Muitos
contadores de histórias têm iniciado as suas narrativas sublinhando que, sim,
houve um tempo em que não havia computador, o que, a cada dia, parece mais
inacreditável.
No tempo dessa
minha história não só não tinha computador, como também não existia CD,
celular, internet, Deezer e afins. Dito isto, vamos à crônica.
Eu tinha
acabado de comprar um Fiat 147 amarelo com apenas dois anos de uso. Estava
novinho o carro, que ganhou o apelido de Duca. Eu já tinha me conformado de
que, com o financiamento que eu precisei fazer, eu ia ficar sem grana pra botar
um som legal nele. Mas, tranquilo, ia ficar só no radinho básico mesmo, até que
as coisas melhorassem.
Para minha
surpresa, meu pai um dia me chamou pra ir numa loja que ele conhecia, só pra
ver os preços dos toca-fitas, que era o som que eu almejava desde sempre.
Chegando lá o atendente trouxe um monte de modelos de toca-fitas. Com
amplificador acoplado, com sistema reverso, que virava o lado da fita
automaticamente e outros tantos com botões de variados formatos, luzes e
potências imagináveis.
Num certo
ponto meu pai revelou que ia comprar o aparelho de presente pra mim e, ali
mesmo, já combinou a instalação, que antigamente consistia em um trilho,
chamado de bandeja, que ficava logo abaixo do painel. Neste trilho era onde o
toca-fitas encaixava, tipo uma gaveta.
Enquanto o
rapaz passava uma quantidade infinita de fios coloridos, fitas isolantes e
apertava os parafusos de fixação, no box de instalação estava tocando músicas
do James Taylor. Uma atrás da outra. Algumas eu conhecia e meu pai sabia que eu
gostava muito – e ainda gosto – das composições do músico.
Pra ir
testando os alto-falantes, conforme iam sendo ligados os fios, o instalador foi
lá no console da bancada buscar justamente a fita do James Taylor. Foi uma
coisa linda aquilo. Um som bacana daqueles, no meu carro, e ainda por cima
tocando James Taylor? O que mais eu podia querer da vida?
A cada caixa
de som ligada ele mexia nos controles e isolava o som pra ter certeza de que
estava funcionando corretamente. E foi assim com cada uma das quatro etapas,
quando ele ligou as caixas das duas portas e depois outras duas, que ficavam na
tela que cobria o porta-malas. Eu só olhava pro meu pai e ia agradecendo o
presente maravilhoso que estava ganhando. Ele, por sua vez, me via cantando, acompanhando
a música e só ria.
Quando
terminou toda a instalação o eletricista veio mostrar o trabalho feito e ainda
deu umas dicas de funcionamento do toca-fitas. Primeiro mostrou os botões, os
controles, as teclas frontais e inclusive alertou para o fato de que não
precisava virar o lado da fita, pois que contava com um mecanismo automático.
Enquanto ele
recolhia todo o material e as ferramentas, a gente foi no caixa fazer o
pagamento. Meu pai deu uma parte em dinheiro e outras, acho que duas, em cheques
pré-datados que, aliás, é uma outra coisa que existiu lá atrás, no tempo do
toca-fitas.
A gente saiu
da loja com um sonzaço no carro. Fomos pela rua que margeia a linha do trem,
passamos pela Estação de Ramos, depois Bonsucesso e íamos seguindo pelo caminho
até a nossa casa.
Como eu não
tinha levado nenhuma fita cassete, até porque não tinha ideia dos planos do meu
pai naquela manhã, eu disse que chegando em casa ia pegar umas fitas pra ver se
tinha aprendido tudo o que o técnico da loja tinha explicado, manejar os botões
do aparelho etc.
Foi então que
meu pai tirou do bolso uma fita cassete e me deu, pedindo pra botar pra tocar.
Assim que começou os primeiros acordes da gravação eu olhei pra ele sem
acreditar. Era a fita do James Taylor que estava tocando na loja.
– O garoto lá
não quis vender essa fita aí de jeito nenhum. Mas eu acabei convencendo o seu
coraçãozinho de filho e ele topou. Agora sim, o serviço está completo.
Eu não sabia
que era possível dirigir com os olhos cheios d’água. Mas nessa hora o James
Taylor me ajudou um bocado. Meu pai, todo orgulhoso, botou o cotovelo na janela
do carro e foi sorrindo até chegar em casa, mal cabendo em si.
Muitos anos
depois desse dia memorável, eu tinha chegado ao Rio e meu filho Deco foi me
buscar no aeroporto. Disse que tinha uma surpresa. Assim que descemos até o
estacionamento ele mostrou o seu carro novo. Não era só um carro. Era um
automóvel. Com todas as letras. De uma marca sul-coreana recém chegada ao país,
o painel mais parecia o de um Boeing, todo aceso de azul e verde, cheio de
botões e tinha ainda uma tela que mostrava o nome da música que estava tocando,
além de uma infinidade de opções que eu mal pude entender, assim de pronto.
Mas o melhor
estava por vir. Quando começamos a andar, saindo do estacionamento e pegando a
estrada pra casa, ele disse “escuta só”. Aí clicou num botão qualquer e logo
começou a tocar James Taylor.
O bom e velho
James Taylor.
Eu mal cabia
em mim.
Apoiei o
cotovelo na janela e fui cantando todo o trajeto.
Assim como fez
meu pai, meu filho só ria.