Eu passei em
frente ao quarto da minha mãe e vi que ela estava dobrando umas roupas e
botando em cima da cama. Fazia isso com todo o esmero, quase que acariciando as
peças e também ia separando por tipo e tamanho pra depois botar na gaveta.
Com um pouco
mais de atenção eu percebi que eram roupas do meu pai que ela arrumava. Então
aquela cena passou a ter um outro significado pra mim.
É que meu pai
estava no hospital naqueles dias. Com o diagnóstico de princípio de pneumonia,
o médico preferiu recomendar uns dias de internação pra ter segurança no
tratamento. Como não era nada grave a alta estava prevista para o próximo final
da semana.
Eu entrei no
quarto na intenção de puxar papo com a minha mãe. Na verdade eu queria medir,
sentir se ela estava triste ou preocupada com o estado de saúde do marido. Mas
logo ela começou a falar de música, se eu sabia tocar uma tal canção e eu logo
entendi que estava tudo bem. Enquanto a gente conversava, ela continuava a
dobrar as roupas, deixando as gavetas de cima para as que ele usava em casa e
as demais para as peças que ele usava pra sair, que eram mais novas e bonitas.
A memória
desse dia me traz uma sensação de paz e cuidado. Penso que provavelmente ela
cuidava das nossas roupas, minhas e dos meus irmãos, com a mesma dedicação e
zelo e a gente só se dava conta, quando dava, ao buscar uma camisa ou bermuda
ali na gaveta, arrumadinha e com cheirinho de amaciante.
Hoje eu vejo que
a mesma coisa acontecia com as nossas refeições, ou seja, a gente só via o
produto final, a comida cheirosa na mesa, e não tinha ideia de todo o trabalho
que dava ou do que era feito antes de aquela cena se apresentar na frente dos
nossos olhos. A roupa, a comida, a limpeza da casa e da louça, os nossos
horários de escola, o material, tudo aquilo chegava pra gente prontinho,
preparado por alguém que fazia tudo por nós.
Semana
passada, em casa, eu passei no corredor e vi, em cima da minha cama, uma
pequena pilha de roupa dobrada. Eu mesmo tinha dobrado, mas assim que vi fiquei
parado ali, olhando, e pensando que minha mãe, pelas minhas mãos ou pelos seus
ensinamentos, estava ali presente, me mostrando como cuidar das coisas. Pois eu
tinha feito do mesmo jeito que ela fazia, enfim.
No fundo eu
gosto quando acontece alguma coisa, assim parecida, que me faz lembrar dela,
que me faz sentir a presença da minha mãe por perto, ao redor, como uma luz, um
farol que mostra o caminho. Lembro que à noite, em certas ocasiões, quando a
gente andava de braços dados pela calçada, conforme a gente passava na frente
dos prédios, as luzes se acendiam com a nossa presença, acionadas pelos
sensores de movimento das portarias. A gente até sabia o que era, mas ríamos assim mesmo, pensando que um ser supremo ia acompanhado e iluminando, lá de
cima, a nossa caminhada.
Então,
relembrando daquele dia na casa dela, eu acebei por me distrair com as horas e
só fui sair de casa no final da tarde. Atravessei a rua e fui beirando a
ciclovia que, sinuosamente, acompanha o passeio. Esse bulevar possui postes de
led pequenos, instalados, principalmente, para iluminar a ciclovia, sendo que
as suas luzes são bem brilhantes, e cuidam de realçar a pista avermelhada das
bicicletas.
À minha
aproximação, o primeiro poste, ao meu lado, se acendeu de repente. Eu até me
assustei. Depois outro e outro, e mais adiante eu virava pra trás e via que todos
estavam iluminados, restando acender somente os que estavam à minha frente,
como se estivessem me esperando passar. Era fim de tarde, a noite estava
chegando e os sensores, automaticamente, acionavam a iluminação pública, como
fazem diariamente.
Claro que eu
ri, junto com a minha mãe.
Onde quer que
ela esteja.
E ela deve
estar pensando que essas luzes de led são mesmo lindas.
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