sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Prêmio

 

Feliz ganhador de um bolão premiado, meu amigo me mandou o canhoto da cota para que eu fosse em uma agência da Caixa receber a minha parte. Eu estava contente por ter ganho alguma vez na vida, coisa que eu achava que era só uma balela, pois que ninguém ganhava nesses concursos de apostas. Mas, ok, eu estava feliz mesmo sabendo que a minha cota era de impressionantes 112 Reais. Isso mesmo, R$ 112,00.

Já na entrada da agência, a moça me perguntou em qual setor eu ia, pra saber o tipo de senha de atendimento eu deveria receber. Quando eu falei do prêmio ela me disse um sonoro “ô, meu querido, parabéns então” e me deu o tíquete numerado.

Sentei na salinha de espera e nem demorou muito pra eu ser chamado. O atendente ouviu a minha solicitação e se apressou em me orientar.

– É um prêmio de aposta?

– Sim, de um bolão da Copa?

– Mega da Copa?

– Não exatamente. É uma aposta referente à primeira rodada da Copa do Mundo. A gente preenche com as seleções vencedoras dos jogos e pronto.

– E é uma aposta feita pela própria Caixa?

– Sim, este aqui é o meu canhoto referente à fração do prêmio.

O rapaz coçou a cabeça e rolou a sua cadeira até a mesa ao lado, levando o meu bilhete e mostrando à sua colega de trabalho. Ela digitou alguma coisa, conferiu a numeração do canhoto, digitou de novo, se afastou da mesa pra me olhar por cima do ombro do primeiro atendente e depois cochichou alguma coisa com ele.

– Olha, meu querido, – disse o rapaz voltando – esse prêmio só pode ser resgatado nas Lotéricas mesmo. Eles lá sabem melhor do que nós sobre os novos certames, as novas apostas que a Caixa cria ao longo do ano. Talvez seja melhor ir conferir se eles te pagam lá.

– Mas na Lotérica disseram que era só na Agência da Caixa.

– Quem disse isso?

– O meu amigo, o Flávio, que foi quem fez o jogo, o bolão.

A moça ao lado, que a tudo ouvia, levantou a mão e fez um sinal ao colega, mostrando dois dedos da mão. Ele então sorriu e voltou-se pra mim novamente.

– Olha só, você tem que ir aqui no segundo andar da agência. Lá é que tem os gerentes que podem resolver isso. A gente, do atendimento comum, não tem acesso à página da premiação e não temos como continuar com o processo, tá meu querido? Aqui ao lado tem uma escada e é logo no primeiro piso.

Bem, nem era algo tão complicado assim, e eu subi as escadas. No segundo andar, tudo vazio. Um monte de cadeiras numa ampla sala de espera, mas não havia ninguém sentado. Das quase dez mesas em redor, apenas duas estavam ocupadas. E foi pra uma delas que eu me dirigi.

– Bom dia. Eu estou com um bilhete de um bolão premiado e ali embaixo me mandaram vir aqui.

Os dois se entreolharam e me convidaram a sentar.

– De quanto é o prêmio?

– Ah, é 112 Reais.

– Mil?

– Não, 112 Reais, pouco mais que uma nota de 100. Na verdade uma de cem, uma de dez e uma de dois. Imagina, se fosse 112 mil eu estava rodopiando aqui com uma Pepsi na mão, distribuindo pra todo mundo.

Eles riram meio sem graça e eu avaliei que eles deviam preferir Coca-Cola. Mas, enfim, deixei pra lá. Contanto que eles pagassem, podiam beber até Sukita quente que pra mim estava tudo certo.

A moça me pediu o bilhete e eu entreguei. Ela olhou com atenção, depois conferiu o verso, esticou o braço pra ver em contraluz e depois chamou o colega pra ver também.

– Você conhece esse sorteio? É uma mega da Copa, eu acho – perguntou a moça ao rapaz.

– Não. Nunca vi esse tipo. Não é mega isso. É da primeira fase da Copa.

– Isso mesmo – eu disse animado pelo fato de o rapaz ter conhecido a aposta como tal.

– Mas, assim, preste atenção meu querido, a gente não tem autorização para esse pagamento. Tem uma colega nossa que sabe a senha e só ela tem acesso ao sistema de premiação. Então é ela que pode entrar no sistema e te pagar. O fato é que ela agora está no almoço. Então, depois das 14 horas, você pode voltar e falar diretamente com ela. Pode ser?

Eu disse que sim, meio automático. Claro que eu poderia voltar mais tarde. Mas o que me incomodava era que todo mundo ali tinha me chamado de querido, mas ninguém me pagou. Desde a moça da senha, os atendentes e depois os gerentes do segundo andar, todos me chamaram de querido. Legal isso, enfim, mas pagar que é bom, nada.

– Ok, então eu volto às duas da tarde. Obrigado.

Na saída, o guarda deu um enorme sorriso pra mim e fez um cumprimento com a mão na ponta do chapéu. Certamente ele devia achar que eu tinha recebido uma bolada de prêmio e, por algum motivo, resolveu me agradar. A moça da senha, por sua vez, recitou um longo “Vai com Deus e boa tarde”.

Somente duas horas depois, quando eu retornei, como combinado, e pedi outra senha, foi que eles fizeram cara de quem não estava entendendo nada. Provavelmente pensaram: ou esse sortudo ganhou de novo ou tem algum problema de memória, pois acabou de sair daqui e já está de volta? Eu, da minha parte, de cara fechada, passei direto pela porta giratória e fui atrás da famigerada mulher, que tinha a famigerada senha, pra pagar o famigerado prêmio.

– Ela já chegou do almoço. Só um minutinho – me disse a atendente do primeiro andar.

Um salto alto se anunciou sonoramente antes mesmo da pessoa que o calçava surgir no limite do corredor. Assim que ela me viu, me chamou à sua mesa.

Depois de mostrar novamente o bilhete, de explicar o teor da aposta, a Copa, o valor do prêmio, o meu time, meu peso e minha altura, e que eu gostava de Pepsi, ela começou a balançar a cabeça, digitando freneticamente atrás da tela do computador.

Olha, infelizmente eu não consigo fazer o pagamento. Na minha tela aqui, quando eu abro o pagamento e ponho o seu CPF o sistema não aceita. Dá uma mensagem que só é possível pagar para o senhor Flávio.

– Aliás, quem é esse Flávio?

– É o meu amigo que fez o jogo, o bolão, direto no site da Caixa.

– Ah, meu querido, então combina com ele e vão receber os dois juntos. Realmente, eu nunca tinha visto isso acontecer. Normalmente a gente paga com esse tíquete da cota, que é a fração do bolão. Mas essa aposta, da Copa, realmente é uma loteria nova e eu te peço mil desculpas pelo contratempo, meu querido. Sei que você esteve aqui mais cedo e teve que voltar agora e ainda por cima nem conseguiu receber o seu dinheiro. Realmente é muito chato isso.

– Mas pelo menos todo mundo me chamou de querido!

– Como? O quê?

– Ah, não. Nada. Eu só resmunguei uma coisa sem importância aqui comigo. Então obrigado. Vou indo.

 

 

Uma semana depois eu soube que o Flávio também não conseguiu receber o dinheiro na Caixa. A solução foi a gente fazer outro jogo e usar aquele “crédito” em uma outra aposta.

Fizemos outro jogo.

Juntos.

E perdemos.

Fim.

Mas valeu a crônica.

Queridos!

 

 


quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Toca-Fitas

 

Muitos contadores de histórias têm iniciado as suas narrativas sublinhando que, sim, houve um tempo em que não havia computador, o que, a cada dia, parece mais inacreditável.

No tempo dessa minha história não só não tinha computador, como também não existia CD, celular, internet, Deezer e afins. Dito isto, vamos à crônica.

Eu tinha acabado de comprar um Fiat 147 amarelo com apenas dois anos de uso. Estava novinho o carro, que ganhou o apelido de Duca. Eu já tinha me conformado de que, com o financiamento que eu precisei fazer, eu ia ficar sem grana pra botar um som legal nele. Mas, tranquilo, ia ficar só no radinho básico mesmo, até que as coisas melhorassem.

Para minha surpresa, meu pai um dia me chamou pra ir numa loja que ele conhecia, só pra ver os preços dos toca-fitas, que era o som que eu almejava desde sempre. Chegando lá o atendente trouxe um monte de modelos de toca-fitas. Com amplificador acoplado, com sistema reverso, que virava o lado da fita automaticamente e outros tantos com botões de variados formatos, luzes e potências imagináveis.

Num certo ponto meu pai revelou que ia comprar o aparelho de presente pra mim e, ali mesmo, já combinou a instalação, que antigamente consistia em um trilho, chamado de bandeja, que ficava logo abaixo do painel. Neste trilho era onde o toca-fitas encaixava, tipo uma gaveta.

Enquanto o rapaz passava uma quantidade infinita de fios coloridos, fitas isolantes e apertava os parafusos de fixação, no box de instalação estava tocando músicas do James Taylor. Uma atrás da outra. Algumas eu conhecia e meu pai sabia que eu gostava muito – e ainda gosto – das composições do músico.

Pra ir testando os alto-falantes, conforme iam sendo ligados os fios, o instalador foi lá no console da bancada buscar justamente a fita do James Taylor. Foi uma coisa linda aquilo. Um som bacana daqueles, no meu carro, e ainda por cima tocando James Taylor? O que mais eu podia querer da vida?

A cada caixa de som ligada ele mexia nos controles e isolava o som pra ter certeza de que estava funcionando corretamente. E foi assim com cada uma das quatro etapas, quando ele ligou as caixas das duas portas e depois outras duas, que ficavam na tela que cobria o porta-malas. Eu só olhava pro meu pai e ia agradecendo o presente maravilhoso que estava ganhando. Ele, por sua vez, me via cantando, acompanhando a música e só ria.

Quando terminou toda a instalação o eletricista veio mostrar o trabalho feito e ainda deu umas dicas de funcionamento do toca-fitas. Primeiro mostrou os botões, os controles, as teclas frontais e inclusive alertou para o fato de que não precisava virar o lado da fita, pois que contava com um mecanismo automático.

Enquanto ele recolhia todo o material e as ferramentas, a gente foi no caixa fazer o pagamento. Meu pai deu uma parte em dinheiro e outras, acho que duas, em cheques pré-datados que, aliás, é uma outra coisa que existiu lá atrás, no tempo do toca-fitas.

A gente saiu da loja com um sonzaço no carro. Fomos pela rua que margeia a linha do trem, passamos pela Estação de Ramos, depois Bonsucesso e íamos seguindo pelo caminho até a nossa casa.

Como eu não tinha levado nenhuma fita cassete, até porque não tinha ideia dos planos do meu pai naquela manhã, eu disse que chegando em casa ia pegar umas fitas pra ver se tinha aprendido tudo o que o técnico da loja tinha explicado, manejar os botões do aparelho etc.

Foi então que meu pai tirou do bolso uma fita cassete e me deu, pedindo pra botar pra tocar. Assim que começou os primeiros acordes da gravação eu olhei pra ele sem acreditar. Era a fita do James Taylor que estava tocando na loja.

– O garoto lá não quis vender essa fita aí de jeito nenhum. Mas eu acabei convencendo o seu coraçãozinho de filho e ele topou. Agora sim, o serviço está completo.

Eu não sabia que era possível dirigir com os olhos cheios d’água. Mas nessa hora o James Taylor me ajudou um bocado. Meu pai, todo orgulhoso, botou o cotovelo na janela do carro e foi sorrindo até chegar em casa, mal cabendo em si.

 

Muitos anos depois desse dia memorável, eu tinha chegado ao Rio e meu filho Deco foi me buscar no aeroporto. Disse que tinha uma surpresa. Assim que descemos até o estacionamento ele mostrou o seu carro novo. Não era só um carro. Era um automóvel. Com todas as letras. De uma marca sul-coreana recém chegada ao país, o painel mais parecia o de um Boeing, todo aceso de azul e verde, cheio de botões e tinha ainda uma tela que mostrava o nome da música que estava tocando, além de uma infinidade de opções que eu mal pude entender, assim de pronto.

Mas o melhor estava por vir. Quando começamos a andar, saindo do estacionamento e pegando a estrada pra casa, ele disse “escuta só”. Aí clicou num botão qualquer e logo começou a tocar James Taylor.

O bom e velho James Taylor.

Eu mal cabia em mim.

Apoiei o cotovelo na janela e fui cantando todo o trajeto.

Assim como fez meu pai, meu filho só ria.