Caminhando
despretensiosamente pela praça, eis que saindo do restaurante encontro um casal
amigo. Muito queridos os dois, ficou claro que aquela surpresa se fez agradável
a todos nós.
Ele, já
aposentado, assim como eu, tinha sido meu chefe na repartição por muitos anos
e, após o natural afastamento da lida profissional, sempre que o vejo,
imediatamente me vem à lembrança ocasiões jubilosas e cordiais, acerca da sua
conduta como dirigente daquela unidade.
A esposa, por
sua vez, por ainda estar trabalhando na instituição, em ocasiões como esta se
torna uma espécie de elo para nós, principalmente quando perguntamos por este
ou aquele antigo colega, se está ativo, se está bem e tal.
Nesse
encontro, especialmente, eu nem cheguei ao ponto de listar algum nome em busca
de atualizações. Isto porque, logo que terminamos os cumprimentos devidos, o
meu chefe, usando um tom pensativo, diria até reflexivo, mudou o rumo da
história. Com a mão no queixo e um olhar ao longe, diria no céu, quase perdido,
ele disse:
– Uma coisa eu
digo pra vocês. É quase uma constatação. Assim, veja bem, as coisas vão
melhorar em breve. Muita coisa boa está por vir. Já estão mudando e vão ficar
ainda melhores.
A mulher olhou
pra ele. Depois pra mim. Eu já estava incomodado com o silêncio que se abateu
sobre nós e concordei:
– Pois sim,
não pode haver tanta coisa errada assim, por tanto tempo. As pessoas acreditam
em cada fake news que é preciso um esforço, um contorcionismo mental grande
para tal. Outro dia vi um comentário de um ministro dizendo que o culto à
mentira é uma deformação civilizatória. Sensacional isso. Parece que tem uma
parcela considerável do país que abraçou a bandidagem, definitivamente. Numa
sessão do STF, recentemente, um outro membro sublinhou que as pessoas agem
insufladas pela coragem da ignorância e depois vêm dizer que não há crime em
pichar uma estátua. Tudo isso sem contexto, sem considerar a realidade, apenas
fazendo um recorte superficial daquilo que lhe interessa.
– Sim, isso é
a pura verdade – disse a esposa do meu chefe com um sorriso enigmático.
E eu
continuei:
– Anda por
cima me surpreende a quantidade de gente que vota contrariamente a si própria,
que elege atos e pensamentos que são contrários às suas próprias condições de
vida. Novamente acreditando nas mentiras. Não me lembro onde eu li isso, mas
era algo assim: a burrice é mais interessante do que a inteligência, porque ela
não tem limite. E isso realmente é uma tragédia no Brasil. A Cultura jamais vai
se recuperar e passar a fazer parte da vida dessas pessoas. Sai a Cultura e
entra o extremismo religioso. Um caos total. Um atraso geracional. Realmente eu
não sei onde isso tudo vai parar.
– Eu estava
falando do Vasco – disse de repente o meu chefe.
– Oi?
– Eu estava
falando do Vasco quando disse que as coisas vão mudar.
– Ah, tá – eu
murmurei ao léu, totalmente desconcertado.
– O time está
melhorando e as perspectivas do clube são bem animadoras atualmente. Parece que
vai entrar uma nova SAF, e vai botar muito dinheiro no setor de futebol, pra
contratar grandes jogadores, de renome nacional, e técnicos bons também. Muita
coisa boa está por vir. Foi isso que eu disse. Era sobre o Vasco.
Eu, que antes
estava apenas desconcertado, agora estava já revendo todas as palavras que
tinha dito há pouco. Quase um discurso de palanque. De onde eu tirei que ele
estava falando de política? Podia ser qualquer coisa, pois qualquer coisa pode
melhorar, ora bolas. Até o Vasco! Mesmo estando na zona de rebaixamento, como
está agora. Mas por que raios eu comecei aquela ladainha sobre política, sobre fake
news, burrice e extremismo religioso?
Ai, o Vasco.
Num átimo
breve alguém lembrou do horário avançado e que já era tempo de retornar do
almoço. Graças a Deus, eu diria. Eu tinha que ir embora logo e levar o meu
desconcerto comigo o quanto antes.
E assim o fiz.
Sem olhar para trás. O episódio alugou uma sala na minha cabeça por um bom
tempo.
Finalmente, na
minha avaliação, o que me salvou naquele dia, do qual hoje já sou capaz de lembrar
até com um certo sorriso ladino nos lábios, foi justamente a discrição do casal
amigo.
Fosse outro
grupo, outras pessoas, no comentário do dia seguinte estaria grifado o tal
encontro estimável como algo digno de excomunhão sumária, talvez até de cancelamento
ou algo que o valha.
– Vocês viram?
O sujeito, do nada, começou a falar de política e ninguém o segurava mais.
– Totalmente
drogado.
– Ah, mas só
pode ser drogado.
– Eu garanto!
Ah cara isso acontece comigo com frequência para esconder minha inibição ou vontade de sair correndo de certos encontros furtivos e inesperados... Fica frio.
ResponderExcluirQue encontro! Ou desencontro? (Lengo)
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