sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Encontro

 

Caminhando despretensiosamente pela praça, eis que saindo do restaurante encontro um casal amigo. Muito queridos os dois, ficou claro que aquela surpresa se fez agradável a todos nós.

Ele, já aposentado, assim como eu, tinha sido meu chefe na repartição por muitos anos e, após o natural afastamento da lida profissional, sempre que o vejo, imediatamente me vem à lembrança ocasiões jubilosas e cordiais, acerca da sua conduta como dirigente daquela unidade.

A esposa, por sua vez, por ainda estar trabalhando na instituição, em ocasiões como esta se torna uma espécie de elo para nós, principalmente quando perguntamos por este ou aquele antigo colega, se está ativo, se está bem e tal.

Nesse encontro, especialmente, eu nem cheguei ao ponto de listar algum nome em busca de atualizações. Isto porque, logo que terminamos os cumprimentos devidos, o meu chefe, usando um tom pensativo, diria até reflexivo, mudou o rumo da história. Com a mão no queixo e um olhar ao longe, diria no céu, quase perdido, ele disse:

– Uma coisa eu digo pra vocês. É quase uma constatação. Assim, veja bem, as coisas vão melhorar em breve. Muita coisa boa está por vir. Já estão mudando e vão ficar ainda melhores.

A mulher olhou pra ele. Depois pra mim. Eu já estava incomodado com o silêncio que se abateu sobre nós e concordei:

– Pois sim, não pode haver tanta coisa errada assim, por tanto tempo. As pessoas acreditam em cada fake news que é preciso um esforço, um contorcionismo mental grande para tal. Outro dia vi um comentário de um ministro dizendo que o culto à mentira é uma deformação civilizatória. Sensacional isso. Parece que tem uma parcela considerável do país que abraçou a bandidagem, definitivamente. Numa sessão do STF, recentemente, um outro membro sublinhou que as pessoas agem insufladas pela coragem da ignorância e depois vêm dizer que não há crime em pichar uma estátua. Tudo isso sem contexto, sem considerar a realidade, apenas fazendo um recorte superficial daquilo que lhe interessa.

– Sim, isso é a pura verdade – disse a esposa do meu chefe com um sorriso enigmático.

E eu continuei:

– Anda por cima me surpreende a quantidade de gente que vota contrariamente a si própria, que elege atos e pensamentos que são contrários às suas próprias condições de vida. Novamente acreditando nas mentiras. Não me lembro onde eu li isso, mas era algo assim: a burrice é mais interessante do que a inteligência, porque ela não tem limite. E isso realmente é uma tragédia no Brasil. A Cultura jamais vai se recuperar e passar a fazer parte da vida dessas pessoas. Sai a Cultura e entra o extremismo religioso. Um caos total. Um atraso geracional. Realmente eu não sei onde isso tudo vai parar.

– Eu estava falando do Vasco – disse de repente o meu chefe.

– Oi?

– Eu estava falando do Vasco quando disse que as coisas vão mudar.

– Ah, tá – eu murmurei ao léu, totalmente desconcertado.

– O time está melhorando e as perspectivas do clube são bem animadoras atualmente. Parece que vai entrar uma nova SAF, e vai botar muito dinheiro no setor de futebol, pra contratar grandes jogadores, de renome nacional, e técnicos bons também. Muita coisa boa está por vir. Foi isso que eu disse. Era sobre o Vasco.

Eu, que antes estava apenas desconcertado, agora estava já revendo todas as palavras que tinha dito há pouco. Quase um discurso de palanque. De onde eu tirei que ele estava falando de política? Podia ser qualquer coisa, pois qualquer coisa pode melhorar, ora bolas. Até o Vasco! Mesmo estando na zona de rebaixamento, como está agora. Mas por que raios eu comecei aquela ladainha sobre política, sobre fake news, burrice e extremismo religioso?

Ai, o Vasco.

Num átimo breve alguém lembrou do horário avançado e que já era tempo de retornar do almoço. Graças a Deus, eu diria. Eu tinha que ir embora logo e levar o meu desconcerto comigo o quanto antes.

E assim o fiz. Sem olhar para trás. O episódio alugou uma sala na minha cabeça por um bom tempo.

Finalmente, na minha avaliação, o que me salvou naquele dia, do qual hoje já sou capaz de lembrar até com um certo sorriso ladino nos lábios, foi justamente a discrição do casal amigo.

Fosse outro grupo, outras pessoas, no comentário do dia seguinte estaria grifado o tal encontro estimável como algo digno de excomunhão sumária, talvez até de cancelamento ou algo que o valha.

– Vocês viram? O sujeito, do nada, começou a falar de política e ninguém o segurava mais.

– Totalmente drogado.

– Ah, mas só pode ser drogado.

– Eu garanto!

 

 


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Gol Anulado

 

Meu pai sempre gostou de apitar jogos de futebol. Jogos não oficiais, que eram realizados ali pelo bairro mesmo ou na vizinhança, nos clubes onde havia campeonatos. Muitas vezes as pessoas iam lá em casa pra combinar com ele um jogo futuro, seja de campo oficial, sintético ou mesmo de futsal, jogado em quadras.

Ele tinha uniforme completo de juiz, assim como apito, cartões amarelo e vermelho e até dois relógios, ambos com cronômetro. Levava tão a sério essa paixão que não gostava quando alguém o chamava de juiz.

– Juiz não, árbitro – explicava ele, corrigindo o interlocutor.

Às vezes a gente ia jogar uma partida no clube e, ao final, os próximos times que iam ocupar o período seguinte o chamavam pra apitar o jogo deles. Aí, eu, meu irmão e alguns amigos ficávamos ali só olhando a atuação dele, esperando pra irmos todos juntos pra casa.

Uma vez o meu time foi jogar contra uma equipe “de fora”, de outro bairro, eu acho. Aí chamaram o meu pai pra apitar. De pronto a gente foi pro vestiário pra botar a roupa de jogo e, tenho quase certeza de que nessa hora ficou claro que o juiz era pai de um dos jogadores, no caso, eu. Ok, ninguém falou nada sobre isso e fomos pro jogo.

Um lance plasticamente irretocável se deu ainda no primeiro tempo, quando eu recebi um cruzamento da lateral, matei a bola no peito e fiz um golaço, de voleio, no ângulo esquerdo do goleiro. Ninguém acreditou quando o juiz, aliás o árbitro, aliás o meu pai anulou o meu gol. Com a mão espalmada acima da cabeça ele apitou anunciando que eu teria ajeitado a bola com o braço e não com o peito e, por isso, o gol era inválido. É claro que todo o time foi reclamar, inclusive eu.

O fato é que – depois eu pensei no lance – meu pai estava posicionado atrás de mim. Naquele ângulo ele não conseguia ver a bola, tampouco o meu braço nela. Apenas sugerido e influenciado pelo meu movimento de corpo, ele achou que a bola bateu na minha mão, ou no braço, avaliando ainda a maneira como a redonda ficou “na pinta” para que eu arrematasse a gol.

Enfim, não teve jeito. O gol estava anulado. Eu fiquei muito contrariado, fiz cara feia pro meu pai o resto do jogo e até disse que, se tivesse batido na mão eu ia assumir, admitir, mas nada.

Meu pai certamente ficou com aquela pulga atrás da orelha o jogo todo. Anulou um gol legal – e lindo – do próprio filho. Eu senti que ele tinha ficado mal com a possibilidade de ter errado, de não ter acreditado em mim. Pelo meu lado eu já estava pensando nas brincadeiras que eu ia fazer, o sarro que eu ia tirar dele no caminho pra casa, contando pra minha mãe, me referindo ao ocorrido no jogo.

Foi então que uma revelação aconteceu. Terminado o jogo, depois dos cumprimentos de todos saindo da quadra, o goleiro do time adversário veio andando e abraçou o meu pai. Eu estava longe, mas percebi que ele falou alguma coisa, fazendo um sinal tipo batendo com a mão no braço. Depois, ainda argumentando, fez uma expressão com o corpo produzindo um gesto de matar a bola no peito.

Na mesma hora o meu pai me procurou com os olhos, querendo saber onde eu estava na quadra. E foi nessa hora que eu percebi que ele tinha se convencido de que aquele gol foi legítimo. Ele não me disse nada sobre isso, tampouco contou a conversa com o goleiro. Mas eu senti que ele ficou abatido, que ele pensou que podia ter errado com qualquer outro jogador, enfim...

Alguns dias depois minha mãe, do nada, fez uma referência ao lance do gol anulado. Sutilmente, mas fez. E eu não percebi se ela queria saber como eu tinha levado aquilo ou se queria me dizer como meu pai estava se sentindo. Foi como se ela estivesse tateando um jeito de me fazer entender que ele queria se desculpar, e aí ela estava tentando pescar o quanto chateado eu tinha ficado com a decisão dele.

Hoje, quando eu relembro esse episódio, consigo ver os olhos do meu pai me procurando entre todos os jogadores, no momento em que soube, pelo goleiro adversário, que o gol foi correto. Por outro lado eu consigo entender perfeitamente o lado dele. Imagina o juiz dando validade a um gol no qual o jogador ajeita a bola com a mão? E ainda por cima se esse juiz é o pai do autor do gol? É a vergonha suprema! Mais do que isso, é deitar por terra a coisa mais valiosa para um árbitro: a sua legitimidade como tal.

Na minha memória ele estava errando contra o próprio filho e, por isso, sendo isento como todo árbitro deve ser, mesmo quando excede o limite da dúvida, justamente contra alguém que poderia ser o seu favorecido.

O tempo que eu fiquei chateado com aquele gol anulado é ínfimo diante do tempo em que eu passei a compreender e reconhecer a atitude do meu pai como certa, em todos os sentidos. Hoje não tenho a menor dúvida de que eu faria a mesma coisa.

Eu só me arrependo de não ter dito isso a ele, com todas as letras.

Meu pai nunca me ensinou nada.

Mas eu aprendi muito com ele.

Essa foi mais uma lição.