Foi uma grande
surpresa quando a Fabiana falou que tinha um irmão. Não que eu a conhecesse
assim tão bem, tampouco tivesse a sorte de ter estudado violão na mesma escola
que ela. Na verdade, nós tínhamos amigos em comum e, na maioria das vezes, a
gente se encontrava antes ou depois de alguma apresentação sua. Poucas vezes,
também, acontecia de uma esticada depois dos shows acabar lá em casa. Aí era
mesmo um evento. Ela tocava mais descontraída, falava dos autores e das
composições e, às vezes, no meio de alguma conversa lembrava de outro trecho e
saía tocando, como se estivesse mostrando uma foto no celular.
A revelação do
irmão passou despercebida no início, mas logo ela disse o nome dele e contou
alguma coisa que se tornou interessante pelo final da narrativa. Disse ela que
o causo que contava tinha sido bem antes do acidente. Uma parte dos amigos
ficou esperando a continuação da conversa. Outra tratou logo de pedir mais
detalhes, sublinhando o que eu também estava a ponto de perguntar, ou seja, que
a gente nem sabia da existência do tal irmão.
A violonista
então pôs o instrumento no colo, abraçando-o em sentido vertical e, por vezes,
apoiando a cabeça no seu bojo, enquanto falava.
– Sim, o Fep é
uma figura. Um amigo que Deus e meus pais me deram. Ele é dois anos mais novo
que eu e a gente está sempre junto. É verdade que nem sempre foi assim, pois
ele é um sujeito de duas vidas. E essas podem ser divididas em antes e depois
do acidente.
Alguém quis
confirmar o nome do irmão e ela disse que era por causa do seu nome completo,
cujas iniciais eram F, E e P, e isso virou uma sigla, FEP, apelido que os mais
próximos lhe atribuíram num certo momento e que ficou desde então.
– Ele sempre
foi um sujeito bonito – continuou ela. – Desde muito cedo chamava a atenção
onde quer que estivesse. Também é muito inteligente, se vestia sempre bem e
jogava vôlei e futebol na escola. Era um cara do tipo popular, que fazia muito
sucesso com as meninas, as namoradas e tal. Mas o que essa aparência e esse
jeito expansivo escondiam é que ele era uma pessoa ruim. E eu digo isso com
muito pesar.
– Como assim,
ruim? – alguém perguntou.
– Era um rapaz
cheio de si, arrogante mesmo, que não respeitava ninguém, que tripudiava das
namoradas, fazia bullying com as pessoas antes mesmo de existir esse
nome, mal-educado, cheio de soberba e presunção. Enfim, um crápula, um
inescrupuloso, que muitas pessoas evitavam o simples convívio, tratando de
erguer um muro de segurança entre si e aquele arremedo de homem.
As pessoas se
entreolharam com uma certa inquietação, mas logo ela retomou.
– Não pensem
que estou exagerando nas minhas adjetivações. Falar do próprio irmão é
dolorido. Mas não faço isso senão pra dar a vocês a ideia exata do perfil que
quero demonstrar. Ele é meu irmão, mas nessa época a gente não tinha a menor
alegria com a perspectiva do homem que ele se tornaria na idade madura. A gente
da família tentava de tudo, mas era uma decepção atrás da outra, em cada gesto
que se pretendia trazê-lo de volta à natureza humana. A nossa mãe colecionava
desgosto com o comportamento do Fep, essa que é a verdade.
– Nossa, que
situação triste. Mas e depois? O que aconteceu?
– Pois é, aconteceu o
acidente. Simples assim. Voltando pra casa de madrugada, sozinho no carro, provavelmente
alcoolizado, ele bateu em uma árvore, perto do Maracanã, e o carro caiu dentro
do valão que tem ali, acho que é o Rio Maracanã mesmo, e ele ficou preso um
tempão, até ser resgatado. O resultado foi que ele perdeu a sensibilidade corporal
da cintura pra baixo, ficando paraplégico.
– E foi então
que a vida dele mudou?
– Isso. Foi aí
que eu ganhei um irmão de verdade. Ele não teve qualquer sequela neurológica.
Nada, além das pernas, e de ter que ficar em uma cadeira de rodas pro resto da
vida, nada explica a mudança de comportamento que ele teve dali pra frente. Foi
uma surpresa pra todo mundo da família, os amigos, as namoradas, a vizinhança,
os trabalhadores do nosso prédio, todos os que o conheceram faziam questão de
mostrar a alegria pela nova pessoa que o Fep se transformou. Minha mãe foi quem
esteve com ele o tempo todo no hospital. Depois de sair do coma ela já nos
dizia que ele estava diferente, que se mostrava atencioso não só com ela, mas
também com o pai e comigo. Pedia informações sobre os amigos e tudo, ou seja, uma
postura bem diferente, como ela contava. Mais tarde, com as visitas e a volta pra
casa é que a gente pôde constatar tudo o que a mãe já tinha alertado desde a
internação.
A gente ali,
ouvindo aquilo, tentava entender o alcance daquela transformação. E a Fabiana
continuou, agora acariciando o braço do violão.
– Meu irmão
hoje é um sujeito querido por todo mundo. Depois do acidente ele virou gente
boa, do nada. Amigo, um cara sensível e disponível, fraternal e afetivo. Mudou
completamente. Quase todos os seus detratores, adversários, pessoas que nutriam
por ele verdadeira antipatia, passaram a ser seus amigos. As ex-namoradas,
cujas experiências invariavelmente tinham sido marcadas por grande aversão e decepção,
quando vinham conhecer o “novo Fep” saíam lá de casa comovidas e renovadas com
a perspectiva de amizade e cheias de afeto por aquele rapaz. É uma outra
pessoa, diziam.
Ela fez uma
pausa e retomou.
– Mais tarde,
quando ele começou a dirigir, uma vez parou no sinal e uma amiga, que ele não
via há muito tempo, parou ao lado. Ele baixou o vidro e acenou. Quando ela o
viu fechou a cara e se manteve imóvel, olhando pra frente até o sinal abrir. De
noite, já em casa, ele recebeu uma ligação dela. Disse que comentando com uma
amiga, foi informada do acidente e pediu desculpas por não ter falado com ele
no trânsito. Também perguntou se podia visitá-lo qualquer dia, alertando que talvez
precisasse de um tempo até juntar coragem para estar de novo frente a frente
com ele, depois de tudo o que tinha passado no colégio. Enquanto ele nos
contava isso tudo, balançou a cabeça e disse risonho: “Olha, mãe, ainda bem que
eu não morri dentro daquele carro. Esse monte de gente me odiando assim, eu ia
parar era nos braços do capeta, com toda a certeza.” Então eu e a mãe nos
olhamos e começamos a rir junto com ele.
Quando
empunhou novamente o violão, Fabiana parecia lembrar da fisionomia do irmão e,
como num filme, talvez conseguisse rever tudo o que acabava de nos contar. Então, depois
de um breve suspiro, a violonista anunciou que ia tocar uma peça de João
Pernambuco.
– Som de
Carrilhões. Que meu querido irmãozinho adora me ouvir tocar.
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