Meu pai sempre
gostou de apitar jogos de futebol. Jogos não oficiais, que eram realizados ali
pelo bairro mesmo ou na vizinhança, nos clubes onde havia campeonatos. Muitas
vezes as pessoas iam lá em casa pra combinar com ele um jogo futuro, seja de
campo oficial, sintético ou mesmo de futsal, jogado em quadras.
Ele tinha uniforme
completo de juiz, assim como apito, cartões amarelo e vermelho e até dois
relógios, ambos com cronômetro. Levava tão a sério essa paixão que não gostava
quando alguém o chamava de juiz.
– Juiz não,
árbitro – explicava ele, corrigindo o interlocutor.
Às vezes a
gente ia jogar uma partida no clube e, ao final, os próximos times que iam
ocupar o período seguinte o chamavam pra apitar o jogo deles. Aí, eu, meu irmão
e alguns amigos ficávamos ali só olhando a atuação dele, esperando pra irmos
todos juntos pra casa.
Uma vez o meu
time foi jogar contra uma equipe “de fora”, de outro bairro, eu acho. Aí
chamaram o meu pai pra apitar. De pronto a gente foi pro vestiário pra botar a
roupa de jogo e, tenho quase certeza de que nessa hora ficou claro que o juiz era
pai de um dos jogadores, no caso, eu. Ok, ninguém falou nada sobre isso e fomos
pro jogo.
Um lance
plasticamente irretocável se deu ainda no primeiro tempo, quando eu recebi um
cruzamento da lateral, matei a bola no peito e fiz um golaço, de voleio, no
ângulo esquerdo do goleiro. Ninguém acreditou quando o juiz, aliás o árbitro,
aliás o meu pai anulou o meu gol. Com a mão espalmada acima da cabeça ele
apitou anunciando que eu teria ajeitado a bola com o braço e não com o peito e,
por isso, o gol era inválido. É claro que todo o time foi reclamar, inclusive
eu.
O fato é que –
depois eu pensei no lance – meu pai estava posicionado atrás de mim. Naquele
ângulo ele não conseguia ver a bola, tampouco o meu braço nela. Apenas sugerido
e influenciado pelo meu movimento de corpo, ele achou que a bola bateu na minha
mão, ou no braço, avaliando ainda a maneira como a redonda ficou “na pinta”
para que eu arrematasse a gol.
Enfim, não
teve jeito. O gol estava anulado. Eu fiquei muito contrariado, fiz cara feia
pro meu pai o resto do jogo e até disse que, se tivesse batido na mão eu ia
assumir, admitir, mas nada.
Meu pai
certamente ficou com aquela pulga atrás da orelha o jogo todo. Anulou um gol
legal – e lindo – do próprio filho. Eu senti que ele tinha ficado mal com a
possibilidade de ter errado, de não ter acreditado em mim. Pelo meu lado eu já
estava pensando nas brincadeiras que eu ia fazer, o sarro que eu ia tirar dele
no caminho pra casa, contando pra minha mãe, me referindo ao ocorrido no jogo.
Foi então que
uma revelação aconteceu. Terminado o jogo, depois dos cumprimentos de todos
saindo da quadra, o goleiro do time adversário veio andando e abraçou o meu
pai. Eu estava longe, mas percebi que ele falou alguma coisa, fazendo um sinal
tipo batendo com a mão no braço. Depois, ainda argumentando, fez uma expressão
com o corpo produzindo um gesto de matar a bola no peito.
Na mesma hora
o meu pai me procurou com os olhos, querendo saber onde eu estava na quadra. E
foi nessa hora que eu percebi que ele tinha se convencido de que aquele gol foi
legítimo. Ele não me disse nada sobre isso, tampouco contou a conversa com o
goleiro. Mas eu senti que ele ficou abatido, que ele pensou que podia ter errado
com qualquer outro jogador, enfim...
Alguns dias
depois minha mãe, do nada, fez uma referência ao lance do gol anulado.
Sutilmente, mas fez. E eu não percebi se ela queria saber como eu tinha levado
aquilo ou se queria me dizer como meu pai estava se sentindo. Foi como se ela estivesse tateando um jeito de me fazer entender que ele queria se desculpar, e aí
ela estava tentando pescar o quanto chateado eu tinha ficado com a decisão dele.
Hoje, quando
eu relembro esse episódio, consigo ver os olhos do meu pai me procurando entre
todos os jogadores, no momento em que soube, pelo goleiro adversário, que o gol
foi correto. Por outro lado eu consigo entender perfeitamente o lado dele.
Imagina o juiz dando validade a um gol no qual o jogador ajeita a bola com a
mão? E ainda por cima se esse juiz é o pai do autor do gol? É a vergonha
suprema! Mais do que isso, é deitar por terra a coisa mais valiosa para um
árbitro: a sua legitimidade como tal.
Na minha
memória ele estava errando contra o próprio filho e, por isso, sendo isento
como todo árbitro deve ser, mesmo quando excede o limite da dúvida, justamente
contra alguém que poderia ser o seu favorecido.
O tempo que eu
fiquei chateado com aquele gol anulado é ínfimo diante do tempo em que eu
passei a compreender e reconhecer a atitude do meu pai como certa, em todos os
sentidos. Hoje não tenho a menor dúvida de que eu faria a mesma coisa.
Eu só me
arrependo de não ter dito isso a ele, com todas as letras.
Meu pai nunca
me ensinou nada.
Mas eu aprendi
muito com ele.
Essa foi mais
uma lição.
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