Foi muito
estranho perceber aquele rapaz sentado no banco da pracinha e todo mundo
olhando pra ele. Parecia que estava sendo vigiado. Ele, especificamente não,
mas a mochila de duas cores que estava ao seu lado.
Da calçada
oposta, o meu vizinho, me vendo parado ali, me contou que alguém tinha
esquecido uma mochila, bem bonita, no banco da praça. As pessoas estavam à
espera de que o dono aparecesse em breve e, nesse ínterim, chegou o tal rapaz e
se sentou ao lado da mochila.
Ninguém verbalizou, mas o pensamento de todos era que o rapaz ia simplesmente roubar a
mochila. E eles estavam tentando evitar que isso acontecesse, o que explicava
(?) aqueles mil olhos no entorno do banco da praça. Mil olhos na mochila e
outros mil no rapaz, com sua aparência simples, o que para a maioria dos
“homens e mulheres de bem” já é motivo de preocupação.
Até que surge
uma moça, com roupas de academia, correndo ao atravessar a rua. De longe ela
fez sinal para o rapaz e a gente entendeu prontamente que era a dona da
mochila. Ela chegou esbaforida e deu-se um diálogo inusitado.
– Ô amigo,
essa mochila é minha. Eu sentei aqui pra atender o telefone e depois de
desligar saí direto pra academia sem levar a bolsa. Estava no meio da malhação
e, de repente, me dei conta que tinha esquecido e larguei tudo lá.
– A senhora deu
muita sorte, viu? Eu estava passando e vi a mochila largada aqui e pensei na
hora que alguém tinha esquecido. Aí sentei aqui e disse pra mim mesmo que só
sairia quando o dono chegasse pra buscar. Sei lá, esse pessoal aí podia roubar,
né?
– Ah, sim.
Poxa obrigado por ter ficado de guarda aqui. Você quer alguma coisa? Um
trocado? Eu faço questão.
– Olha moça,
eu até estou precisando, sim. Mas se a senhora me der algum dinheiro aqui, com
toda essa gente olhando, eles vão pensar que foi eu que exigi algo, sabe? E eu
queria só devolver pro dono mesmo, no caso a dona, a senhora.
– Vamos ali na
academia que lá eu te dou um trocado. Aí ninguém vai ver. Tá certo assim?
Eu não sei se
foi uma boa opção aquele acerto dos dois. Se ela tivesse dado um dinheirinho
pro rapaz, não ia parecer tão estranho como foi vê-la sair andando com o rapaz e ir
conversando como se fossem velhos amigos. As pessoas que estavam desde o início
da história, quando a mochila ainda estava sozinha no banco, balançavam a
cabeça em sinal de desaprovação e por pouco não intercederam com ela nesse
momento.
A história
acabaria aí. Os dois tomando o mesmo caminho da academia, enquanto a plateia,
cada qual com sua preocupação, seguia a
vida, torcendo pra que a moça ficasse bem, inclusive eu.
Só mais tarde,
quando voltei pra casa, é que eu soube do restante da história. De tanto a dona
da mochila insistir com o rapaz, ele disse que não queria dinheiro, mas que se
ela quisesse poderia comprar um pacote de salsicha pra ele ali no mercado.
Salsicha? – ela teria perguntado. E ele: sim. Mas como você vai cozinhar? – ela
devolveu. E ele: o meu amigo trabalha num lava-carro e a gente tem um
fogãozinho lá. Eu vou levar a salsicha, a gente compra um pãozinho e almoça lá
mesmo.
A moça da
portaria do meu prédio ria alto enquanto finalizava a história da mochila para
os outros moradores ao redor dela. E todos se surpreenderam com aquele final.
Veja você, um pacote de salsicha – disse um vizinho com o cachorro no colo.
***********
Eu estava
andando ao lado da ciclovia e, de longe, podia ver um sujeito baixinho que
interpelava todo mundo que passava. O sujeito trazia um sanduíche em uma das
mãos e, na outra, uma lata de refrigerante. Ele andava de um lado pro outro, na
calçada, quase que entrando na frente das pessoas pra poder interagir.
Eu já estava até
me preparando pra ser convidado a contribuir com um trocado, quando chegasse
mais perto. Contudo, no fundo, me confundia o fato de ele já estar com uma
comida e uma bebida nas mãos. O que mais ele vai pedir, gente? Eu pensava
enquanto tentava decifrar o homem.
Pelo gesto
dele, entendi que o pedido era “um Real”. Simplesmente ele pedia um Real.
Então, tá ok.
Mas na minha
frente, caminhando no mesmo sentido, iam um homem e uma mulher, ambos vestindo
um mesmo uniforme de trabalho, de calças e camisas da mesma cor. E tinham uma
logomarca nas costas.
Quando
chegaram perto do pedinte eu já estava a uma certa distância, curta, que dava
pra ouvir o diálogo deles. E outra vez uma tirada surpreendente e galhofeira aconteceu.
– Aí, meu
irmão, tudo bem? Tem um Real? Só um Real? Tem aí?
O sujeito
parou junto com a mulher e foi apalpando os bolsos das calças e depois da
camisa. Enquanto verificava ele respondeu:
– Ô amigo, peraí
um pouco. Olha, eu acho que um Real eu até consigo?
– Então me dá
dois!
Paralisados,
pelo inusitado, todos nós que ouvimos essa resposta peculiar e bem-humorada
caímos na risada. Ao mesmo tempo, alguém poderia pensar que tudo poderia ser
levado para o lado da petulância, do atrevimento. Mas, sei lá, a agilidade dele
na resposta e o jeito simplório como ele falou pegaram a todos nós de surpresa.
Ele continuava
comendo o seu sanduiche e tomando o refrigerante no maior astral.
Daí, o
surpreendente.
Que nos fez
rir.
Só rindo.
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