quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O Campeão

 

Essa crônica é uma lembrança de um causo que meu pai contou a vida toda. E sempre que ele resgatava essa história, tinha prazer em pedir a confirmação da minha mãe, anunciando em bom tom o seu nome, seguido da frase “que não me deixa mentir”. Ela por sua vez, também gostava de lembrar dessa passagem, pois que envolvia o irmão dela, o meu tio Urubatão.

Meu pai tinha sido campeão de tênis de mesa no quartel. “Num universo de 5 mil homens – dizia ele –, eu fui o campeão. Primeiro fui campeão dentro da minha companhia, e depois, jogando o torneio entre os campeões das demais companhias.”

Desde quando ele conheceu a minha mãe, de pronto o futuro cunhado sempre levava meu pai aos eventos esportivos que eram muitos naquela época, tanto em São Paulo, no Rio, como em Santos, onde ficava a sede do seu time, o Santos Futebol Clube.

Aqui vale abrir um parêntesis, pois o mundo todo conhece o personagem principal daquele clube e a sua história excepcional que o levou a ser considerado o atleta do século. Pois bem, o meu tio Urubatão jogava na zaga do Santos quando o garoto Pelé estava começando a carreira, tendo subido das categorias de base recentemente e já vinha, naturalmente, impressionando todos os companheiros, a imprensa etc.

Pois bem, sempre que tinha uma oportunidade lá estava o meu pai, a convite do cunhado, a se reunir com a equipe do Santos na concentração, antes dos jogos. A minha mãe dizia que ele gostava de chamar o meu pai porque, como cunhado, ele era o seu salvo-conduto. Ou seja, a esposa do meu tio ficava tranquila quando meu pai ia junto nas festas e compromissos, supondo que assim ele se comportaria melhor, de modo mais comedido, estando na companhia do cunhado. Reparem que eu escrevi a palavra supondo, que aqui exerce a função de deixar no ar algo um tanto difícil de assegurar. Ponto.

Dada a real dimensão daquela parceria entre meu pai e meu tio, cabe aqui sublinhar, sobre aquela época, que se trata de um jogador do famoso Santos, nos tempos áureos do time vencedor, que tinha como pupilo o jovem Pelé, promissor atacante que despontava e, nesse contexto, as muitas concentrações pelo país afora eram um evento muito divertido e prazenteiro, pra dizer o mínimo. Claro que meu pai adorava estar naquele ambiente e não media “esforços” para oferecer a sua parceria ao cunhado.

Foi então que, em uma dessas concentrações antes dos jogos, e talvez possa ter sido até mesmo na sede Santista, ninguém sabe bem de que maneira, apareceu uma mesa de pingue-pongue. Na mesma hora o meu tio Urubatão anunciou que o cunhado havia sido campeão no Exército, que era uma fera com a raquete e não perdia pra ninguém. Ora, essa seria a frase ideal pra mexer com os brios de qualquer um, principalmente quando se trata de pessoas afeitas a questões de disputa, vencer e ganhar, derrotar o adversário, competir até o limite, aí a coisa fica um pouco mais, podemos dizer, aflorada, em termos de rivalidade.

– É o seguinte: podem fazer uma fila que o Carequinha (apelido do meu pai) aqui vai despachar um por um, sem dó nem piedade. Vai ser cortada pra tudo quanto é lado e não quero ver barbado chorando pelos cantos não, ouviram?

Estava dada a sentença. O desafio agora era questão de honra para os jogadores daquela equipe multicampeã. Logo chegaram mais raquetes, bolas e, ao redor da mesa, os incentivos vinham tal como em um estádio de futebol.

Ao lembrar desse dia, em especial, meu pai contava, e meu tio confirmava, que ali ninguém sabia nada de tênis de mesa. As bolas de devolução do saque já vinham altas, na medida exata pra serem rebatidas fora do alcance das raquetes adversárias, isso quando não encontravam peitos e barrigas alheias, que logo ficavam com a marca vermelha da bolinha no corpo.

Um a um, todos foram sendo despachados pelo campeão, aquele carioca que afinal surgiu pra tirar onda com todo mundo e, pior, dentro dos domínios do anfitrião. Isso não poderia acontecer! Os apupos iam crescendo conforme as partidas iam sendo terminadas, até que o Pelé, a essa altura já consagrado pela participação notória em duas Copas do Mundo, chegou no salão.

– Foram me dizer que tem um sujeito aqui que tá ganhando de todo mundo no pingue-pongue. Vamos ver se esse cunhadinho do Uruba é bom mesmo nesse troço – disse o Rei chamando o meu tio pelo nome que só os amigos usavam.

Frente a frente, meu pai e o Pelé mediam olhares intimidadores. A seguir, veio o silêncio. Uma ponta de aflição pairou no ar como se fosse audível o rufar dos tambores dentro da cabeça de cada um. Os desafiantes conferiram as próprias raquetes, os limites da mesa, as bolas e, por fim, a distância adequada para que a plateia não atrapalhasse a performance que estava por iniciar.

O jogo começou e, claro, aquele não era nem o campo nem a bola com os quais o Rei estava habituado a brilhar. Logo ficou evidente que, com as mãos, definitivamente, aquele não era um jogador consagrado. Nem do pingue-pongue, nem do tênis de mesa. Mas mesmo assim ele insistia, se esforçava e nada, o placar só se mexia para o lado carioca da mesa.

Quando aconteceu uma sequência de pontos do meu pai, com saques certeiros e cortadas desconcertantes, deu-se o epílogo daquele certame memorável.

Com dois gestos o Rei Pelé recolheu a rede da mesa, pegou as bolas, a raquete dele e a do meu pai, e jogou tudo pela janela do segundo andar da concentração, dando fim àquela peleja.

– Dá aqui essas bolas e raquetes, rede e tudo pra mim. Chega! Aqui você não ganha de mais ninguém. Tá encerrado o jogo.

Foi só quando ele deu um sorriso maroto e foi abraçar o amigo Uruba que as pessoas entenderam que até quando perdia um jogo, aquele gênio do futebol tinha uma maneira especial de ser divertido e de reconhecer o talento do outro.

– E digo mais, hein Uruba: Amanhã, no treino, você dá um jeito de botar o Carequinha na zaga que eu vou querer forra disso tudo aqui, entende? Isso não vai ficar assim não! – e deu uma sonora gargalhada, seguida pela ovação dos outros jogadores.

  

 

No link, um encontro do Pelé com o meu tio Urubatão:

https://www.youtube.com/watch?v=w5RzyCAPVd8

 

 


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O Encontro

 

Caminhando despretensiosamente pela praça, eis que saindo do restaurante encontro um casal amigo. Muito queridos os dois, ficou claro que aquela surpresa se fez agradável a todos nós.

Ele, já aposentado, assim como eu, tinha sido meu chefe na repartição por muitos anos e, após o natural afastamento da lida profissional, sempre que o vejo, imediatamente me vem à lembrança ocasiões jubilosas e cordiais, acerca da sua conduta como dirigente daquela unidade.

A esposa, por sua vez, por ainda estar trabalhando na instituição, em ocasiões como esta se torna uma espécie de elo para nós, principalmente quando perguntamos por este ou aquele antigo colega, se está ativo, se está bem e tal.

Nesse encontro, especialmente, eu nem cheguei ao ponto de listar algum nome em busca de atualizações. Isto porque, logo que terminamos os cumprimentos devidos, o meu chefe, usando um tom pensativo, diria até reflexivo, mudou o rumo da história. Com a mão no queixo e um olhar ao longe, diria no céu, quase perdido, ele disse:

– Uma coisa eu digo pra vocês. É quase uma constatação. Assim, veja bem, as coisas vão melhorar em breve. Muita coisa boa está por vir. Já estão mudando e vão ficar ainda melhores.

A mulher olhou pra ele. Depois pra mim. Eu já estava incomodado com o silêncio que se abateu sobre nós e concordei:

– Pois sim, não pode haver tanta coisa errada assim, por tanto tempo. As pessoas acreditam em cada fake news que é preciso um esforço, um contorcionismo mental grande para tal. Outro dia vi um comentário de um ministro dizendo que o culto à mentira é uma deformação civilizatória. Sensacional isso. Parece que tem uma parcela considerável do país que abraçou a bandidagem, definitivamente. Numa sessão do STF, recentemente, um outro membro sublinhou que as pessoas agem insufladas pela coragem da ignorância e depois vêm dizer que não há crime em pichar uma estátua. Tudo isso sem contexto, sem considerar a realidade, apenas fazendo um recorte superficial daquilo que lhe interessa.

– Sim, isso é a pura verdade – disse a esposa do meu chefe com um sorriso enigmático.

E eu continuei:

– Anda por cima me surpreende a quantidade de gente que vota contrariamente a si própria, que elege atos e pensamentos que são contrários às suas próprias condições de vida. Novamente acreditando nas mentiras. Não me lembro onde eu li isso, mas era algo assim: a burrice é mais interessante do que a inteligência, porque ela não tem limite. E isso realmente é uma tragédia no Brasil. A Cultura jamais vai se recuperar e passar a fazer parte da vida dessas pessoas. Sai a Cultura e entra o extremismo religioso. Um caos total. Um atraso geracional. Realmente eu não sei onde isso tudo vai parar.

– Eu estava falando do Vasco – disse de repente o meu chefe.

– Oi?

– Eu estava falando do Vasco quando disse que as coisas vão mudar.

– Ah, tá – eu murmurei ao léu, totalmente desconcertado.

– O time está melhorando e as perspectivas do clube são bem animadoras atualmente. Parece que vai entrar uma nova SAF, e vai botar muito dinheiro no setor de futebol, pra contratar grandes jogadores, de renome nacional, e técnicos bons também. Muita coisa boa está por vir. Foi isso que eu disse. Era sobre o Vasco.

Eu, que antes estava apenas desconcertado, agora estava já revendo todas as palavras que tinha dito há pouco. Quase um discurso de palanque. De onde eu tirei que ele estava falando de política? Podia ser qualquer coisa, pois qualquer coisa pode melhorar, ora bolas. Até o Vasco! Mesmo estando na zona de rebaixamento, como está agora. Mas por que raios eu comecei aquela ladainha sobre política, sobre fake news, burrice e extremismo religioso?

Ai, o Vasco.

Num átimo breve alguém lembrou do horário avançado e que já era tempo de retornar do almoço. Graças a Deus, eu diria. Eu tinha que ir embora logo e levar o meu desconcerto comigo o quanto antes.

E assim o fiz. Sem olhar para trás. O episódio alugou uma sala na minha cabeça por um bom tempo.

Finalmente, na minha avaliação, o que me salvou naquele dia, do qual hoje já sou capaz de lembrar até com um certo sorriso ladino nos lábios, foi justamente a discrição do casal amigo.

Fosse outro grupo, outras pessoas, no comentário do dia seguinte estaria grifado o tal encontro estimável como algo digno de excomunhão sumária, talvez até de cancelamento ou algo que o valha.

– Vocês viram? O sujeito, do nada, começou a falar de política e ninguém o segurava mais.

– Totalmente drogado.

– Ah, mas só pode ser drogado.

– Eu garanto!

 

 


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Gol Anulado

 

Meu pai sempre gostou de apitar jogos de futebol. Jogos não oficiais, que eram realizados ali pelo bairro mesmo ou na vizinhança, nos clubes onde havia campeonatos. Muitas vezes as pessoas iam lá em casa pra combinar com ele um jogo futuro, seja de campo oficial, sintético ou mesmo de futsal, jogado em quadras.

Ele tinha uniforme completo de juiz, assim como apito, cartões amarelo e vermelho e até dois relógios, ambos com cronômetro. Levava tão a sério essa paixão que não gostava quando alguém o chamava de juiz.

– Juiz não, árbitro – explicava ele, corrigindo o interlocutor.

Às vezes a gente ia jogar uma partida no clube e, ao final, os próximos times que iam ocupar o período seguinte o chamavam pra apitar o jogo deles. Aí, eu, meu irmão e alguns amigos ficávamos ali só olhando a atuação dele, esperando pra irmos todos juntos pra casa.

Uma vez o meu time foi jogar contra uma equipe “de fora”, de outro bairro, eu acho. Aí chamaram o meu pai pra apitar. De pronto a gente foi pro vestiário pra botar a roupa de jogo e, tenho quase certeza de que nessa hora ficou claro que o juiz era pai de um dos jogadores, no caso, eu. Ok, ninguém falou nada sobre isso e fomos pro jogo.

Um lance plasticamente irretocável se deu ainda no primeiro tempo, quando eu recebi um cruzamento da lateral, matei a bola no peito e fiz um golaço, de voleio, no ângulo esquerdo do goleiro. Ninguém acreditou quando o juiz, aliás o árbitro, aliás o meu pai anulou o meu gol. Com a mão espalmada acima da cabeça ele apitou anunciando que eu teria ajeitado a bola com o braço e não com o peito e, por isso, o gol era inválido. É claro que todo o time foi reclamar, inclusive eu.

O fato é que – depois eu pensei no lance – meu pai estava posicionado atrás de mim. Naquele ângulo ele não conseguia ver a bola, tampouco o meu braço nela. Apenas sugerido e influenciado pelo meu movimento de corpo, ele achou que a bola bateu na minha mão, ou no braço, avaliando ainda a maneira como a redonda ficou “na pinta” para que eu arrematasse a gol.

Enfim, não teve jeito. O gol estava anulado. Eu fiquei muito contrariado, fiz cara feia pro meu pai o resto do jogo e até disse que, se tivesse batido na mão eu ia assumir, admitir, mas nada.

Meu pai certamente ficou com aquela pulga atrás da orelha o jogo todo. Anulou um gol legal – e lindo – do próprio filho. Eu senti que ele tinha ficado mal com a possibilidade de ter errado, de não ter acreditado em mim. Pelo meu lado eu já estava pensando nas brincadeiras que eu ia fazer, o sarro que eu ia tirar dele no caminho pra casa, contando pra minha mãe, me referindo ao ocorrido no jogo.

Foi então que uma revelação aconteceu. Terminado o jogo, depois dos cumprimentos de todos saindo da quadra, o goleiro do time adversário veio andando e abraçou o meu pai. Eu estava longe, mas percebi que ele falou alguma coisa, fazendo um sinal tipo batendo com a mão no braço. Depois, ainda argumentando, fez uma expressão com o corpo produzindo um gesto de matar a bola no peito.

Na mesma hora o meu pai me procurou com os olhos, querendo saber onde eu estava na quadra. E foi nessa hora que eu percebi que ele tinha se convencido de que aquele gol foi legítimo. Ele não me disse nada sobre isso, tampouco contou a conversa com o goleiro. Mas eu senti que ele ficou abatido, que ele pensou que podia ter errado com qualquer outro jogador, enfim...

Alguns dias depois minha mãe, do nada, fez uma referência ao lance do gol anulado. Sutilmente, mas fez. E eu não percebi se ela queria saber como eu tinha levado aquilo ou se queria me dizer como meu pai estava se sentindo. Foi como se ela estivesse tateando um jeito de me fazer entender que ele queria se desculpar, e aí ela estava tentando pescar o quanto chateado eu tinha ficado com a decisão dele.

Hoje, quando eu relembro esse episódio, consigo ver os olhos do meu pai me procurando entre todos os jogadores, no momento em que soube, pelo goleiro adversário, que o gol foi correto. Por outro lado eu consigo entender perfeitamente o lado dele. Imagina o juiz dando validade a um gol no qual o jogador ajeita a bola com a mão? E ainda por cima se esse juiz é o pai do autor do gol? É a vergonha suprema! Mais do que isso, é deitar por terra a coisa mais valiosa para um árbitro: a sua legitimidade como tal.

Na minha memória ele estava errando contra o próprio filho e, por isso, sendo isento como todo árbitro deve ser, mesmo quando excede o limite da dúvida, justamente contra alguém que poderia ser o seu favorecido.

O tempo que eu fiquei chateado com aquele gol anulado é ínfimo diante do tempo em que eu passei a compreender e reconhecer a atitude do meu pai como certa, em todos os sentidos. Hoje não tenho a menor dúvida de que eu faria a mesma coisa.

Eu só me arrependo de não ter dito isso a ele, com todas as letras.

Meu pai nunca me ensinou nada.

Mas eu aprendi muito com ele.

Essa foi mais uma lição.

 

 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Prêmio

 

Feliz ganhador de um bolão premiado, meu amigo me mandou o canhoto da cota para que eu fosse em uma agência da Caixa receber a minha parte. Eu estava contente por ter ganho alguma vez na vida, coisa que eu achava que era só uma balela, pois que ninguém ganhava nesses concursos de apostas. Mas, ok, eu estava feliz mesmo sabendo que a minha cota era de impressionantes 112 Reais. Isso mesmo, R$ 112,00.

Já na entrada da agência, a moça me perguntou em qual setor eu ia, pra saber o tipo de senha de atendimento eu deveria receber. Quando eu falei do prêmio ela me disse um sonoro “ô, meu querido, parabéns então” e me deu o tíquete numerado.

Sentei na salinha de espera e nem demorou muito pra eu ser chamado. O atendente ouviu a minha solicitação e se apressou em me orientar.

– É um prêmio de aposta?

– Sim, de um bolão da Copa?

– Mega da Copa?

– Não exatamente. É uma aposta referente à primeira rodada da Copa do Mundo. A gente preenche com as seleções vencedoras dos jogos e pronto.

– E é uma aposta feita pela própria Caixa?

– Sim, este aqui é o meu canhoto referente à fração do prêmio.

O rapaz coçou a cabeça e rolou a sua cadeira até a mesa ao lado, levando o meu bilhete e mostrando à sua colega de trabalho. Ela digitou alguma coisa, conferiu a numeração do canhoto, digitou de novo, se afastou da mesa pra me olhar por cima do ombro do primeiro atendente e depois cochichou alguma coisa com ele.

– Olha, meu querido, – disse o rapaz voltando – esse prêmio só pode ser resgatado nas Lotéricas mesmo. Eles lá sabem melhor do que nós sobre os novos certames, as novas apostas que a Caixa cria ao longo do ano. Talvez seja melhor ir conferir se eles te pagam lá.

– Mas na Lotérica disseram que era só na Agência da Caixa.

– Quem disse isso?

– O meu amigo, o Flávio, que foi quem fez o jogo, o bolão.

A moça ao lado, que a tudo ouvia, levantou a mão e fez um sinal ao colega, mostrando dois dedos da mão. Ele então sorriu e voltou-se pra mim novamente.

– Olha só, você tem que ir aqui no segundo andar da agência. Lá é que tem os gerentes que podem resolver isso. A gente, do atendimento comum, não tem acesso à página da premiação e não temos como continuar com o processo, tá meu querido? Aqui ao lado tem uma escada e é logo no primeiro piso.

Bem, nem era algo tão complicado assim, e eu subi as escadas. No segundo andar, tudo vazio. Um monte de cadeiras numa ampla sala de espera, mas não havia ninguém sentado. Das quase dez mesas em redor, apenas duas estavam ocupadas. E foi pra uma delas que eu me dirigi.

– Bom dia. Eu estou com um bilhete de um bolão premiado e ali embaixo me mandaram vir aqui.

Os dois se entreolharam e me convidaram a sentar.

– De quanto é o prêmio?

– Ah, é 112 Reais.

– Mil?

– Não, 112 Reais, pouco mais que uma nota de 100. Na verdade uma de cem, uma de dez e uma de dois. Imagina, se fosse 112 mil eu estava rodopiando aqui com uma Pepsi na mão, distribuindo pra todo mundo.

Eles riram meio sem graça e eu avaliei que eles deviam preferir Coca-Cola. Mas, enfim, deixei pra lá. Contanto que eles pagassem, podiam beber até Sukita quente que pra mim estava tudo certo.

A moça me pediu o bilhete e eu entreguei. Ela olhou com atenção, depois conferiu o verso, esticou o braço pra ver em contraluz e depois chamou o colega pra ver também.

– Você conhece esse sorteio? É uma mega da Copa, eu acho – perguntou a moça ao rapaz.

– Não. Nunca vi esse tipo. Não é mega isso. É da primeira fase da Copa.

– Isso mesmo – eu disse animado pelo fato de o rapaz ter conhecido a aposta como tal.

– Mas, assim, preste atenção meu querido, a gente não tem autorização para esse pagamento. Tem uma colega nossa que sabe a senha e só ela tem acesso ao sistema de premiação. Então é ela que pode entrar no sistema e te pagar. O fato é que ela agora está no almoço. Então, depois das 14 horas, você pode voltar e falar diretamente com ela. Pode ser?

Eu disse que sim, meio automático. Claro que eu poderia voltar mais tarde. Mas o que me incomodava era que todo mundo ali tinha me chamado de querido, mas ninguém me pagou. Desde a moça da senha, os atendentes e depois os gerentes do segundo andar, todos me chamaram de querido. Legal isso, enfim, mas pagar que é bom, nada.

– Ok, então eu volto às duas da tarde. Obrigado.

Na saída, o guarda deu um enorme sorriso pra mim e fez um cumprimento com a mão na ponta do chapéu. Certamente ele devia achar que eu tinha recebido uma bolada de prêmio e, por algum motivo, resolveu me agradar. A moça da senha, por sua vez, recitou um longo “Vai com Deus e boa tarde”.

Somente duas horas depois, quando eu retornei, como combinado, e pedi outra senha, foi que eles fizeram cara de quem não estava entendendo nada. Provavelmente pensaram: ou esse sortudo ganhou de novo ou tem algum problema de memória, pois acabou de sair daqui e já está de volta? Eu, da minha parte, de cara fechada, passei direto pela porta giratória e fui atrás da famigerada mulher, que tinha a famigerada senha, pra pagar o famigerado prêmio.

– Ela já chegou do almoço. Só um minutinho – me disse a atendente do primeiro andar.

Um salto alto se anunciou sonoramente antes mesmo da pessoa que o calçava surgir no limite do corredor. Assim que ela me viu, me chamou à sua mesa.

Depois de mostrar novamente o bilhete, de explicar o teor da aposta, a Copa, o valor do prêmio, o meu time, meu peso e minha altura, e que eu gostava de Pepsi, ela começou a balançar a cabeça, digitando freneticamente atrás da tela do computador.

Olha, infelizmente eu não consigo fazer o pagamento. Na minha tela aqui, quando eu abro o pagamento e ponho o seu CPF o sistema não aceita. Dá uma mensagem que só é possível pagar para o senhor Flávio.

– Aliás, quem é esse Flávio?

– É o meu amigo que fez o jogo, o bolão, direto no site da Caixa.

– Ah, meu querido, então combina com ele e vão receber os dois juntos. Realmente, eu nunca tinha visto isso acontecer. Normalmente a gente paga com esse tíquete da cota, que é a fração do bolão. Mas essa aposta, da Copa, realmente é uma loteria nova e eu te peço mil desculpas pelo contratempo, meu querido. Sei que você esteve aqui mais cedo e teve que voltar agora e ainda por cima nem conseguiu receber o seu dinheiro. Realmente é muito chato isso.

– Mas pelo menos todo mundo me chamou de querido!

– Como? O quê?

– Ah, não. Nada. Eu só resmunguei uma coisa sem importância aqui comigo. Então obrigado. Vou indo.

 

 

Uma semana depois eu soube que o Flávio também não conseguiu receber o dinheiro na Caixa. A solução foi a gente fazer outro jogo e usar aquele “crédito” em uma outra aposta.

Fizemos outro jogo.

Juntos.

E perdemos.

Fim.

Mas valeu a crônica.

Queridos!

 

 


quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Toca-Fitas

 

Muitos contadores de histórias têm iniciado as suas narrativas sublinhando que, sim, houve um tempo em que não havia computador, o que, a cada dia, parece mais inacreditável.

No tempo dessa minha história não só não tinha computador, como também não existia CD, celular, internet, Deezer e afins. Dito isto, vamos à crônica.

Eu tinha acabado de comprar um Fiat 147 amarelo com apenas dois anos de uso. Estava novinho o carro, que ganhou o apelido de Duca. Eu já tinha me conformado de que, com o financiamento que eu precisei fazer, eu ia ficar sem grana pra botar um som legal nele. Mas, tranquilo, ia ficar só no radinho básico mesmo, até que as coisas melhorassem.

Para minha surpresa, meu pai um dia me chamou pra ir numa loja que ele conhecia, só pra ver os preços dos toca-fitas, que era o som que eu almejava desde sempre. Chegando lá o atendente trouxe um monte de modelos de toca-fitas. Com amplificador acoplado, com sistema reverso, que virava o lado da fita automaticamente e outros tantos com botões de variados formatos, luzes e potências imagináveis.

Num certo ponto meu pai revelou que ia comprar o aparelho de presente pra mim e, ali mesmo, já combinou a instalação, que antigamente consistia em um trilho, chamado de bandeja, que ficava logo abaixo do painel. Neste trilho era onde o toca-fitas encaixava, tipo uma gaveta.

Enquanto o rapaz passava uma quantidade infinita de fios coloridos, fitas isolantes e apertava os parafusos de fixação, no box de instalação estava tocando músicas do James Taylor. Uma atrás da outra. Algumas eu conhecia e meu pai sabia que eu gostava muito – e ainda gosto – das composições do músico.

Pra ir testando os alto-falantes, conforme iam sendo ligados os fios, o instalador foi lá no console da bancada buscar justamente a fita do James Taylor. Foi uma coisa linda aquilo. Um som bacana daqueles, no meu carro, e ainda por cima tocando James Taylor? O que mais eu podia querer da vida?

A cada caixa de som ligada ele mexia nos controles e isolava o som pra ter certeza de que estava funcionando corretamente. E foi assim com cada uma das quatro etapas, quando ele ligou as caixas das duas portas e depois outras duas, que ficavam na tela que cobria o porta-malas. Eu só olhava pro meu pai e ia agradecendo o presente maravilhoso que estava ganhando. Ele, por sua vez, me via cantando, acompanhando a música e só ria.

Quando terminou toda a instalação o eletricista veio mostrar o trabalho feito e ainda deu umas dicas de funcionamento do toca-fitas. Primeiro mostrou os botões, os controles, as teclas frontais e inclusive alertou para o fato de que não precisava virar o lado da fita, pois que contava com um mecanismo automático.

Enquanto ele recolhia todo o material e as ferramentas, a gente foi no caixa fazer o pagamento. Meu pai deu uma parte em dinheiro e outras, acho que duas, em cheques pré-datados que, aliás, é uma outra coisa que existiu lá atrás, no tempo do toca-fitas.

A gente saiu da loja com um sonzaço no carro. Fomos pela rua que margeia a linha do trem, passamos pela Estação de Ramos, depois Bonsucesso e íamos seguindo pelo caminho até a nossa casa.

Como eu não tinha levado nenhuma fita cassete, até porque não tinha ideia dos planos do meu pai naquela manhã, eu disse que chegando em casa ia pegar umas fitas pra ver se tinha aprendido tudo o que o técnico da loja tinha explicado, manejar os botões do aparelho etc.

Foi então que meu pai tirou do bolso uma fita cassete e me deu, pedindo pra botar pra tocar. Assim que começou os primeiros acordes da gravação eu olhei pra ele sem acreditar. Era a fita do James Taylor que estava tocando na loja.

– O garoto lá não quis vender essa fita aí de jeito nenhum. Mas eu acabei convencendo o seu coraçãozinho de filho e ele topou. Agora sim, o serviço está completo.

Eu não sabia que era possível dirigir com os olhos cheios d’água. Mas nessa hora o James Taylor me ajudou um bocado. Meu pai, todo orgulhoso, botou o cotovelo na janela do carro e foi sorrindo até chegar em casa, mal cabendo em si.

 

Muitos anos depois desse dia memorável, eu tinha chegado ao Rio e meu filho Deco foi me buscar no aeroporto. Disse que tinha uma surpresa. Assim que descemos até o estacionamento ele mostrou o seu carro novo. Não era só um carro. Era um automóvel. Com todas as letras. De uma marca sul-coreana recém chegada ao país, o painel mais parecia o de um Boeing, todo aceso de azul e verde, cheio de botões e tinha ainda uma tela que mostrava o nome da música que estava tocando, além de uma infinidade de opções que eu mal pude entender, assim de pronto.

Mas o melhor estava por vir. Quando começamos a andar, saindo do estacionamento e pegando a estrada pra casa, ele disse “escuta só”. Aí clicou num botão qualquer e logo começou a tocar James Taylor.

O bom e velho James Taylor.

Eu mal cabia em mim.

Apoiei o cotovelo na janela e fui cantando todo o trajeto.

Assim como fez meu pai, meu filho só ria.

 

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

A Roupa

 

Eu passei em frente ao quarto da minha mãe e vi que ela estava dobrando umas roupas e botando em cima da cama. Fazia isso com todo o esmero, quase que acariciando as peças e também ia separando por tipo e tamanho pra depois botar na gaveta.

Com um pouco mais de atenção eu percebi que eram roupas do meu pai que ela arrumava. Então aquela cena passou a ter um outro significado pra mim.

É que meu pai estava no hospital naqueles dias. Com o diagnóstico de princípio de pneumonia, o médico preferiu recomendar uns dias de internação pra ter segurança no tratamento. Como não era nada grave a alta estava prevista para o próximo final da semana.

Eu entrei no quarto na intenção de puxar papo com a minha mãe. Na verdade eu queria medir, sentir se ela estava triste ou preocupada com o estado de saúde do marido. Mas logo ela começou a falar de música, se eu sabia tocar uma tal canção e eu logo entendi que estava tudo bem. Enquanto a gente conversava, ela continuava a dobrar as roupas, deixando as gavetas de cima para as que ele usava em casa e as demais para as peças que ele usava pra sair, que eram mais novas e bonitas.

A memória desse dia me traz uma sensação de paz e cuidado. Penso que provavelmente ela cuidava das nossas roupas, minhas e dos meus irmãos, com a mesma dedicação e zelo e a gente só se dava conta, quando dava, ao buscar uma camisa ou bermuda ali na gaveta, arrumadinha e com cheirinho de amaciante.

Hoje eu vejo que a mesma coisa acontecia com as nossas refeições, ou seja, a gente só via o produto final, a comida cheirosa na mesa, e não tinha ideia de todo o trabalho que dava ou do que era feito antes de aquela cena se apresentar na frente dos nossos olhos. A roupa, a comida, a limpeza da casa e da louça, os nossos horários de escola, o material, tudo aquilo chegava pra gente prontinho, preparado por alguém que fazia tudo por nós.

Semana passada, em casa, eu passei no corredor e vi, em cima da minha cama, uma pequena pilha de roupa dobrada. Eu mesmo tinha dobrado, mas assim que vi fiquei parado ali, olhando, e pensando que minha mãe, pelas minhas mãos ou pelos seus ensinamentos, estava ali presente, me mostrando como cuidar das coisas. Pois eu tinha feito do mesmo jeito que ela fazia, enfim.

No fundo eu gosto quando acontece alguma coisa, assim parecida, que me faz lembrar dela, que me faz sentir a presença da minha mãe por perto, ao redor, como uma luz, um farol que mostra o caminho. Lembro que à noite, em certas ocasiões, quando a gente andava de braços dados pela calçada, conforme a gente passava na frente dos prédios, as luzes se acendiam com a nossa presença, acionadas pelos sensores de movimento das portarias. A gente até sabia o que era, mas ríamos assim mesmo, pensando que um ser supremo ia acompanhado e iluminando, lá de cima, a nossa caminhada.

Então, relembrando daquele dia na casa dela, eu acebei por me distrair com as horas e só fui sair de casa no final da tarde. Atravessei a rua e fui beirando a ciclovia que, sinuosamente, acompanha o passeio. Esse bulevar possui postes de led pequenos, instalados, principalmente, para iluminar a ciclovia, sendo que as suas luzes são bem brilhantes, e cuidam de realçar a pista avermelhada das bicicletas.

À minha aproximação, o primeiro poste, ao meu lado, se acendeu de repente. Eu até me assustei. Depois outro e outro, e mais adiante eu virava pra trás e via que todos estavam iluminados, restando acender somente os que estavam à minha frente, como se estivessem me esperando passar. Era fim de tarde, a noite estava chegando e os sensores, automaticamente, acionavam a iluminação pública, como fazem diariamente.

Claro que eu ri, junto com a minha mãe.

Onde quer que ela esteja.

E ela deve estar pensando que essas luzes de led são mesmo lindas.

 

 


quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Mochila e o Folgado


Foi muito estranho perceber aquele rapaz sentado no banco da pracinha e todo mundo olhando pra ele. Parecia que estava sendo vigiado. Ele, especificamente não, mas a mochila de duas cores que estava ao seu lado.

Da calçada oposta, o meu vizinho, me vendo parado ali, me contou que alguém tinha esquecido uma mochila, bem bonita, no banco da praça. As pessoas estavam à espera de que o dono aparecesse em breve e, nesse ínterim, chegou o tal rapaz e se sentou ao lado da mochila.

Ninguém verbalizou, mas o pensamento de todos era que o rapaz ia simplesmente roubar a mochila. E eles estavam tentando evitar que isso acontecesse, o que explicava (?) aqueles mil olhos no entorno do banco da praça. Mil olhos na mochila e outros mil no rapaz, com sua aparência simples, o que para a maioria dos “homens e mulheres de bem” já é motivo de preocupação.

Até que surge uma moça, com roupas de academia, correndo ao atravessar a rua. De longe ela fez sinal para o rapaz e a gente entendeu prontamente que era a dona da mochila. Ela chegou esbaforida e deu-se um diálogo inusitado.

– Ô amigo, essa mochila é minha. Eu sentei aqui pra atender o telefone e depois de desligar saí direto pra academia sem levar a bolsa. Estava no meio da malhação e, de repente, me dei conta que tinha esquecido e larguei tudo lá.

– A senhora deu muita sorte, viu? Eu estava passando e vi a mochila largada aqui e pensei na hora que alguém tinha esquecido. Aí sentei aqui e disse pra mim mesmo que só sairia quando o dono chegasse pra buscar. Sei lá, esse pessoal aí podia roubar, né?

– Ah, sim. Poxa obrigado por ter ficado de guarda aqui. Você quer alguma coisa? Um trocado? Eu faço questão.

– Olha moça, eu até estou precisando, sim. Mas se a senhora me der algum dinheiro aqui, com toda essa gente olhando, eles vão pensar que foi eu que exigi algo, sabe? E eu queria só devolver pro dono mesmo, no caso a dona, a senhora.

– Vamos ali na academia que lá eu te dou um trocado. Aí ninguém vai ver. Tá certo assim?

Eu não sei se foi uma boa opção aquele acerto dos dois. Se ela tivesse dado um dinheirinho pro rapaz, não ia parecer tão estranho como foi vê-la sair andando com o rapaz e ir conversando como se fossem velhos amigos. As pessoas que estavam desde o início da história, quando a mochila ainda estava sozinha no banco, balançavam a cabeça em sinal de desaprovação e por pouco não intercederam com ela nesse momento.

A história acabaria aí. Os dois tomando o mesmo caminho da academia, enquanto a plateia, cada qual  com sua preocupação, seguia a vida, torcendo pra que a moça ficasse bem, inclusive eu.

Só mais tarde, quando voltei pra casa, é que eu soube do restante da história. De tanto a dona da mochila insistir com o rapaz, ele disse que não queria dinheiro, mas que se ela quisesse poderia comprar um pacote de salsicha pra ele ali no mercado. Salsicha? – ela teria perguntado. E ele: sim. Mas como você vai cozinhar? – ela devolveu. E ele: o meu amigo trabalha num lava-carro e a gente tem um fogãozinho lá. Eu vou levar a salsicha, a gente compra um pãozinho e almoça lá mesmo.

A moça da portaria do meu prédio ria alto enquanto finalizava a história da mochila para os outros moradores ao redor dela. E todos se surpreenderam com aquele final. Veja você, um pacote de salsicha – disse um vizinho com o cachorro no colo.

 

***********

 

Eu estava andando ao lado da ciclovia e, de longe, podia ver um sujeito baixinho que interpelava todo mundo que passava. O sujeito trazia um sanduíche em uma das mãos e, na outra, uma lata de refrigerante. Ele andava de um lado pro outro, na calçada, quase que entrando na frente das pessoas pra poder interagir.

Eu já estava até me preparando pra ser convidado a contribuir com um trocado, quando chegasse mais perto. Contudo, no fundo, me confundia o fato de ele já estar com uma comida e uma bebida nas mãos. O que mais ele vai pedir, gente? Eu pensava enquanto tentava decifrar o homem.

Pelo gesto dele, entendi que o pedido era “um Real”. Simplesmente ele pedia um Real. Então, tá ok.

Mas na minha frente, caminhando no mesmo sentido, iam um homem e uma mulher, ambos vestindo um mesmo uniforme de trabalho, de calças e camisas da mesma cor. E tinham uma logomarca nas costas.

Quando chegaram perto do pedinte eu já estava a uma certa distância, curta, que dava pra ouvir o diálogo deles. E outra vez uma tirada surpreendente e galhofeira aconteceu.

– Aí, meu irmão, tudo bem? Tem um Real? Só um Real? Tem aí?

O sujeito parou junto com a mulher e foi apalpando os bolsos das calças e depois da camisa. Enquanto verificava ele respondeu:

– Ô amigo, peraí um pouco. Olha, eu acho que um Real eu até consigo?

– Então me dá dois!

Paralisados, pelo inusitado, todos nós que ouvimos essa resposta peculiar e bem-humorada caímos na risada. Ao mesmo tempo, alguém poderia pensar que tudo poderia ser levado para o lado da petulância, do atrevimento. Mas, sei lá, a agilidade dele na resposta e o jeito simplório como ele falou pegaram a todos nós de surpresa.

Ele continuava comendo o seu sanduiche e tomando o refrigerante no maior astral.

Daí, o surpreendente.

Que nos fez rir.

 



sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Macho

 

No meio do calçadão, no entorno da feirinha de produtores familiares, dois homens em situação de rua captavam a atenção de todos pra uma briga que prometia, pra logo, ser levada às vias de fato. Ambos estavam atravessando a feira em direção à esquina e cada um levava vários objetos amontoados, sendo que os cobertores eram os mais visíveis.

Eu só consegui entender o que eles falavam quando passaram por mim, no limiar da feirinha.

– Eu falei pra ele que não mexesse nas minhas coisas. Ele sabia que aquilo era meu.

– Mas você viu ele mexer?

– Não, mas hoje não estava lá. Então só pode ser aquele um.

Como esse diálogo era feito em um tom elevado, parecendo uma briga, as pessoas paravam e ficavam olhando, medindo pra ver quem tinha razão naquela treta do meio da rua.

– Eu só digo é isso: eu sou homem, não aceito isso não. Sou macho e comigo tem que ser olho no olho, resolver como homem. Eu sei que ele está fugindo de mim. Mas eu sou muito homem e vou pegar ele. Você pode esperar.

– Eu sei. Você tem razão. Mas tenha calma – disse o outro que tentava apaziguar.

Eles andaram mais um pouco e depois pararam de novo pra discutir mais.

– Eu conheço ele. Não vale nada aquele cara. Mas comigo ele vai se danar todinho. Ele não sabe com quem está se metendo. Ele vai aprender a respeitar um macho. Porque eu sou macho.

Eu estava em uma das barracas, comprando uma geleia de abacaxi. Com a maquininha de pagamento na mão, o vendedor me perguntava se eu sabia do que eles estavam falando.

– O que o outro sujeito roubou dele? Você sabe?

– Não. Eu não entendo muito bem o que eles falam.

– Não foi um boné? – respondeu uma senhora ao meu lado – Eu achei que ele tinha dito que o colega dele tinha roubado o boné.

Ficamos os três ali tentando pinçar alguma outra informação, mas era em vão.

Dali a pouco o silêncio voltou a ser quebrado e a treta dos dois veio com mais força.

– Eu só digo é que ele vai se ver comigo.

– Deixa pra lá, rapaz.

– Isso é que não. Eu sou homem, sou macho mesmo. Eu sei onde ele dorme. É ali perto da marquise da Rua Pinto. Eu sei onde ele fica. Ele vai dormir e eu vou jogar ácido muriático na cabeça dele. Deixa ele só. Eu sei onde ele dorme.

– Pra quê isso, homem?

– Não. É assim. As coisas comigo são assim. Ele vai dormir ali, que eu sei onde é, e eu vou jogar gasolina nele. Na cabeça dele. Ele vai dormir. Ali na marquise, onde ele fica. Quero ver se ele vai se meter comigo de novo. Eu sou macho. Sou homem. Resolvo as coisas na hora.

De repente, a voz de um rapaz surgiu do nada e veio se intrometer na treta particular dos dois, o que surpreendeu todo mundo ali da feirinha. A frase foi firme, embora o que ele disse tenha boa carga pra vir a parecer piada.

– Ô meu, se tu é mesmo macho, assim como tá falando, bradando aos quatro ventos, por que então não encara ele acordado mesmo? Tu é macho, então encara o outro, meu. Não espera ele dormir pra atacar não. Chama pra porrada e resolve logo isso. É assim que macho resolve, pô! Tu vai jogar ácido no cara quando ele estiver dormindo? E isso lá é coisa de macho?

Num instante a feirinha parecia um balé ou algo ensaiado. Todas as pessoas se virando pro rapaz e depois de ouvir o que ele disse, se virando de novo pro homem, pra esperar a resposta dele. Uma pena que ninguém tenha filmado aquilo. (Ok, filmado é força de expressão e ainda entrega a minha idade. Mas, vá lá, não tinha ninguém pra gravar com o celular. Melhor assim.)

O fato é que o tal sujeito, o macho, nem respondeu. Catou as coisas que tinham caído dos braços durante a discussão e foi pra esquina apoiado no parceiro, que sorriu escondido pra não perder o amigo.

O rapaz veio na direção da feirinha e passou pela barraquinha onde eu estava. A senhora que comprava ao meu lado ficou só olhando o caminhar dele, se aproximando, e disse:

– Num instante a briga acabou, né? Você tem toda a razão, meu filho. Muito certo o que você disse pra ele. Se ele é macho, como diz, que encare o outro e não resolva tudo com uma tocaia, uma cilada. Isso não é coisa de homem, definitivamente não. Na verdade, vou te dizer o seguinte: Tu é que foi o macho, ali. Vai com Deus, meu querido. E tenha um bom dia.

Por um triz o povo da feirinha não aplaudiu o rapaz e a senhora que deu fé ao garoto.

Por um triz.

  

Tem vezes que eu me ponho atento pra fisgar alguma história do cotidiano, boa o suficiente pra virar crônica. Às vezes, entretanto, são as histórias que me fisgam. Principalmente as insólitas. A sensação é de que elas me esperam, me espreitam, pra se oferecerem sem qualquer modéstia.

 

 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

O Remédio

 

Assim que eu entrei na farmácia, vindo do dentista, já percebi um certo burburinho no ar. Parecia uma discussão. Contida, porém generalizada. As vozes se alternavam e o silêncio, quando surgia, causava uma certa pausa reflexiva, apta a eleger um argumento como definitivo, coisa que não existe em um diálogo como aquele.

A princípio, o senhor reclamava da demora em ser atendido. Toda hora ele olhava a sua senha e depois mirava o painel, balançando a cabeça em desaprovação. O amigo, tentando acalmá-lo, dizia que naquele horário era assim mesmo, as pessoas saindo do trabalho e tal, era normal.

– Não, isso acontece por que nós somos um povo doente. A quantidade de farmácias aqui no Centro nos diz exatamente isso: nós somos doentes. Olha em volta. Em cada esquina tem uma farmácia. Tem farmácia uma ao lado da outra. E são enormes. Algumas parecem verdadeiros supermercados.

– Falando nisso, você trouxe a receita médica? – disse o amigo, segurando uma sacola.

O outro nem respondeu. Apenas bateu com os dedos no bolso da camisa, indicando a ponta de uma folha de papel, e novamente reclamou de alguma coisa que eu não consegui perceber.

Duas chamadas depois, com cada um olhando o seu número e conferindo no visor do alto da farmácia, o homem voltou com sua lamúria.

– Agora temos essa alta na gasolina. Não faltava mais nada pra esse governo, que resolve aumentar tudo, e que se dane todos nós. Na feira, outro dia, a gente tinha de escolher o que levar e o que substituir, por causa dos preços. E nem falo da carne.

– Mas isso é por causa da guerra lá no Irã. Os navios não conseguem transportar o petróleo e aí, quando começa a faltar, vêm os aumentos. Não tem jeito, o petróleo faz tudo ficar mais caro. Tá assim no mundo todo.

– É, mas se fosse um governo de verdade ele saberia o que fazer pra não aumentar o custo de vida. Sendo pelo petróleo ou não, a meta deveria ser ajudar a população, custear e auxiliar os mais pobres, principalmente os aposentados, como nós.

– Eu discordo, meu amigo. Nem tudo é culpa do governo.

– Tudo é culpa do governo, sim. Um governo que não olha pra quem precisa, que não cuida da saúde do brasileiro.

A moça repetiu o número estampado no monitor e o nosso amigo levantou a mão, mostrando a sua senha. Minha vez, ele disse, pegando o amigo pelo pulso e levando com ele até o balcão.

– Boa tarde, senhor. Eu só preciso da receita e de um documento seu.

– Documento? Pra comprar agora precisa mostrar documento? – disse contrariado.

– Sim, por favor. No seu caso, sim.

Enquanto ela se dirigia para os fundos da farmácia, levando a receita e o documento do homem, uma nova saraivada de comentários rudes era proferida em modo de palanque. As pessoas em volta evitavam o menor contato visual com o senhor, para não ter que se envolver com aquela situação. Se ele reclamava de tudo, paciência. Eu é que não ia bater boca com gente assim, pensávamos todos nós em conjunto.

– O dólar só faz subir e o Real cada vez pior, desvalorizando. Veja você, agora vem a Copa do Mundo. Quantos milhões o governo não vai gastar pra mandar esse monte de gente pra lá? Tudo em dólar. E não é só jogador, não. É equipe técnica, médicos e preparadores físicos, hospedagem pra todo mundo, comida. Nossa senhora, ainda bem que tem eleição esse ano. Enfim, tudo isso junto e ainda tem os remédios, a saúde em geral. Eles não fazem nada de bom. Nada.

Quando o amigo ia responder, surge a atendente retornando ao balcão.

– Está aqui, senhor. O seu documento e os seus remédios. A receita vai ficar retida aqui com a gente, como manda o protocolo.

– Ah, sim. Obrigado. Onde fica o caixa?

– Não. Não tem que pagar nada, os seus remédios são de graça.

– Como assim? Não vou pagar?

– Não. O senhor não é paciente do SUS? Então, aqui é uma Farmácia Popular. Para o cidadão inscrito no SUS o governo paga os remédios porque é um programa federal, do governo federal, entende?

O amigo do rabugento, morrendo de vergonha, tratou logo de tirar o homem dali. Em poucos segundos já estava novamente de braço dado com ele, puxando o coitado pra fora da drogaria.

Me lembro bem que, naquela farmácia, pelos próximos cinco minutos, ninguém e nada se mexeu. O painel não chamou um novo número, nenhuma outra senha foi sacada, o caixa não recebeu um único pagamento, nem deu troco, e nenhum atendente entregou o remédio ao cliente.

É que todos estavam acompanhando a cena silenciosa dos dois homens ganhando a calçada e voltando a cultivar a sua ranzinzice, a sua intolerância em ano de eleição.

Curioso foi constatar que até a minha dor de dente passou!

 

 



quarta-feira, 29 de abril de 2026

O Acidente

 

Foi uma grande surpresa quando a Fabiana falou que tinha um irmão. Não que eu a conhecesse assim tão bem, tampouco tivesse a sorte de ter estudado violão na mesma escola que ela. Na verdade, nós tínhamos amigos em comum e, na maioria das vezes, a gente se encontrava antes ou depois de alguma apresentação sua. Poucas vezes, também, acontecia de uma esticada depois dos shows acabar lá em casa. Aí era mesmo um evento. Ela tocava mais descontraída, falava dos autores e das composições e, às vezes, no meio de alguma conversa lembrava de outro trecho e saía tocando, como se estivesse mostrando uma foto no celular.

A revelação do irmão passou despercebida no início, mas logo ela disse o nome dele e contou alguma coisa que se tornou interessante pelo final da narrativa. Disse ela que o causo que contava tinha sido bem antes do acidente. Uma parte dos amigos ficou esperando a continuação da conversa. Outra tratou logo de pedir mais detalhes, sublinhando o que eu também estava a ponto de perguntar, ou seja, que a gente nem sabia da existência do tal irmão.

A violonista então pôs o instrumento no colo, abraçando-o em sentido vertical e, por vezes, apoiando a cabeça no seu bojo, enquanto falava.

– Sim, o Fep é uma figura. Um amigo que Deus e meus pais me deram. Ele é dois anos mais novo que eu e a gente está sempre junto. É verdade que nem sempre foi assim, pois ele é um sujeito de duas vidas. E essas podem ser divididas em antes e depois do acidente.

Alguém quis confirmar o nome do irmão e ela disse que era por causa do seu nome completo, cujas iniciais eram F, E e P, e isso virou uma sigla, FEP, apelido que os mais próximos lhe atribuíram num certo momento e que ficou desde então.

– Ele sempre foi um sujeito bonito – continuou ela. – Desde muito cedo chamava a atenção onde quer que estivesse. Também é muito inteligente, se vestia sempre bem e jogava vôlei e futebol na escola. Era um cara do tipo popular, que fazia muito sucesso com as meninas, as namoradas e tal. Mas o que essa aparência e esse jeito expansivo escondiam é que ele era uma pessoa ruim. E eu digo isso com muito pesar.

– Como assim, ruim? – alguém perguntou.

– Era um rapaz cheio de si, arrogante mesmo, que não respeitava ninguém, que tripudiava das namoradas, fazia bullying com as pessoas antes mesmo de existir esse nome, mal-educado, cheio de soberba e presunção. Enfim, um crápula, um inescrupuloso, que muitas pessoas evitavam o simples convívio, tratando de erguer um muro de segurança entre si e aquele arremedo de homem.

As pessoas se entreolharam com uma certa inquietação, mas logo ela retomou.

– Não pensem que estou exagerando nas minhas adjetivações. Falar do próprio irmão é dolorido. Mas não faço isso senão pra dar a vocês a ideia exata do perfil que quero demonstrar. Ele é meu irmão, mas nessa época a gente não tinha a menor alegria com a perspectiva do homem que ele se tornaria na idade madura. A gente da família tentava de tudo, mas era uma decepção atrás da outra, em cada gesto que se pretendia trazê-lo de volta à natureza humana. A nossa mãe colecionava desgosto com o comportamento do Fep, essa que é a verdade.

– Nossa, que situação triste. Mas e depois? O que aconteceu?

– Pois é, aconteceu o acidente. Simples assim. Voltando pra casa de madrugada, sozinho no carro, provavelmente alcoolizado, ele bateu em uma árvore, perto do Maracanã, e o carro caiu dentro do valão que tem ali, acho que é o Rio Maracanã mesmo, e ele ficou preso um tempão, até ser resgatado. O resultado foi que ele perdeu a sensibilidade corporal da cintura pra baixo, ficando paraplégico.

– E foi então que a vida dele mudou?

– Isso. Foi aí que eu ganhei um irmão de verdade. Ele não teve qualquer sequela neurológica. Nada, além das pernas, e de ter que ficar em uma cadeira de rodas pro resto da vida, nada explica a mudança de comportamento que ele teve dali pra frente. Foi uma surpresa pra todo mundo da família, os amigos, as namoradas, a vizinhança, os trabalhadores do nosso prédio, todos os que o conheceram faziam questão de mostrar a alegria pela nova pessoa que o Fep se transformou. Minha mãe foi quem esteve com ele o tempo todo no hospital. Depois de sair do coma ela já nos dizia que ele estava diferente, que se mostrava atencioso não só com ela, mas também com o pai e comigo. Pedia informações sobre os amigos e tudo, ou seja, uma postura bem diferente, como ela contava. Mais tarde, com as visitas e a volta pra casa é que a gente pôde constatar tudo o que a mãe já tinha alertado desde a internação.

A gente ali, ouvindo aquilo, tentava entender o alcance daquela transformação. E a Fabiana continuou, agora acariciando o braço do violão.

– Meu irmão hoje é um sujeito querido por todo mundo. Depois do acidente ele virou gente boa, do nada. Amigo, um cara sensível e disponível, fraternal e afetivo. Mudou completamente. Quase todos os seus detratores, adversários, pessoas que nutriam por ele verdadeira antipatia, passaram a ser seus amigos. As ex-namoradas, cujas experiências invariavelmente tinham sido marcadas por grande aversão e decepção, quando vinham conhecer o “novo Fep” saíam lá de casa comovidas e renovadas com a perspectiva de amizade e cheias de afeto por aquele rapaz. É uma outra pessoa, diziam.

Ela fez uma pausa e retomou.

– Mais tarde, quando ele começou a dirigir, uma vez parou no sinal e uma amiga, que ele não via há muito tempo, parou ao lado. Ele baixou o vidro e acenou. Quando ela o viu fechou a cara e se manteve imóvel, olhando pra frente até o sinal abrir. De noite, já em casa, ele recebeu uma ligação dela. Disse que comentando com uma amiga, foi informada do acidente e pediu desculpas por não ter falado com ele no trânsito. Também perguntou se podia visitá-lo qualquer dia, alertando que talvez precisasse de um tempo até juntar coragem para estar de novo frente a frente com ele, depois de tudo o que tinha passado no colégio. Enquanto ele nos contava isso tudo, balançou a cabeça e disse risonho: “Olha, mãe, ainda bem que eu não morri dentro daquele carro. Esse monte de gente me odiando assim, eu ia parar era nos braços do capeta, com toda a certeza.” Então eu e a mãe nos olhamos e começamos a rir junto com ele.

Quando empunhou novamente o violão, Fabiana parecia lembrar da fisionomia do irmão e, como num filme, talvez conseguisse rever tudo o que acabava de nos contar. Então, depois de um breve suspiro, a violonista anunciou que ia tocar uma peça de João Pernambuco.

– Som de Carrilhões. Que meu querido irmãozinho adora me ouvir tocar.

 

 


terça-feira, 14 de abril de 2026

A Batata

 

Na paradisíaca Ilha de Itaparica tinha um condomínio paradisíaco, na localidade de Vera Cruz. Na entrada deste, havia um campo de futebol. Só pra mostrar como o campo era paradisíaco, tal como a Ilha, não era permitido jogar calçado, nem de tênis e muito menos chuteiras. A gente usava meia ou então aquelas tornozeleiras elásticas, feitas de tecido emborrachado, do tipo que se usa pra jogar futevôlei.

Por pura escassez de jogadores, eu fui convidado a completar um time do campeonato que se ia iniciar e que tomaria o ano todo. Pelo menos o verão todo. Ou seja, em termos baianos, ia começar em maio e acabar em dezembro. O verão todo, claro!

Se tem uma coisa que baiano gosta é de assistir futebol. Se o jogo é bom, ele vê porque é bem jogado. Se é ruim, ele vê pra dar risada e fazer piada com os “peba” que singram, eventualmente, em um gramado paradisíaco, como já dito. E tinha era gente vendo aquelas peladas. Todo fim de semana. Não sei se era só gente do condomínio, mas parecia, pela quantidade, que até o povo da Ponta de Areia e lá de Caixa Pregos estavam em peso. Era gente em cima dos muros, nas árvores e em toda a volta do campo.

Eu tinha então 30 anos, quase a metade do que a maioria ali dizia ter. Talvez por essa razão eles me chamavam de Esse Menino. Uns diziam que era porque meu nome era muito complicado. Alguns até me apelidaram de Antônio. Desde que eles passassem a bola pra mim, podiam me chamar de qualquer coisa, até de Daniela Mercury, a menina de roupa metálica que cantava no Trio Paes Mendonça e ninguém ainda conhecia direito.

Rolou a bola. Tudo organizadinho, camisas dos times, juiz e bandeirinhas, mesa pra anotar os cartões e as faltas e até gandulas. Estes saíam desembestados atrás da pelota e travavam uma pequena batalha com os meninos menores, que corriam muito mais que eles.

A uma certa altura, um dos jogadores do time adversário fez um gesto pra mim, com as mãos, apontando pro lado do campo. Eu não entendi nada, mas fiquei na minha, atento ao jogo. Ele repetiu o gesto outra vez e eu apontei pro ouvido, pra dizer que não tinha decifrado a mensagem ou escutado.

Só depois de alguns minutos, quando teve um escanteio na nossa área, foi que ele chegou perto de mim e disse:

– Tem batata ali, tá vendo? – depois correu pra lateral meio rindo de mim.

Mas que porra de batata esse guri tá falando? Fiquei pensando em alguma coisa que fizesse sentido, mas nada me vinha à mente. Eu olhava pros lados, tentando ver alguma batata, ou seria batata-frita, ou seria o apelido de alguém...

– Que batata? – perguntei uma hora que a bola saiu.

Aí foi a vez dele fazer sinal, mostrando que não entendeu o que eu perguntei. Pôs o dedo apontando pro ouvido e tudo. Eu já achei que ele estava era me imitando e que o causo era só uma idiotice dele ou algo pra me tirar a atenção do jogo. Mas eu não ia cair nessa. Não mesmo.

Outra vez ele fez o sinal, disse alguma coisa, apontou pra lateral e riu. Eu balancei a cabeça e até perguntei pra um jogador do meu time:

– Que bosta esse cara tá falando de batata?

– O quê – respondeu o meu zagueiro.

– Aquele baixinho ali. Tá falando que tem alguma batata ali do lado de fora. Você sabe o que é?

– Barata? Cara, aqui não tem barata nenhuma. Pode ficar tranquilo.

Ai, caceta. Pior do que um sujeito não entender, são dois sujeitos não entenderem. Melhor deixar essa bodega pra lá. Esse sujeito deve ser um doido varrido, falando em batata no meio do jogo.

Gol do meu time. Cruzamento na área e o goleiro aceitou. Maravilha. Talvez eu tenha ouvido fogos. Não posso jurar. Mas, sim, acho que teve.

Depois do gol o jogo mudou. Começou a rolar umas pancadas dignas de um Grenal. Era sola, solavanco, sopapo e safanão, tudo na mesma jogada, que o juiz mal conseguia manter a calma pra apartar os ânimos. Os cartões rolaram soltos de parte a parte. Eu já estava me preparando pra levar bordoada assim que a bola estivesse comigo, e tratava de passar rápido pra outro jogador.

Então veio uma falta na entrada da área. Nosso time se juntou pra combinar a batida e um dos atacantes deu a ideia de uma jogada que podia surpreender a defesa adversária.

– Você toca pro lado da barreira – disse apontando o centroavante – Aí, Esse Menino (eu) finge que vai cruzar e chuta direto pro gol. O geleiro vai sair pra cortar o cruzamento e a bola vai no gol. Vamooos.

Todo o time se posicionou pra execução da jogada combinada. Eu ali, nervoso, não podia errar o chute, nem a direção. Mesmo que o goleiro pegasse, tudo bem, eu só não poderia isolar ou dar um balão mequetrefe pra fora do condomínio. Pelo menos na direção do gol tinha que ser.

A bola veio e eu chutei. No mesmo instante em que ela tocou a trave, com o goleiro voando de lado, plasticamente, um caminhão passava por cima de mim. Dois volantes de contenção, querendo travar o meu chute, acabaram por me travar. Só a mim. Eu dei umas três piruetas pra trás, quatro duplos carpados pra frente, dois grupados pro alto e caí de costas, estatelado, olhando o azul do céu, sem perceber nem a sua cor, nem o brilho do sol, nem se a vida ainda continuava. Na minha cabeça a questão era, simplesmente, chamar uma ambulância, fazer uma transfusão de sangue, e depois, com um balão de oxigênio na boca, aplicar um desfiblilador no peito.

Tudo doía. Até as minhas pestanas estavam doloridas. Foram dois ataques, um por cada lado, que eu mal pude entender como vieram. Quase todos os jogadores do meu time pediram expulsão sumária e queriam brigar com os zagueiros, com o juiz e os bandeirinhas. A torcida quase invadiu o campo e acho que foi nessa hora que eu perdi as minhas duas tornozeleiras, novinhas, que eu estava estreando.

Quando os ânimos se acalmaram e eu pude voltar à vida, a estratégia do time era então segurar o final do jogo e garantir a vitória, o que já estava de bom tamanho. Eu fiquei um pouco mais recuado, até pra não passar outra refrega daquela, e tentava fazer as pernas pararem de tremer.

Dali a mais um pouco a bola ganhou o matagal ao lado e lá foram os gandulas, os meninos e os pais de alguns deles, novamente, atrás do caroço. Demorou um pouco e nesse momento eis que vem o tal baixinho pra perto de mim perguntando se eu tinha me machucado muito no lance anterior.

– Cara, eu não vi nada. Só percebi que estava no chão e nem vi direito onde a bola foi.

– Nesse condomínio o jogo é sempre duro assim mesmo. Mas você sabe porquê, né?

Eu só lembrava da frase dele falando da batata. Mas não queria retomar aquilo. Então apenas disse que era muita violência, que alguém podia se machucar seriamente e tal.

– Foi por isso que eu te avisei que o jogo era duro. Eu te falei ali no jogo: “Tem uma taça ali, valendo.” E quando tem taça, meu rei, a galera vai com tudo. Se duvidar entra de sola até na mãe.

– Ah, então era da taça que você estava falando?

– Claro. Eu estava te avisando, porque vi que você é novato aqui.

­– Ah, tá. Obrigado então pelo aviso.

Eu nem falei nada de ter entendido “tem batata ali, tá vendo?”.

E, também, foi somente nessa hora que eu percebi, ali fora, ao lado da mesa, a taça do campeonato.

Fiquei rindo sozinho, que nem um tonto.

E o juiz encerrou o jogo!

A nós, os vencedores, as batatas.

Ou melhor, as taças.