quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Acidente

 

Foi uma grande surpresa quando a Fabiana falou que tinha um irmão. Não que eu a conhecesse assim tão bem, tampouco tivesse a sorte de ter estudado violão na mesma escola que ela. Na verdade, nós tínhamos amigos em comum e, na maioria das vezes, a gente se encontrava antes ou depois de alguma apresentação sua. Poucas vezes, também, acontecia de uma esticada depois dos shows acabar lá em casa. Aí era mesmo um evento. Ela tocava mais descontraída, falava dos autores e das composições e, às vezes, no meio de alguma conversa lembrava de outro trecho e saía tocando, como se estivesse mostrando uma foto no celular.

A revelação do irmão passou despercebida no início, mas logo ela disse o nome dele e contou alguma coisa que se tornou interessante pelo final da narrativa. Disse ela que o causo que contava tinha sido bem antes do acidente. Uma parte dos amigos ficou esperando a continuação da conversa. Outra tratou logo de pedir mais detalhes, sublinhando o que eu também estava a ponto de perguntar, ou seja, que a gente nem sabia da existência do tal irmão.

A violonista então pôs o instrumento no colo, abraçando-o em sentido vertical e, por vezes, apoiando a cabeça no seu bojo, enquanto falava.

– Sim, o Fep é uma figura. Um amigo que Deus e meus pais me deram. Ele é dois anos mais novo que eu e a gente está sempre junto. É verdade que nem sempre foi assim, pois ele é um sujeito de duas vidas. E essas podem ser divididas em antes e depois do acidente.

Alguém quis confirmar o nome do irmão e ela disse que era por causa do seu nome completo, cujas iniciais eram F, E e P, e isso virou uma sigla, FEP, apelido que os mais próximos lhe atribuíram num certo momento e que ficou desde então.

– Ele sempre foi um sujeito bonito – continuou ela. – Desde muito cedo chamava a atenção onde quer que estivesse. Também é muito inteligente, se vestia sempre bem e jogava vôlei e futebol na escola. Era um cara do tipo popular, que fazia muito sucesso com as meninas, as namoradas e tal. Mas o que essa aparência e esse jeito expansivo escondiam é que ele era uma pessoa ruim. E eu digo isso com muito pesar.

– Como assim, ruim? – alguém perguntou.

– Era um rapaz cheio de si, arrogante mesmo, que não respeitava ninguém, que tripudiava das namoradas, fazia bullying com as pessoas antes mesmo de existir esse nome, mal-educado, cheio de soberba e presunção. Enfim, um crápula, um inescrupuloso, que muitas pessoas evitavam o simples convívio, tratando de erguer um muro de segurança entre si e aquele arremedo de homem.

As pessoas se entreolharam com uma certa inquietação, mas logo ela retomou.

– Não pensem que estou exagerando nas minhas adjetivações. Falar do próprio irmão é dolorido. Mas não faço isso senão pra dar a vocês a ideia exata do perfil que quero demonstrar. Ele é meu irmão, mas nessa época a gente não tinha a menor alegria com a perspectiva do homem que ele se tornaria na idade madura. A gente da família tentava de tudo, mas era uma decepção atrás da outra, em cada gesto que se pretendia trazê-lo de volta à natureza humana. A nossa mãe colecionava desgosto com o comportamento do Fep, essa que é a verdade.

– Nossa, que situação triste. Mas e depois? O que aconteceu?

– Pois é, aconteceu o acidente. Simples assim. Voltando pra casa de madrugada, sozinho no carro, provavelmente alcoolizado, ele bateu em uma árvore, perto do Maracanã, e o carro caiu dentro do valão que tem ali, acho que é o Rio Maracanã mesmo, e ele ficou preso um tempão, até ser resgatado. O resultado foi que ele perdeu a sensibilidade corporal da cintura pra baixo, ficando paraplégico.

– E foi então que a vida dele mudou?

– Isso. Foi aí que eu ganhei um irmão de verdade. Ele não teve qualquer sequela neurológica. Nada, além das pernas, e de ter que ficar em uma cadeira de rodas pro resto da vida, nada explica a mudança de comportamento que ele teve dali pra frente. Foi uma surpresa pra todo mundo da família, os amigos, as namoradas, a vizinhança, os trabalhadores do nosso prédio, todos os que o conheceram faziam questão de mostrar a alegria pela nova pessoa que o Fep se transformou. Minha mãe foi quem esteve com ele o tempo todo no hospital. Depois de sair do coma ela já nos dizia que ele estava diferente, que se mostrava atencioso não só com ela, mas também com o pai e comigo. Pedia informações sobre os amigos e tudo, ou seja, uma postura bem diferente, como ela contava. Mais tarde, com as visitas e a volta pra casa é que a gente pôde constatar tudo o que a mãe já tinha alertado desde a internação.

A gente ali, ouvindo aquilo, tentava entender o alcance daquela transformação. E a Fabiana continuou, agora acariciando o braço do violão.

– Meu irmão hoje é um sujeito querido por todo mundo. Depois do acidente ele virou gente boa, do nada. Amigo, um cara sensível e disponível, fraternal e afetivo. Mudou completamente. Quase todos os seus detratores, adversários, pessoas que nutriam por ele verdadeira antipatia, passaram a ser seus amigos. As ex-namoradas, cujas experiências invariavelmente tinham sido marcadas por grande aversão e decepção, quando vinham conhecer o “novo Fep” saíam lá de casa comovidas e renovadas com a perspectiva de amizade e cheias de afeto por aquele rapaz. É uma outra pessoa, diziam.

Ela fez uma pausa e retomou.

– Mais tarde, quando ele começou a dirigir, uma vez parou no sinal e uma amiga, que ele não via há muito tempo, parou ao lado. Ele baixou o vidro e acenou. Quando ela o viu fechou a cara e se manteve imóvel, olhando pra frente até o sinal abrir. De noite, já em casa, ele recebeu uma ligação dela. Disse que comentando com uma amiga, foi informada do acidente e pediu desculpas por não ter falado com ele no trânsito. Também perguntou se podia visitá-lo qualquer dia, alertando que talvez precisasse de um tempo até juntar coragem para estar de novo frente a frente com ele, depois de tudo o que tinha passado no colégio. Enquanto ele nos contava isso tudo, balançou a cabeça e disse risonho: “Olha, mãe, ainda bem que eu não morri dentro daquele carro. Esse monte de gente me odiando assim, eu ia parar era nos braços do capeta, com toda a certeza.” Então eu e a mãe nos olhamos e começamos a rir junto com ele.

Quando empunhou novamente o violão, Fabiana parecia lembrar da fisionomia do irmão e, como num filme, talvez conseguisse rever tudo o que acabava de nos contar. Então, depois de um breve suspiro, a violonista anunciou que ia tocar uma peça de João Pernambuco.

– Som de Carrilhões. Que meu querido irmãozinho adora me ouvir tocar.

 

 


terça-feira, 14 de abril de 2026

A Batata

 

Na paradisíaca Ilha de Itaparica tinha um condomínio paradisíaco, na localidade de Vera Cruz. Na entrada deste, havia um campo de futebol. Só pra mostrar como o campo era paradisíaco, tal como a Ilha, não era permitido jogar calçado, nem de tênis e muito menos chuteiras. A gente usava meia ou então aquelas tornozeleiras elásticas, feitas de tecido emborrachado, do tipo que se usa pra jogar futevôlei.

Por pura escassez de jogadores, eu fui convidado a completar um time do campeonato que se ia iniciar e que tomaria o ano todo. Pelo menos o verão todo. Ou seja, em termos baianos, ia começar em maio e acabar em dezembro. O verão todo, claro!

Se tem uma coisa que baiano gosta é de assistir futebol. Se o jogo é bom, ele vê porque é bem jogado. Se é ruim, ele vê pra dar risada e fazer piada com os “peba” que singram, eventualmente, em um gramado paradisíaco, como já dito. E tinha era gente vendo aquelas peladas. Todo fim de semana. Não sei se era só gente do condomínio, mas parecia, pela quantidade, que até o povo da Ponta de Areia e lá de Caixa Pregos estavam em peso. Era gente em cima dos muros, nas árvores e em toda a volta do campo.

Eu tinha então 30 anos, quase a metade do que a maioria ali dizia ter. Talvez por essa razão eles me chamavam de Esse Menino. Uns diziam que era porque meu nome era muito complicado. Alguns até me apelidaram de Antônio. Desde que eles passassem a bola pra mim, podiam me chamar de qualquer coisa, até de Daniela Mercury, a menina de roupa metálica que cantava no Trio Paes Mendonça e ninguém ainda conhecia direito.

Rolou a bola. Tudo organizadinho, camisas dos times, juiz e bandeirinhas, mesa pra anotar os cartões e as faltas e até gandulas. Estes saíam desembestados atrás da pelota e travavam uma pequena batalha com os meninos menores, que corriam muito mais que eles.

A uma certa altura, um dos jogadores do time adversário fez um gesto pra mim, com as mãos, apontando pro lado do campo. Eu não entendi nada, mas fiquei na minha, atento ao jogo. Ele repetiu o gesto outra vez e eu apontei pro ouvido, pra dizer que não tinha decifrado a mensagem ou escutado.

Só depois de alguns minutos, quando teve um escanteio na nossa área, foi que ele chegou perto de mim e disse:

– Tem batata ali, tá vendo? – depois correu pra lateral meio rindo de mim.

Mas que porra de batata esse guri tá falando? Fiquei pensando em alguma coisa que fizesse sentido, mas nada me vinha à mente. Eu olhava pros lados, tentando ver alguma batata, ou seria batata-frita, ou seria o apelido de alguém...

– Que batata? – perguntei uma hora que a bola saiu.

Aí foi a vez dele fazer sinal, mostrando que não entendeu o que eu perguntei. Pôs o dedo apontando pro ouvido e tudo. Eu já achei que ele estava era me imitando e que o causo era só uma idiotice dele ou algo pra me tirar a atenção do jogo. Mas eu não ia cair nessa. Não mesmo.

Outra vez ele fez o sinal, disse alguma coisa, apontou pra lateral e riu. Eu balancei a cabeça e até perguntei pra um jogador do meu time:

– Que bosta esse cara tá falando de batata?

– O quê – respondeu o meu zagueiro.

– Aquele baixinho ali. Tá falando que tem alguma batata ali do lado de fora. Você sabe o que é?

– Barata? Cara, aqui não tem barata nenhuma. Pode ficar tranquilo.

Ai, caceta. Pior do que um sujeito não entender, são dois sujeitos não entenderem. Melhor deixar essa bodega pra lá. Esse sujeito deve ser um doido varrido, falando em batata no meio do jogo.

Gol do meu time. Cruzamento na área e o goleiro aceitou. Maravilha. Talvez eu tenha ouvido fogos. Não posso jurar. Mas, sim, acho que teve.

Depois do gol o jogo mudou. Começou a rolar umas pancadas dignas de um Grenal. Era sola, solavanco, sopapo e safanão, tudo na mesma jogada, que o juiz mal conseguia manter a calma pra apartar os ânimos. Os cartões rolaram soltos de parte a parte. Eu já estava me preparando pra levar bordoada assim que a bola estivesse comigo, e tratava de passar rápido pra outro jogador.

Então veio uma falta na entrada da área. Nosso time se juntou pra combinar a batida e um dos atacantes deu a ideia de uma jogada que podia surpreender a defesa adversária.

– Você toca pro lado da barreira – disse apontando o centroavante – Aí, Esse Menino (eu) finge que vai cruzar e chuta direto pro gol. O geleiro vai sair pra cortar o cruzamento e a bola vai no gol. Vamooos.

Todo o time se posicionou pra execução da jogada combinada. Eu ali, nervoso, não podia errar o chute, nem a direção. Mesmo que o goleiro pegasse, tudo bem, eu só não poderia isolar ou dar um balão mequetrefe pra fora do condomínio. Pelo menos na direção do gol tinha que ser.

A bola veio e eu chutei. No mesmo instante em que ela tocou a trave, com o goleiro voando de lado, plasticamente, um caminhão passava por cima de mim. Dois volantes de contenção, querendo travar o meu chute, acabaram por me travar. Só a mim. Eu dei umas três piruetas pra trás, quatro duplos carpados pra frente, dois grupados pro alto e caí de costas, estatelado, olhando o azul do céu, sem perceber nem a sua cor, nem o brilho do sol, nem se a vida ainda continuava. Na minha cabeça a questão era, simplesmente, chamar uma ambulância, fazer uma transfusão de sangue, e depois, com um balão de oxigênio na boca, aplicar um desfiblilador no peito.

Tudo doía. Até as minhas pestanas estavam doloridas. Foram dois ataques, um por cada lado, que eu mal pude entender como vieram. Quase todos os jogadores do meu time pediram expulsão sumária e queriam brigar com os zagueiros, com o juiz e os bandeirinhas. A torcida quase invadiu o campo e acho que foi nessa hora que eu perdi as minhas duas tornozeleiras, novinhas, que eu estava estreando.

Quando os ânimos se acalmaram e eu pude voltar à vida, a estratégia do time era então segurar o final do jogo e garantir a vitória, o que já estava de bom tamanho. Eu fiquei um pouco mais recuado, até pra não passar outra refrega daquela, e tentava fazer as pernas pararem de tremer.

Dali a mais um pouco a bola ganhou o matagal ao lado e lá foram os gandulas, os meninos e os pais de alguns deles, novamente, atrás do caroço. Demorou um pouco e nesse momento eis que vem o tal baixinho pra perto de mim perguntando se eu tinha me machucado muito no lance anterior.

– Cara, eu não vi nada. Só percebi que estava no chão e nem vi direito onde a bola foi.

– Nesse condomínio o jogo é sempre duro assim mesmo. Mas você sabe porquê, né?

Eu só lembrava da frase dele falando da batata. Mas não queria retomar aquilo. Então apenas disse que era muita violência, que alguém podia se machucar seriamente e tal.

– Foi por isso que eu te avisei que o jogo era duro. Eu te falei ali no jogo: “Tem uma taça ali, valendo.” E quando tem taça, meu rei, a galera vai com tudo. Se duvidar entra de sola até na mãe.

– Ah, então era da taça que você estava falando?

– Claro. Eu estava te avisando, porque vi que você é novato aqui.

­– Ah, tá. Obrigado então pelo aviso.

Eu nem falei nada de ter entendido “tem batata ali, tá vendo?”.

E, também, foi somente nessa hora que eu percebi, ali fora, ao lado da mesa, a taça do campeonato.

Fiquei rindo sozinho, que nem um tonto.

E o juiz encerrou o jogo!

A nós, os vencedores, as batatas.

Ou melhor, as taças.