No meio do
calçadão, no entorno da feirinha de produtores familiares, dois homens em
situação de rua captavam a atenção de todos pra uma briga que prometia, pra logo,
ser levada às vias de fato. Ambos estavam atravessando a feira em direção à
esquina e cada um levava vários objetos amontoados, sendo que os cobertores
eram os mais visíveis.
Eu só consegui
entender o que eles falavam quando passaram por mim, no limiar da feirinha.
– Eu falei pra
ele que não mexesse nas minhas coisas. Ele sabia que aquilo era meu.
– Mas você
viu ele mexer?
– Não, mas
hoje não estava lá. Então só pode ser aquele um.
Como esse
diálogo era feito em um tom elevado, parecendo uma briga, as pessoas paravam e
ficavam olhando, medindo pra ver quem tinha razão naquela treta do meio da rua.
– Eu só digo é
isso: eu sou homem, não aceito isso não. Sou macho e comigo tem que ser olho no
olho, resolver como homem. Eu sei que ele está fugindo de mim. Mas eu sou muito
homem e vou pegar ele. Você pode esperar.
– Eu sei. Você
tem razão. Mas tenha calma – disse o outro que tentava apaziguar.
Eles andaram
mais um pouco e depois pararam de novo pra discutir mais.
– Eu
conheço ele. Não vale nada aquele cara. Mas comigo ele vai se danar
todinho. Ele não sabe com quem está se metendo. Ele vai aprender a respeitar um
macho. Porque eu sou macho.
Eu estava em
uma das barracas, comprando uma geleia de abacaxi. Com a maquininha de
pagamento na mão, o vendedor me perguntava se eu sabia do que eles estavam
falando.
– O que o
outro sujeito roubou dele? Você sabe?
– Não. Eu não
entendo muito bem o que eles falam.
– Não foi um
boné? – respondeu uma senhora ao meu lado – Eu achei que ele tinha dito que o
colega dele tinha roubado o boné.
Ficamos os
três ali tentando pinçar alguma outra informação, mas era em vão.
Dali a pouco o
silêncio voltou a ser quebrado e a treta dos dois veio com mais força.
– Eu só digo é
que ele vai se ver comigo.
– Deixa pra
lá, rapaz.
– Isso é que
não. Eu sou homem, sou macho mesmo. Eu sei onde ele dorme. É ali perto da
marquise da Rua Pinto. Eu sei onde ele fica. Ele vai dormir e eu vou jogar
ácido muriático na cabeça dele. Deixa ele só. Eu sei onde ele dorme.
– Pra quê
isso, homem?
– Não. É
assim. As coisas comigo são assim. Ele vai dormir ali, que eu sei onde é, e eu
vou jogar gasolina nele. Na cabeça dele. Ele vai dormir. Ali na marquise, onde
ele fica. Quero ver se ele vai se meter comigo de novo. Eu sou macho. Sou
homem. Resolvo as coisas na hora.
De repente, a
voz de um rapaz surgiu do nada e veio se intrometer na treta particular dos dois,
o que surpreendeu todo mundo ali da feirinha. A frase foi firme, embora o que
ele disse tenha boa carga pra vir a parecer piada.
– Ô meu, se tu
é mesmo macho, assim como tá falando, bradando aos quatro ventos, por que então
não encara ele acordado mesmo? Tu é macho, então encara o outro, meu.
Não espera ele dormir pra atacar não. Chama pra porrada e resolve logo isso. É
assim que macho resolve, pô! Tu vai jogar ácido no cara quando ele
estiver dormindo? E isso lá é coisa de macho?
Num instante a
feirinha parecia um balé ou algo ensaiado. Todas as pessoas se virando pro
rapaz e depois de ouvir o que ele disse, se virando de novo pro homem, pra
esperar a resposta dele. Uma pena que ninguém tenha filmado aquilo. (Ok, filmado
é força de expressão e ainda entrega a minha idade. Mas, vá lá, não tinha
ninguém pra gravar com o celular. Melhor assim.)
O fato é que o
tal sujeito, o macho, nem respondeu. Catou as coisas que tinham caído dos
braços durante a discussão e foi pra esquina apoiado no parceiro, que sorriu
escondido pra não perder o amigo.
O rapaz veio
na direção da feirinha e passou pela barraquinha onde eu estava. A senhora que
comprava ao meu lado ficou só olhando o caminhar dele, se aproximando, e disse:
– Num instante
a briga acabou, né? Você tem toda a razão, meu filho. Muito certo o que você
disse pra ele. Se ele é macho, como diz, que encare o outro e não resolva tudo
com uma tocaia, uma cilada. Isso não é coisa de homem, definitivamente não. Na
verdade, vou te dizer o seguinte: Tu é que foi o macho, ali. Vai com Deus, meu
querido. E tenha um bom dia.
Por um triz o
povo da feirinha não aplaudiu o rapaz e a senhora que deu fé ao garoto.
Por um triz.
Tem vezes que
eu me ponho atento pra fisgar alguma história do cotidiano, boa o suficiente
pra virar crônica. Às vezes, entretanto, são as histórias que me fisgam.
Principalmente as insólitas. A sensação é de que elas me esperam, me espreitam,
pra se oferecerem sem qualquer modéstia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário