terça-feira, 30 de junho de 2026

A Roupa

 

Eu passei em frente ao quarto da minha mãe e vi que ela estava dobrando umas roupas e botando em cima da cama. Fazia isso com todo o esmero, quase que acariciando as peças e também ia separando por tipo e tamanho pra depois botar na gaveta.

Com um pouco mais de atenção eu percebi que eram roupas do meu pai que ela arrumava. Então aquela cena passou a ter um outro significado pra mim.

É que meu pai estava no hospital naqueles dias. Com o diagnóstico de princípio de pneumonia, o médico preferiu recomendar uns dias de internação pra ter segurança no tratamento. Como não era nada grave a alta estava prevista para o próximo final da semana.

Eu entrei no quarto na intenção de puxar papo com a minha mãe. Na verdade eu queria medir, sentir se ela estava triste ou preocupada com o estado de saúde do marido. Mas logo ela começou a falar de música, se eu sabia tocar uma tal canção e eu logo entendi que estava tudo bem. Enquanto a gente conversava, ela continuava a dobrar as roupas, deixando as gavetas de cima para as que ele usava em casa e as demais para as peças que ele usava pra sair, que eram mais novas e bonitas.

A memória desse dia me traz uma sensação de paz e cuidado. Penso que provavelmente ela cuidava das nossas roupas, minhas e dos meus irmãos, com a mesma dedicação e zelo e a gente só se dava conta, quando dava, ao buscar uma camisa ou bermuda ali na gaveta, arrumadinha e com cheirinho de amaciante.

Hoje eu vejo que a mesma coisa acontecia com as nossas refeições, ou seja, a gente só via o produto final, a comida cheirosa na mesa, e não tinha ideia de todo o trabalho que dava ou do que era feito antes de aquela cena se apresentar na frente dos nossos olhos. A roupa, a comida, a limpeza da casa e da louça, os nossos horários de escola, o material, tudo aquilo chegava pra gente prontinho, preparado por alguém que fazia tudo por nós.

Semana passada, em casa, eu passei no corredor e vi, em cima da minha cama, uma pequena pilha de roupa dobrada. Eu mesmo tinha dobrado, mas assim que vi fiquei parado ali, olhando, e pensando que minha mãe, pelas minhas mãos ou pelos seus ensinamentos, estava ali presente, me mostrando como cuidar das coisas. Pois eu tinha feito do mesmo jeito que ela fazia, enfim.

No fundo eu gosto quando acontece alguma coisa, assim parecida, que me faz lembrar dela, que me faz sentir a presença da minha mãe por perto, ao redor, como uma luz, um farol que mostra o caminho. Lembro que à noite, em certas ocasiões, quando a gente andava de braços dados pela calçada, conforme a gente passava na frente dos prédios, as luzes se acendiam com a nossa presença, acionadas pelos sensores de movimento das portarias. A gente até sabia o que era, mas ríamos assim mesmo, pensando que um ser supremo ia acompanhado e iluminando, lá de cima, a nossa caminhada.

Então, relembrando daquele dia na casa dela, eu acebei por me distrair com as horas e só fui sair de casa no final da tarde. Atravessei a rua e fui beirando a ciclovia que, sinuosamente, acompanha o passeio. Esse bulevar possui postes de led pequenos, instalados, principalmente, para iluminar a ciclovia, sendo que as suas luzes são bem brilhantes, e cuidam de realçar a pista avermelhada das bicicletas.

À minha aproximação, o primeiro poste, ao meu lado, se acendeu de repente. Eu até me assustei. Depois outro e outro, e mais adiante eu virava pra trás e via que todos estavam iluminados, restando acender somente os que estavam à minha frente, como se estivessem me esperando passar. Era fim de tarde, a noite estava chegando e os sensores, automaticamente, acionavam a iluminação pública, como fazem diariamente.

Claro que eu ri, junto com a minha mãe.

Onde quer que ela esteja.

E ela deve estar pensando que essas luzes de led são mesmo lindas.

 

 


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