali na marquise, onde ele fica. Quero ver se ele vai se meter comigo de novo. Eu sou macho. Sou homem. Resolvo as coisas na hora.

De repente, a voz de um rapaz surgiu do nada e veio se intrometer na treta particular dos dois, o que surpreendeu todo mundo ali da feirinha. A frase foi firme, embora o que ele disse tenha boa carga pra vir a parecer piada.

– Ô meu, se tu é mesmo macho, assim como tá falando, bradando aos quatro ventos, por que então não encara ele acordado mesmo? Tu é macho, então encara o outro, meu. Não espera ele dormir pra atacar não. Chama pra porrada e resolve logo isso. É assim que macho resolve, pô! Tu vai jogar ácido no cara quando ele estiver dormindo? E isso lá é coisa de macho?

Num instante a feirinha parecia um balé ou algo ensaiado. Todas as pessoas se virando pro rapaz e depois de ouvir o que ele disse, se virando de novo pro homem, pra esperar a resposta dele. Uma pena que ninguém tenha filmado aquilo. (Ok, filmado é força de expressão e ainda entrega a minha idade. Mas, vá lá, não tinha ninguém pra gravar com o celular. Melhor assim.)

O fato é que o tal sujeito, o macho, nem respondeu. Catou as coisas que tinham caído dos braços durante a discussão e foi pra esquina apoiado no parceiro, que sorriu escondido pra não perder o amigo.

O rapaz veio na direção da feirinha e passou pela barraquinha onde eu estava. A senhora que comprava ao meu lado ficou só olhando o caminhar dele, se aproximando, e disse:

– Num instante a briga acabou, né? Você tem toda a razão, meu filho. Muito certo o que você disse pra ele. Se ele é macho, como diz, que encare o outro e não resolva tudo com uma tocaia, uma cilada. Isso não é coisa de homem, definitivamente não. Na verdade, vou te dizer o seguinte: Tu é que foi o macho, ali. Vai com Deus, meu querido. E tenha um bom dia.

Por um triz o povo da feirinha não aplaudiu o rapaz e a senhora que deu fé ao garoto.

Por um triz.

  

Tem vezes que eu me ponho atento pra fisgar alguma história do cotidiano, boa o suficiente pra virar crônica. Às vezes, entretanto, são as histórias que me fisgam. Principalmente as insólitas. A sensação é de que elas me esperam, me espreitam, pra se oferecerem sem qualquer modéstia.

 

 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Remédio

 

Assim que eu entrei na farmácia, vindo do dentista, já percebi um certo burburinho no ar. Parecia uma discussão. Contida, porém generalizada. As vozes se alternavam e o silêncio, quando surgia, causava uma certa pausa reflexiva, apta a eleger um argumento como definitivo, coisa que não existe em um diálogo como aquele.

A princípio, o senhor reclamava da demora em ser atendido. Toda hora ele olhava a sua senha e depois mirava o painel, balançando a cabeça em desaprovação. O amigo, tentando acalmá-lo, dizia que naquele horário era assim mesmo, as pessoas saindo do trabalho e tal, era normal.

– Não, isso acontece por que nós somos um povo doente. A quantidade de farmácias aqui no Centro nos diz exatamente isso: nós somos doentes. Olha em volta. Em cada esquina tem uma farmácia. Tem farmácia uma ao lado da outra. E são enormes. Algumas parecem verdadeiros supermercados.

– Falando nisso, você trouxe a receita médica? – disse o amigo, segurando uma sacola.

O outro nem respondeu. Apenas bateu com os dedos no bolso da camisa, indicando a ponta de uma folha de papel, e novamente reclamou de alguma coisa que eu não consegui perceber.

Duas chamadas depois, com cada um olhando o seu número e conferindo no visor do alto da farmácia, o homem voltou com sua lamúria.

– Agora temos essa alta na gasolina. Não faltava mais nada pra esse governo, que resolve aumentar tudo, e que se dane todos nós. Na feira, outro dia, a gente tinha de escolher o que levar e o que substituir, por causa dos preços. E nem falo da carne.

– Mas isso é por causa da guerra lá no Irã. Os navios não conseguem transportar o petróleo e aí, quando começa a faltar, vêm os aumentos. Não tem jeito, o petróleo faz tudo ficar mais caro. Tá assim no mundo todo.

– É, mas se fosse um governo de verdade ele saberia o que fazer pra não aumentar o custo de vida. Sendo pelo petróleo ou não, a meta deveria ser ajudar a população, custear e auxiliar os mais pobres, principalmente os aposentados, como nós.

– Eu discordo, meu amigo. Nem tudo é culpa do governo.

– Tudo é culpa do governo, sim. Um governo que não olha pra quem precisa, que não cuida da saúde do brasileiro.

A moça repetiu o número estampado no monitor e o nosso amigo levantou a mão, mostrando a sua senha. Minha vez, ele disse, pegando o amigo pelo pulso e levando com ele até o balcão.

– Boa tarde, senhor. Eu só preciso da receita e de um documento seu.

– Documento? Pra comprar agora precisa mostrar documento? – disse contrariado.

– Sim, por favor. No seu caso, sim.

Enquanto ela se dirigia para os fundos da farmácia, levando a receita e o documento do homem, uma nova saraivada de comentários rudes era proferida em modo de palanque. As pessoas em volta evitavam o menor contato visual com o senhor, para não ter que se envolver com aquela situação. Se ele reclamava de tudo, paciência. Eu é que não ia bater boca com gente assim, pensávamos todos nós em conjunto.

– O dólar só faz subir e o Real cada vez pior, desvalorizando. Veja você, agora vem a Copa do Mundo. Quantos milhões o governo não vai gastar pra mandar esse monte de gente pra lá? Tudo em dólar. E não é só jogador, não. É equipe técnica, médicos e preparadores físicos, hospedagem pra todo mundo, comida. Nossa senhora, ainda bem que tem eleição esse ano. Enfim, tudo isso junto e ainda tem os remédios, a saúde em geral. Eles não fazem nada de bom. Nada.

Quando o amigo ia responder, surge a atendente retornando ao balcão.

– Está aqui, senhor. O seu documento e os seus remédios. A receita vai ficar retida aqui com a gente, como manda o protocolo.

– Ah, sim. Obrigado. Onde fica o caixa?

– Não. Não tem que pagar nada, os seus remédios são de graça.

– Como assim? Não vou pagar?

– Não. O senhor não é paciente do SUS? Então, aqui é uma Farmácia Popular. Para o cidadão inscrito no SUS o governo paga os remédios porque é um programa federal, do governo federal, entende?

O amigo do rabugento, morrendo de vergonha, tratou logo de tirar o homem dali. Em poucos segundos já estava novamente de braço dado com ele, puxando o coitado pra fora da drogaria.

Me lembro bem que, naquela farmácia, pelos próximos cinco minutos, ninguém e nada se mexeu. O painel não chamou um novo número, nenhuma outra senha foi sacada, o caixa não recebeu um único pagamento, nem deu troco, e nenhum atendente entregou o remédio ao cliente.

É que todos estavam acompanhando a cena silenciosa dos dois homens ganhando a calçada e voltando a cultivar a sua ranzinzice, a sua intolerância em ano de eleição.

Curioso foi constatar que até a minha dor de dente passou!