Essa crônica é
uma lembrança de um causo que meu pai contou a vida toda. E sempre que ele
resgatava essa história, tinha prazer em pedir a confirmação da minha mãe, anunciando
em bom tom o seu nome, seguido da frase “que não me deixa mentir”. Ela por sua
vez, também gostava de lembrar dessa passagem, pois que envolvia o irmão dela,
o meu tio Urubatão.
Meu pai tinha
sido campeão de tênis de mesa no quartel. “Num universo de 5 mil homens – dizia
ele –, eu fui o campeão. Primeiro fui campeão dentro da minha companhia, e
depois, jogando o torneio entre os campeões das demais companhias.”
Desde quando
ele conheceu a minha mãe, de pronto o futuro cunhado sempre levava meu pai aos
eventos esportivos que eram muitos naquela época, tanto em São Paulo, no Rio,
como em Santos, onde ficava a sede do seu time, o Santos Futebol Clube.
Aqui vale
abrir um parêntesis, pois o mundo todo conhece o personagem principal daquele
clube e a sua história excepcional que o levou a ser considerado o atleta do
século. Pois bem, o meu tio Urubatão jogava na zaga do Santos quando o garoto
Pelé estava começando a carreira, tendo subido das categorias de base
recentemente e já vinha, naturalmente, impressionando todos os companheiros, a
imprensa etc.
Pois bem,
sempre que tinha uma oportunidade lá estava o meu pai, a convite do cunhado, a
se reunir com a equipe do Santos na concentração, antes dos jogos. A minha mãe
dizia que ele gostava de chamar o meu pai porque, como cunhado, ele era o seu
salvo-conduto. Ou seja, a esposa do meu tio ficava tranquila quando meu pai ia
junto nas festas e compromissos, supondo que assim ele se comportaria melhor,
de modo mais comedido, estando na companhia do cunhado. Reparem que eu escrevi
a palavra supondo, que aqui exerce a função de deixar no ar algo um tanto
difícil de assegurar. Ponto.
Dada a real
dimensão daquela parceria entre meu pai e meu tio, cabe aqui sublinhar, sobre
aquela época, que se trata de um jogador do famoso Santos, nos tempos áureos do
time vencedor, que tinha como pupilo o jovem Pelé, promissor atacante que
despontava e, nesse contexto, as muitas concentrações pelo país afora eram um
evento muito divertido e prazenteiro, pra dizer o mínimo. Claro que meu pai
adorava estar naquele ambiente e não media “esforços” para oferecer a sua
parceria ao cunhado.
Foi então que,
em uma dessas concentrações antes dos jogos, e talvez possa ter sido até mesmo
na sede Santista, ninguém sabe bem de que maneira, apareceu uma mesa de
pingue-pongue. Na mesma hora o meu tio Urubatão anunciou que o cunhado havia sido
campeão no Exército, que era uma fera com a raquete e não perdia pra ninguém.
Ora, essa seria a frase ideal pra mexer com os brios de qualquer um,
principalmente quando se trata de pessoas afeitas a questões de disputa, vencer
e ganhar, derrotar o adversário, competir até o limite, aí a coisa fica um
pouco mais, podemos dizer, aflorada, em termos de rivalidade.
– É o
seguinte: podem fazer uma fila que o Carequinha (apelido do meu pai) aqui vai
despachar um por um, sem dó nem piedade. Vai ser cortada pra tudo quanto é lado
e não quero ver barbado chorando pelos cantos não, ouviram?
Estava dada a
sentença. O desafio agora era questão de honra para os jogadores daquela equipe
multicampeã. Logo chegaram mais raquetes, bolas e, ao redor da mesa, os
incentivos vinham tal como em um estádio de futebol.
Ao lembrar
desse dia, em especial, meu pai contava, e meu tio confirmava, que ali ninguém
sabia nada de tênis de mesa. As bolas de devolução do saque já vinham altas, na
medida exata pra serem rebatidas fora do alcance das raquetes adversárias, isso
quando não encontravam peitos e barrigas alheias, que logo ficavam com a marca
vermelha da bolinha no corpo.
Um a um, todos
foram sendo despachados pelo campeão, aquele carioca que afinal surgiu pra
tirar onda com todo mundo e, pior, dentro dos domínios do anfitrião. Isso não
poderia acontecer! Os apupos iam crescendo conforme as partidas iam sendo terminadas,
até que o Pelé, a essa altura já consagrado pela participação notória em duas
Copas do Mundo, chegou no salão.
– Foram me
dizer que tem um sujeito aqui que tá ganhando de todo mundo no pingue-pongue. Vamos
ver se esse cunhadinho do Uruba é bom mesmo nesse troço – disse o Rei chamando
o meu tio pelo nome que só os amigos usavam.
Frente a
frente, meu pai e o Pelé mediam olhares intimidadores. A seguir, veio o
silêncio. Uma ponta de aflição pairou no ar como se fosse audível o rufar dos
tambores dentro da cabeça de cada um. Os desafiantes conferiram as próprias
raquetes, os limites da mesa, as bolas e, por fim, a distância adequada para
que a plateia não atrapalhasse a performance que estava por iniciar.
O jogo começou
e, claro, aquele não era nem o campo nem a bola com os quais o Rei estava habituado
a brilhar. Logo ficou evidente que, com as mãos, definitivamente, aquele não
era um jogador consagrado. Nem do pingue-pongue, nem do tênis de mesa. Mas
mesmo assim ele insistia, se esforçava e nada, o placar só se mexia para o lado
carioca da mesa.
Quando
aconteceu uma sequência de pontos do meu pai, com saques certeiros e cortadas
desconcertantes, deu-se o epílogo daquele certame memorável.
Com dois
gestos o Rei Pelé recolheu a rede da mesa, pegou as bolas, a raquete dele e a do
meu pai, e jogou tudo pela janela do segundo andar da concentração, dando fim
àquela peleja.
– Dá aqui
essas bolas e raquetes, rede e tudo pra mim. Chega! Aqui você não ganha de mais
ninguém. Tá encerrado o jogo.
Foi só quando
ele deu um sorriso maroto e foi abraçar o amigo Uruba que as pessoas entenderam
que até quando perdia um jogo, aquele gênio do futebol tinha uma maneira
especial de ser divertido e de reconhecer o talento do outro.
– E digo mais,
hein Uruba: Amanhã, no treino, você dá um jeito de botar o Carequinha na zaga
que eu vou querer forra disso tudo aqui, entende? Isso não vai ficar assim não!
– e deu uma sonora gargalhada, seguida pela ovação dos outros jogadores.
No link, um encontro do Pelé com
o meu tio Urubatão:
https://www.youtube.com/watch?v=w5RzyCAPVd8